
Nunca me lembrava do teu dia de nascimento, como agora nunca me lembro do dia,
ou há quantos anos, partiste definitivamente.
Hoje o prazer de fotografar ausentou-se de mim, quando olhava o mar e caminhava
na marginal, no mesmo lugar onde habitualmente fazíamos nas nossas idas a
Viana. Ali cumpríamos o nosso ritual, Tomávamos o café no bar da praia, e
depois caminhávamos, fotografando, e conversando da nossa ideologia e
militância por um mundo melhor. Também falávamos da família dos amigos, e enquanto
isso acontecia, íamos fixando os momentos que mais nos impressionavam no cartão
digital da máquina. Tu, como eu, embevecidos pelo mar e seu fascínio e vivendo
as coisas vulgares.
Nunca foste o irmão mais próximo, quando novos, preferias os teus amigos aos
irmãos, embora as nossas diferenças de idades fossem mínimas. Não sei ao certo quando
começou a mudança e o nosso melhor entendimento, mas sei que foi muito tarde. Talvez
tenha sido quando o nosso irmão do meio ficou gravemente doente e acompanhamos
de perto a sua dor até morrer, nessa altura possivelmente sentiste a sua falta
e a importância de nos mantermos próximos. Ou talvez tivesse surgido depois
daquele AVC, de que resultou a perda temporária da fala, Era bastante doloroso
estar contigo, a dificuldade em nos perceberes, vinha no teu olhar angustiado,
magoado, receoso, comunicando o teu vazio sem a fala. Com o correr dos tempos,
com a tua força de vontade foste evoluindo e falando, trocavas os nome das
coisas, mas já comunicavas. A fotografia foi o elo que nos foi aproximando com
as nossas discussões entre o analógico e o digital e a duvidosa qualidade estética
das fotos de casamento, As diferentes técnicas da fotografia, a cor, as
capacidades de arquivo e produção no digital e a tua teimosia pelo método
antigo das máquinas analógicas. As discussões politicas, também passaram a
fazer parte do nosso aprofundamento e convívio de irmãos, nos almoços a dois
que de quando em vez fazíamos. Desde essa altura, sempre que me deslocava a
Viana para visitar os nossos outros irmãos, te tinha quase certo como
companheiro de viagem, assim como o cheiro da tua água de colónia, que todos
reconheciam, que impregnava o carro e era a tua marca de registo e tantas vezes
motivo de galhofa entre nós. Ontem vim sem a tua companhia..
Sei uma coisa irmão ausente, hoje, o longe tornou-te perto, inesperadamente. Neste
caminhar pela marginal, agora só, recordava esses momentos de partilha, e a
saudade bateu, mais dolorosa do que nunca, deixando-me a navegar na tristeza,
como se aquele mar me projectasse para o horizonte infinito e desconhecido...
tenho saudades de ti.
Viana 27MAR16