Gostaria
de contar-lhe as suas histórias e as coisas belas que acontecem nesta nossa
vivência sobre a terra, porque partilhar com ela seria dividir conhecimento e
sensibilidades. No entanto, fica-se na privacidade deste recato das mensagens
privadas, com textos mal aparelhados, sabendo que só ela os poderá ler e
interpretar o seu conteúdo, o seu silêncio e a sua ausência.
Ela pode rir-se do desacerto das letras, do vocabulário errático ou da má
qualidade da escrita, mas espera que não se ria da coragem com que ele se
atreveu a declarar o seu desconcerto quando a observa. E mesmo que nunca a
tenha perto, a sua imagem traz-lhe a sua morfologia, sem desvendar qual o
segredo de se sentir seduzido; é algo que surgiu de forma inesperada, como se
fosse a resposta ao sentimento que deseja preenchido e, por arte de telepatia,
ela tivesse entrado no seu pensamento e adentrasse na sua pessoa. Como pode uma
simples imagem justificar a razão do que sentia ao olhá-la, mesmo sabendo de
forma consciente ser somente uma imagem, que pode estar longe da realidade, e
que ela não parece suficiente para revelar quem é. É um gostar abstracto
inexplicável, quase diria injustificado, porque nada chegou até ele que
criasse, pelo menos, razão para acreditar numa comunhão de sentires. A emoção afecta-o,
ao vê-la, gera um sentimento que se entranha e cresce dia a dia; a explicação para
isso continua por encontrar e torna mais difícil afugentar os pensamentos que surgem
sem filtro.
dc