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sábado, 2 de maio de 2026

Caminhar para descobrir

 

Caminho no meio de todos aqueles pinheiros-mansos que parecem tocar o céu. Não me apercebi do transcorrer do tempo. Sei que cheguei com a claridade da tarde nublada e regressei com o dia anoitecido. A luz dos candeeiros já começava a iluminar as ruas. O relógio não merecera consulta naquela viagem inédita ao mundo dos pensamentos, como fora sugerido que o fizesse para melhor saber de mim. Alguém me dissera que seria bom estar rodeado de árvores e, se quisesse, as abraçasse; talvez a seiva que nelas corre me ensinasse outras formas de encontrar as respostas que procurava. Lembro-me do pisar da caruma, dos galhos secos a estalarem, dos estradões corta-fogo feitos na areia, de ouvir o mar distante e o cheiro da maresia misturado com o da resina dos pinheiros que atravessava todo o espaço e chegava até mim. Lembro-me de que, em certo momento, não me recordava ao certo onde estava e, muito menos, depois de tanto ter adentrado no pinheiral, de ficar com a sensação de que me perdera. Julgava eu ter caminhado em direção ao ruído do mar, mas sem bússola, ou sol, como referência e o cérebro carregado de milhares de reflexões, regressar foi uma aventura. Tudo isso foi minimizado pela calma de que estava possuído. O turbilhão que até ali me trouxera praticamente tinha desaparecido, de tal modo que, naquele mesma noite, ficou decidido o que fazer nos tempos mais próximos e com a confiança necessária para tomar todas as decisões que se impusessem para encontrar a solução que melhor servisse o meu bem-estar e o modo de vida que entendia dever seguir, contra ventos e marés.

dc


 

terça-feira, 24 de março de 2026

Porque leio as paredes


Porque leio as paredes, onde com descaro escrevem pensamentos tímidos e se declaram os seus amores, entre a escrita que fala e cores que expressam as emoções,  fui descobrindo que usam aquela tela dura, tantas vezes rasgada da sua lisura, ou tão perfeita, tão acabada que ainda se sente o cheiro da tinta, para deixar a sua impressão digital carregada de criatividade e expressividade. É bem possível que anseiem que os leiam, que os entendam e que até acabem por reconhecer a sua linguagem e diferença. Em algumas situações vi-os a criar de forma espontânea, agitando a lata de tinta spray na mão, acompanhando o corpo que se agita a cada movimento. Como um Pollock preenchendo as suas telas, vão derramando tinta. Há quem lhes chame grafiteiros, e são criticados porque “sujam” as paredes, mas eles sentem-se artistas de intervenção, produzindo mensagens que os aproximam da gente comum. Nem todos reduzem as suas pinturas a “assinaturas”, uma espécie de marca do autor, criando um alfabeto morfológico próprio. Na sua grande maioria vão mais longe do que isso, produzem painéis ricos de mensagens de intervenção política, social, publicitária de causas, cultural e estética. Não sujam as paredes, falam através delas, num suporte de mensagem de grande acessibilidade que os coloca de imediato perante o público e o seu julgamento; muitas vezes contribuíram para alertar as populações para diferentes fenómenos sociais, como uma acção de cidadania, mobilizando-as, ou para registar algum facto merecedor. Enquanto observador, não raras vezes, deixo-me levar pela sua cor, pela leitura do que me querem comunicar, e admiro-os pela sua coragem de furar a normalização num grito silencioso, em que arriscam a sua liberdade.
Fascina-me o seu trabalho e, qual parasita, aproveito para captar a sua totalidade, ou “agarrar pedaços” e registar. Gosto dos efeitos produzidos nas superfícies escolhidas como suporte do graffiti. Aquela parede granitada que produz textura e a lisa, de expressão quase fotográfica. Muitas são as diferenças, que se manifestam através da própria luz e sombra existentes no local e nas diferentes horas do dia, afectando a tonalidade das cores afectando a mensagem. É um trabalho de paciência, menos espontâneo, com longas horas de espera para encontrar o momento certo de registo. A imagem captada é produzida num outro suporte, com diferentes dimensões, e pode representar a totalidade do original captado ou parte do mesmo. O resultado final pode ser uma nova comunicação temática com uma nova proposta estética ou uma outra forma de leitura, diferente do original, mas reforçando o que pretende comunicar.

 

dc


quarta-feira, 4 de março de 2026

O tempo que nos tira tempo

 

Ficou absorto, de olhos presos no que via. Sentado, imóvel, sem alinhar dois raciocínios. Afinal, de facto, os olhos falavam muito mais do que imaginaria. Agora sentia por inteiro, já não só o corpo, mas tudo o mais que estava para além do que via. Olhava-a e via uma imensidão de vida. O brilho do sorriso, o corpo falando pela leveza das formas, os dedos aflorando a entrada dos bolsos das calças, assumindo um desenho tímido de quem espera o primeiro gesto para libertar a ternura disponível e se dar ao abraço a quem é objecto do seu desejo e amor. Acontecera o pior: as ondas do universo tinham-lhe negado a oportunidade de a encontrar na mesma fase do tempo. Lembrou-se do filme a Casa do Lago e pensou como seria bom ter uma caixa do correio onde pudesse deixar-lhe os seus pensamentos e desejos e, assim, contrariar o relógio do tempo, acertando os ponteiros, para se descobrirem. 

dc

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Na estação


   

O tempo decorria e continuava esperando a sua chegada. Ela pensa que chegará com pezinhos de lã, suavemente, com as falas da sabedoria e do prazer, que colocam borboletas no estômago, fazem o sangue fluir rápido nas veias e trazendo consigo o brilho aos olhos, brilho que adentra em raros momentos, nos quais a felicidade bate à porta. Antecipadamente, alinhavou circunstâncias, aplanou o terreno e, acima de tudo, procurou aprimorar o melhor de si. Filtrou todos os casos e acasos, procurou melhorar a forma de dizer, colocou calor, emoção e verdade nas palavras. Por precaução, esmerou o vestir, arranjou o cabelo e perfumou-se de paz, e ficou levitando nesse lugar da vida em que a esperança nos coloca. Sem temer qualquer barreira física limitativa, acreditando nas emoções, inteligência e diversidade com que chegará até ele. Há muito que acreditava na oportunidade, somente teria de manejar o momento com sabedoria, deixando as emoções e a intuição libertarem-se para que se consumasse. 

dc

domingo, 11 de janeiro de 2026

Folhas de outono


Sinto prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente, mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las, seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem, levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.

dc



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

E pronto, está dito

 

Encantado com esse teu avatar, que se atravessa no meu caminho e na mesma aventura, dentro destas páginas, feitas de pontos binários, onde somos somente uma ideia, um rascunho da realidade. Somos a vulgaridade que se faz sentir, entre "likes" e "emojis", onde os cheiros são ausência e as ideias são a multiplicação de partilhas, com textos e imagens, cujos volumes se perdem achatados pela bidimensionalidade. Deformado olhar, que se dilui na imensidão de solicitações e sugestões, que surgem em catadupa e nos colonizam, nos tornam indiferentes, com bonomia plástica perante o caos e a violência. Somos a notícia, da não notícia. Somos alimento de publicidade enganosa: “venha já chatear connosco”, como se não tivesse melhor na cabeça, do que vir para aqui “chatear”, nas redes sociais. No entanto, o teu avatar diverte-me porque não me ilude, alimenta a curiosidade, ao mesmo tempo que se descredibiliza, quanto à responsabilidade do que diz e apresenta. Torna-se assim divertido como jogo de paciência, onde se procura, encontrar debaixo de uma pele possível, algo mais do que aparentemente quer dizer. Assim, se usa este espaço como lugar de partilha, de distração espiritual e humorística, página de comunicação de pensamentos e preocupações que o algoritmo tenta anular. Persisto na ideia e acredito que de onde em onde, se pode furar o bloqueio dos mandantes e possamos ser escutados, lidos apercebidos, avaliados, julgados, positiva ou negativamente, pelos viajantes que, como eu, navegam nesta comunicação fria. Assim, assumo que o meu passeio, pelas páginas desta rede como adjectivo social não é em vão. Tento, presumo, que com isso motive muitos mais a não adormecerem na narrativa de quem manda e acreditem na sua capacidade e intuição para encararem as melhores opções perante a sociedade. É bom ver caras bonitas, físicos bem proporcionados, mas não adianta muito se não tiverem atrelados, outros conhecimentos, que sirvam como referência, ao que tipo de amizade que poderá ser vivida, mantida, acalentada, conjugando diferentes modos de pensar num caminho de diversidade e aprendizagem.

 

dc

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Cravo foste na nossa vida


Naquele dia 27 de dezembro, em que o teu choro recém-nascido, se tornou presença nas nossas vidas, assumimos a responsabilidade que é formar um ser humano. Não sei ainda, passados estes anos todos se fizemos o nosso papel como deve ser, mas de verdade, nos esforçamos para que tal acontecesse. Tu que foste a revolução na vida de um casal jovem, vivendo uma revolução de cravos na mão. Cravo foste na nossa vida e até hoje perfumas e nos dás força para viver.
Actualmente são maiores os desafios e o amadurecimento a que somos forçados, o coração endurece e com isso as formas de nos expressarmos. A saúde, as dificuldades económicas, e a sociedade no seu todo se alterou, infelizmente não para melhor, mas a escola da revolução do passado e o crescer, na vida que tens vivido, deram-te as defesas, que são a base da tua tenacidade e capacidade para superar os desafios que se te deparam.

É difícil escrever sobre a importância da tua presença, na minha vida. Hoje não és somente filha, esposa, mãe, és também alguém responsável que vela por outros, que também são pais e filhos de alguém. Ao aperceber-me disso, reparo que afinal já dobraste a da data da revolução dos cravos e tudo o que isso significa.

Afinal, as palavras navegam nas frases deste texto, são só um pretexto para te dizer, que por vezes, por estupidez, ou comodismo, não nos expressamos devidamente. O amor é uma escolha, ela se mantém nesta responsabilidade de ser pai. Sabes que contas comigo, para te apoiar a superar, os momentos fáceis ou difíceis, sem deixar de acreditar que és forte o suficiente para os enfrentar, mas que o abraço de um pai sempre é um conforto extra, nas nossas vidas.

Beijinhos um XI coração do tamanho do mundo e até mais logo.


DC 

28DEZ25

PS. um dia depois, porque um crash me surpreendeu. Hoje não falhou

 

domingo, 12 de outubro de 2025

Não sobrecarregues o teu silêncio...


Não sobrecarregues o teu silêncio, experiencia-o e apreende, ele existe na construção do que és. Tudo o que ele começa por aportar, no correr da sua existência, vai-se diluindo, torna-se meditativo, preenchido por ideias e imagens, que não param no tempo, mas vão evoluindo de um ponto a outro, trazendo novas energias e melhores perspectivas. Escolhemos o silêncio, como necessidade intrínseca do próprio sujeito, ou como resposta de circunstância. Pode ser um silêncio a sós, ou, acompanhado, e neste último caso, é importante que exista espaço e respeito mútuo, entre quem o pratica e com quem se partilha, mais do que silêncio.

dc

segunda-feira, 9 de junho de 2025

SobrePosição

A vida também é um cruzeiro, mas não de além-mar, é um caminho pela terra, onde também se pode navegar, ou naufragar. Criam-se expectativas, sonha-se o seu mar e todos os portos onde ficar. A terra que queremos ver, o povo do seu lugar, a companhia com que levamos e queremos amar. Toda a descoberta, é um caminho a crescer dentro de nós, a mente, sem esforço, apreende esse modo de estar, tem imagens gravadas, na memória de futuros no momento de recordar.
A impaciência, a imperiosa exigência, de antes o mar para navegar, não condiz com a vida, que na terra, nem o sonho deixa pensar. A vontade pode ser muita de cortar horizontes, mas a vida não é uma permuta, nem profícua em ingredientes, dando-nos a esse luxo. Temos de ter os pés bem assentes em terreno seguro, porque voar sem estratégia de como pousar, pode ser como um astronauta, na lua sem pousar.

 

dc

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Às vezes acontece

 

A chuva batia, com força, contra os vidros, trazida pelo vento, como se estivéssemos em pleno inverno. Chuva, vento e frio, tempo ideal para aproveitar, para descansar.

Na cama permanece o calor dos corpos, que durante noite deram espaço e desvelo, aos desejos e instintos, ficando sadiamente reconfortados.

Na véspera, ela tinha chegado de avião, após uma viagem de mais de dez horas.


Ele tinha ido ao aeroporto, esperar a sua chegada. O seu rosto vinha marcado pelo cansaço, mas não o suficiente para que os seus lindos olhos, cor de esmeralda, perdessem o seu brilho, nem que o seu sorriso, deixasse de desenhar a sua boca carnuda, pintada com batom vermelho. Reparei nas suas calças e blusa, que embora simples, davam-lhe elegância e juventude. Eu estava, vestido em modo desportivo, polo e calças de ganga, e um ramo de flores com cheiro de primavera. Quando os nossos olhares se cruzaram e o reconhecimento foi feito, a mala que empurrava, assim como o casaco, foram largados, enquanto aceleravam o passo dirigindo-se um ao encontro do outro, até se abraçarem. Ele, eufórico, elevava-a no ar expressando o seu entusiasmo, beijando-se, pela primeira vez. A doideira concretizara-se, afinal não fora tempo perdido, algo acontecera que os fizera juntar-se, mesmo quando tudo parecia ser impossível.

Depois de um jantar simples, em lugar agradável, conversaram sem tempo, desatando nós, que pudessem trazer qualquer percalço, naquilo a que se propunham. Olhares se adentrando, à descoberta do que os animava, como se quisessem confirmar, quanto era real. Os dedos, mutuamente tocando as faces, como que desenhando e memorizando todos os pormenores e a tepidez da pele. O cabelo comprido dela, solto sobre os ombros, realçava-lhe o formato do rosto, belo, determinado, mostrando a alegria de estar ali. Os lábios eram macios, quentes, o seu beijo sabia bem.
Ao saírem traziam consigo o calor do ambiente vivido; não havia, como não confessar o efeito dum vinho generoso, que acompanhara a refeição.

A viagem até a casa tinha uma pressa desajustada, para quem quer registar e viver tudo em pormenor, mas havia a urgência, de estarem juntos em lugar mais discreto, onde pudessem estar à vontade, em intimidade.
Foi uma noite, onde não há palavras que a expliquem, as únicas palavras soltas, foram trocadas em momentos, onde os corpos falaram, as carícias se duplicaram até o prazer chegar, em plena realização dos sentidos.

O cansaço baixou-lhes a pálpebras, como persianas que tiram o sol dos olhos, o diálogo foi-se diluindo com as palavras se enrolando. Adormeceram abraçados, respirando pausadamente e sentido o cheiro adocicado dos corpos. O sono seria o complemento da certeza de que uma nova estória se estava escrevendo nas suas vidas.

A chuva fazia-se sentir....medo de abrir os olhos...temia que tivesse sido somente um sonho, do qual não queria acordar...

dc


sexta-feira, 16 de maio de 2025

Dar um tempo

 

O tempo não se dá, essa é uma ideia que morre, mal se pensa que se pode dar tempo. Traz desde logo, em si, julgamento, em relação ao momento, por insuficiente, demasiado, perdido, tudo isso, mesmo sem saber em relação a quê, e porquê? Afinal que tempo se dá, se interrompemos o tempo, que só existe no conhecimento, ou reconhecimento, da sua presença. Na realidade dar um tempo, é uma forma subtil, de fugir à responsabilidade do que se assumiu, ou não assumiu, de analisar, ou não analisar, talvez até, fugir à oportunidade de esclarecer, das vantagens, ou desvantagens, de “perder” ou “ganhar” tempo, ou o que implica essa decisão. Se dar tempo, tem como objectivo a qualidade de viver o tempo, desperdiça-lo é impedir de viver e aproveitar todos os milésimos de tempo presente, antes de ser passado.

Dar um tempo, será uma afirmação inconsequente, cujo o efeito, à partida é uma objeção, baseada no medo, nas circunstâncias sentidas e vividas, impondo o facto consumado, a um desentendimento, ou instabilidade emocional, no presente, com consequências no futuro próximo.

dc


sábado, 10 de agosto de 2024

DIvagando


Desfiz as malas, pouco tempo após chegar a casa.
Olhei, o espaço, retomei os lugares, arrumei o que havia para arrumar e pus a lavar o que havia para lavar.
Seguiu-se um banho relaxante, enquanto o livre pensamento desfilava sobre o modo como corre a vida, abstraindo-me de entrar a pés juntos nas rotinas.
Tento fazer um esforço para procurar descobrir, que sintonias encontrar, que intuições saem de mim, para seguir com o pós férias. Cansa a repetição insuportável, que estabelece que as férias existem, para sossegar do trabalho, e que este serve para suportar as férias que sempre gozávamos. Cansa a ausência de energia, para trazer a paz necessária, para abandonar tudo, encontrar o voo certo, para derrubar, todas as regras absurdas que a sociedade nos impõe como único caminho para sermos gente. A natureza ensina muito com o seu desenvolvimento, como reage à interferência dos humanos, com a sua evolução ou paragem, regeneração e morte.
Se a energia domina a constituição do nosso corpo, como nos deixamos dominar pela imposição de estruturas contra-natura?

dc

 


quarta-feira, 3 de julho de 2024

Insónia


Tem noites, como agora, em que acordo sobressaltado, como se tudo já tivesse dormido. Fico ensimesmado procurando a razão, de tal acontecer, pois, de facto gostaria de voltar a adormecer. No entanto, o sono não volta e a mente fica solta, na procura do que fazer. Se contar carneiros não me faz entorpecer e os olhos fechar, continuo o divagar, à volta de pensamentos estranhos, ou preocupares tamanhos, tornado-se um inferno, pior que noite fria de inverno. Tento ler para voltar a adormecer. Escolho um livro desinteressante(?), mas é difícil, ele tem tantas palavras e frases construidas que ao raciocínio dão asas, e me levam a voar, neste continuar sem saber, se estou a pensar ou a sonhar, não entendendo se de olhos fechados, ou abertos, e os sentidos despertos. Há quem lhe chame Insónia, mas eu tenho dúvidas, não conheço tal “pessoa”, que ao sono traga tanta cerimónia. Resolvo debitar palavras seguidas, sem fio condutor que revele saber, e acabo por resolver, que tenho de parar, não vá acertar no que estou a dizer, e fiquem a saber que tenho dificuldade em adormecer.
A noite já vai alta e fico em silêncio, aproveitando o vazio que se instala, olhando os livros nas estantes da sala, pensando, pensando, tentando tomar consciência da proveniência deste acontecer, sem chegar a conclusão alguma. Possivelmente, como tem sido costume nos últimos tempos, acordarei sentado no sofá, com dores em todo o corpo, de mau humor e desde logo a tentar resolver, os muitos problemas que já fazem parte da rotina, de quem procura sobreviver no marasmo social e politiqueiro deste país governado, pelos desgovernados eleitos. Ah, será isto que provoca a tal insónia?


dc


sábado, 1 de junho de 2024

Maio já lá vai

Maio se finda, trazendo algum calor que tanto desejamos e precisamos. O verão chega a passos acelerados, para nos fazer esquecer o rigor do inverno, com a sua chuva e frio necessários, para a evolução das espécies, no entanto, para nós pobres mortais, um quanto exagerado que foi, nos faz apreciar, com mais fervor, este sol que nos aquece e ilumina, de tal sorte, que os olhos brilham, os sorrisos aparecem, o modo de vestir se altera e até o prazer das verduras no prato e a riqueza das frutas, nos alegram. A natureza, e as suas diferentes virtudes, nos lembra que a Terra é um belo lugar para se viver e só o egoísmo e brutalidade dos homens que a agridem e desrespeitam a podem provocar, e a que vá encontrando meios para se defender. E acaso essa bestialidade humana se descuidar, “nuclearizando” e destruindo a sua forma de vida como a conhecemos, ela sempre encontrará forma de se regenerar demorando o tempo que for necessário, sem esperar pelo reaparecimento da raça humana.
Recomendo que aproveitem a natureza. Não embarquem, em ódios de alguns humanos, que se julgam capazes, pelo seu poder, causarem a degradação da Terra e a da sua natureza, sendo eles os únicos sobreviventes, comprando um bunker, ou fazendo uma viagem espacial temporária. 


dc


quinta-feira, 23 de maio de 2024

Meditar de fato-macaco


Está sentado no banco do jardim. Veste uma espécie de fato-macaco escuro, com marca de uma empresa, no peito do blusão, que parece ser de uma oficina mecânica, talvez a mecânica seja a sua profissão. À sua frente, e nas suas costas, estão os prédios da cooperativa, que tem um nome sugestivo “Gente do Amanhã”. Não é a primeira vez que por ali está. Aquele é o lugar, que parece ter sido, escolhido para se isolar e fazer o seu almoço. Ele chega, encosta a bicicleta no gradeamento, e ali, longe de restaurantes acessíveis, e possíveis, tira a sua bucha e com ar meditativo inicia o seu repasto. O seu olhar, abrange a zona ajardinada e a parede do prédio à sua frente. É um olhar vago, como que perdido, entre a mastigação e os pensamentos que o assaltam, naquela meditação procurada. Os pássaros, sentem-no e na ânsia de encontrar pequenas sobras, rodeiam-no de forma agitada, em diferentes pio, pios. Os melros, que abundam naquele lugar, percorrem a zona relvada, movimentando-se na procura de galhos e comida. Nem a sua graciosidade, motiva a sua atenção. Nada parece afastá-lo daquele ar vago. Está, como se procurasse encontrar a explicação, para aquele seu, estar ali. Fica-me a dúvida, se a razão de estar ali, tem a ver com uma razão de ordem económica, ou simplesmente, foi uma forma por si escolhida de encontrar a própria paz. No meio de toda a luta diária, dos dias de hoje, encontrar paz, e recuperar o equilíbrio, é quase obrigatório, para sobreviver.
O primeiro de Maio, dia do trabalhador, celebrou-se há alguns dias, muito há ainda para lutar. Questiono-me: será que ele pensa, na gente do amanhã? Terá ele algum dia ouvido, ou lido, o poema de Vinicius “Operário em construção”?


dc
………

     Um silêncio de torturas 
     E gritos de maldição 
     Um silêncio de fraturas 
     A se arrastarem no chão. 
     E o operário ouviu a voz 
     De todos os seus irmãos 
     Os seus irmãos que morreram 
     Por outros que viverão. 
     Uma esperança sincera 
     Cresceu no seu coração 
     E dentro da tarde mansa 
     Agigantou-se a razão 
     De um homem pobre e esquecido 
     Razão porém que fizera 
     Em operário construído 
     O operário em construção.

                 (última parte do poema "Operário em construção" de Vnicius de Morais)


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Não me apetece sorrir

Pintaram-lhe o rosto
A criança não entendia
Tal não era suposto
Se tanta criança sofria

O poeta dimensiona a dor
Que sua fragilidade suporta
Aqueles olhos falam, não por favor
Hoje em Gaza muita gente foi morta

 

Um dia, o carnaval será de paz
E alegria numa festa de liberdade
Trocando a mentira e o “tanto faz”
Pela vivência com a fraternidade

 

                                                    dc

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Ali, somente parados

Ali, somente parados, não de mãos dadas, o frio era maior. O seu amor já não exigia tal, bastava o ombro a ombro. Não falavam um com o outro, sentiam-se presentes, deixavam-se ficar, somente ali, sentindo a brisa, embevecendo-se com aquele céu, rico de tonalidades e desenhos mágicos e aguçando o seu imaginário, um mar que lhes permitia navegar, especulando para além do horizonte longínquo.

 

 dc


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Hoje, é dia de celebração

 

Tenho pena, de me ter perdido das palavras escritas, que antigamente surgiam a todo o vapor, e que vertia no papel com rapidez, com o medo que elas se perdessem no labirinto dos pensamentos. Hoje é o dia do teu aniversário, as emoções de todos estes anos passados são tantas, tornam a tarefa ainda mais difícil. Surgem palavras tão comuns e desacertadas, que não correspondem ao que durante todos estes anos, vivemos, sentimos e realizamos. Talvez as palavras, que surgem de seguida no texto, não expressem o calor, o carinho, nem as diferentes emoções, que neste momento vêm a superfície. O que vivenciamos, no acompanhar do teu crescimento, com as dificuldades económicas, o tempo de estudo na escola, mais tarde na universidade, discutindo os trabalhos e as notas. As pequenas escaramuças comuns de um pai, que se arrogou no direito de te criar, e acompanhar até ao dia que saíste para viver com o teu companheiro de sempre e formar a tua própria família. Sinto que é insuficiente dizer-te o quanto brilhas para mim, por tudo aquilo em que te transformaste, e me deixa orgulhoso, nesse teu percurso desde menininha, à senhora casada, com o homem que escolheste, como pilar de entendimento, para a realização de objectivos maiores, e trouxeram à luz do dia um filho (o neto, que tanto desejava).
Eu disse, no início deste escrito, que já não sabia arrumar as palavras como outrora, e falta-lhes, talvez, a riqueza de vocabulário, ou a beleza que merecias, mas espero que me perdoes. Só queria que soubesses, que mais do que um jantar de aniversário, ou o estourar do champanhe, há coisas deliciosas, não descritas aqui, que ainda fervilham em mim, permanecerão para o resto dos meus dias caladas bem no fundo do meu ser.

Um beijo, e um Xi coração do tamanho do mundo.
DC


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

A distância é terrível.

Conheceram-se, de modo inusitado. As circunstâncias limitaram-lhe os horizontes. Distantes, sem a presença física, vão recorrendo às novas tecnologias, para que a imagem lhes permita verem-se e conversar, alimentando os seus sentimentos, trocando ideias realçando valores, e as suas diferenças de personalidade. Ela trabalhava por turnos numa vida dura, ele “Freelancer”, estava sem horários fixos e com disponibilidade. Inúmeras eram manhãs que acordava com a sua voz, assim como as despedidas de boa noite, quando ficava em casa e podiam conversar mais um tempo em horário mais comum. Cada dia, uma revelação, cada noite a dor de ausência, mas nada os afastava.

Foram planeando uma vida, vivendo sonhos, desbravando a floresta densa com passeios imaginários, avaliando o presente, imaginando e criando sonhos especulando o futuro. Exploravam o blá blá da sina da cigana, que os colocara na mesmo caminho, como almas próximas. Eram dias de dor pela distância, ricos de comunicação, de revelação de quem somos e como somos, anulando sombras, preparando o terreno para quando a oportunidade chegasse, ficarem juntos de forma plena e perene. Os sonhos são bons e alimentam forças incríveis, mas a sua realização é mais complexa, é necessário dar o passo em frente, para que a solução se encontre, para que as vontades e desejos expressos se concretizem, caso contrário, a distância prolongada e a rotina da ausência, porão em causa os sentimentos, diluirão as memórias do tacto, dos cheiros, dos sons e das vivências na pele. Tudo tem o seu tempo, não se podem queimar etapas por medos ou inseguranças. Ter medo de errar é entorpecer e ficar sem capacidade de decisão. Procurar na comunicação moderna a aproximação, é uma solução precária de alimentar situações irrealizáveis, esgrimir ausências, vazios e soluções questionáveis. A distância é terrível, provoca fissuras na estrutura emocional, por vezes irreparáveis.

 

dc

 

"Amor sem verdade é paixão; verdade sem amor é crueldade". A frase é do psicanalista Wilfred R. Bion:



sábado, 30 de setembro de 2023

Outono?

No findar do mês, com o Outono marcando os dias, não ainda, pelo excesso de folhas caídas sobre a superfície dos chãos, antes por este calor inesperado, que traz sorrisos e fadiga ao corpo. Há que aproveitar para nos adaptamos à diferença, fazendo memória e reescrevendo a estória, que define as estações do ano, com as emoções que evocam. Os pássaros, ainda estão pelos beirais como se não quisessem partir, as gaivotas, continuam frequentando os areais, e o pôr-do-sol, ainda é bem visível no horizonte, com seus tons quentes, na variação de tons laranja e vermelhos intensos. Quase nos sentimos flutuar, em vez de caminhar, como se fosse presente a ausência de gravidade. É estranho, o modo como o clima nos dias de hoje, se torna tão imprevisível, e nos impede as rotinas das diferentes estações climáticas. Os tons ocres, estão afastados dos nossos olhares, os azuis predominam, os brilhos da claridade, sustentam uma atmosfera, extra-sensorial, que vai modelando relevos nas figuras, que ao nosso redor, habitam. Os sorrisos desenham os rostos, os cabelos, soltam-se na brisa leve, as roupas fluidas na leveza dos tecidos, e o odor da maresia, vai-se misturando com perfume doce que vem da terra ressequida. Do mesmo modo, o amor rejuvenesce entre os seres, os amantes vão retardando a calmaria outonal, intensificando as suas vivências, aproveitando-se com frenesim deste novo instante que a natureza os presenteou. Fica a dúvida, se é um fenómeno transitório, e que tudo beneficia, ou se é mais uma partida, que as variações climáticas nos pregam para sabermos, o quanto mal tratamos a Terra.

 

dc