O tempo decorria e continuava esperando a sua
chegada. Ela pensa que chegará com pezinhos de lã, suavemente, com as falas da
sabedoria e do prazer, que colocam borboletas no estômago, fazem o sangue fluir
rápido nas veias e trazendo consigo o brilho aos olhos, brilho que adentra em
raros momentos, nos quais a felicidade bate à porta. Antecipadamente, alinhavou
circunstâncias, aplanou o terreno e, acima de tudo, procurou aprimorar o melhor
de si. Filtrou todos os casos e acasos, procurou melhorar a forma de dizer,
colocou calor, emoção e verdade nas palavras. Por precaução, esmerou o vestir, arranjou
o cabelo e perfumou-se de paz, e ficou levitando nesse lugar da vida em que a
esperança nos coloca. Sem temer qualquer barreira física limitativa,
acreditando nas emoções, inteligência e diversidade com que chegará até ele. Há
muito que acreditava na oportunidade, somente teria de manejar o momento com sabedoria,
deixando as emoções e a intuição libertarem-se para que se consumasse.
dc
sábado, 17 de janeiro de 2026
Na estação
domingo, 11 de janeiro de 2026
Folhas de outono
Sinto
prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus
diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a
pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que
aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que
permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o
gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse
de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure
reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades
duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me
enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente,
mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las,
seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las
através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais
tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as
emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem,
levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e
afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.
dc
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
E pronto, está dito
Encantado com esse teu avatar, que se atravessa no meu caminho e na mesma aventura, dentro destas páginas, feitas de pontos binários, onde somos somente uma ideia, um rascunho da realidade. Somos a vulgaridade que se faz sentir, entre "likes" e "emojis", onde os cheiros são ausência e as ideias são a multiplicação de partilhas, com textos e imagens, cujos volumes se perdem achatados pela bidimensionalidade. Deformado olhar, que se dilui na imensidão de solicitações e sugestões, que surgem em catadupa e nos colonizam, nos tornam indiferentes, com bonomia plástica perante o caos e a violência. Somos a notícia, da não notícia. Somos alimento de publicidade enganosa: “venha já chatear connosco”, como se não tivesse melhor na cabeça, do que vir para aqui “chatear”, nas redes sociais. No entanto, o teu avatar diverte-me porque não me ilude, alimenta a curiosidade, ao mesmo tempo que se descredibiliza, quanto à responsabilidade do que diz e apresenta. Torna-se assim divertido como jogo de paciência, onde se procura, encontrar debaixo de uma pele possível, algo mais do que aparentemente quer dizer. Assim, se usa este espaço como lugar de partilha, de distração espiritual e humorística, página de comunicação de pensamentos e preocupações que o algoritmo tenta anular. Persisto na ideia e acredito que de onde em onde, se pode furar o bloqueio dos mandantes e possamos ser escutados, lidos apercebidos, avaliados, julgados, positiva ou negativamente, pelos viajantes que, como eu, navegam nesta comunicação fria. Assim, assumo que o meu passeio, pelas páginas desta rede como adjectivo social não é em vão. Tento, presumo, que com isso motive muitos mais a não adormecerem na narrativa de quem manda e acreditem na sua capacidade e intuição para encararem as melhores opções perante a sociedade. É bom ver caras bonitas, físicos bem proporcionados, mas não adianta muito se não tiverem atrelados, outros conhecimentos, que sirvam como referência, ao que tipo de amizade que poderá ser vivida, mantida, acalentada, conjugando diferentes modos de pensar num caminho de diversidade e aprendizagem.
dc
domingo, 28 de dezembro de 2025
Cravo foste na nossa vida
Naquele dia 27 de dezembro, em que o
teu choro recém-nascido, se tornou presença nas nossas vidas, assumimos a
responsabilidade que é formar um ser humano. Não sei ainda, passados estes anos
todos se fizemos o nosso papel como deve ser, mas de verdade, nos esforçamos
para que tal acontecesse. Tu que foste a revolução na vida de um casal jovem,
vivendo uma revolução de cravos na mão. Cravo foste na nossa vida e até hoje
perfumas e nos dás força para viver.
Actualmente são maiores os desafios e o amadurecimento a que somos forçados, o
coração endurece e com isso as formas de nos expressarmos. A saúde, as
dificuldades económicas, e a sociedade no seu todo se alterou, infelizmente não
para melhor, mas a escola da revolução do passado e o crescer, na vida que tens
vivido, deram-te as defesas, que são a base da tua tenacidade e capacidade para
superar os desafios que se te deparam.
É difícil escrever sobre a
importância da tua presença, na minha vida. Hoje não és somente filha, esposa,
mãe, és também alguém responsável que vela por outros, que também são pais e
filhos de alguém. Ao aperceber-me disso, reparo que afinal já dobraste a da
data da revolução dos cravos e tudo o que isso significa.
Afinal, as palavras navegam nas frases deste texto, são só um pretexto para te
dizer, que por vezes, por estupidez, ou comodismo, não nos expressamos
devidamente. O amor é uma escolha, ela se mantém nesta responsabilidade de ser pai.
Sabes que contas comigo, para te apoiar a superar, os momentos fáceis ou difíceis,
sem deixar de acreditar que és forte o suficiente para os enfrentar, mas que o
abraço de um pai sempre é um conforto extra, nas nossas vidas.
Beijinhos um XI coração do tamanho do mundo e até mais logo.
DC
28DEZ25
PS. um dia depois, porque um crash me surpreendeu. Hoje não falhou
domingo, 12 de outubro de 2025
Não sobrecarregues o teu silêncio...
Não sobrecarregues o teu silêncio, experiencia-o e apreende, ele existe na construção do que és. Tudo o que ele começa por aportar, no correr da sua existência, vai-se diluindo, torna-se meditativo, preenchido por ideias e imagens, que não param no tempo, mas vão evoluindo de um ponto a outro, trazendo novas energias e melhores perspectivas. Escolhemos o silêncio, como necessidade intrínseca do próprio sujeito, ou como resposta de circunstância. Pode ser um silêncio a sós, ou, acompanhado, e neste último caso, é importante que exista espaço e respeito mútuo, entre quem o pratica e com quem se partilha, mais do que silêncio.
dc
segunda-feira, 9 de junho de 2025
SobrePosição
A vida também é um cruzeiro, mas não
de além-mar, é um caminho pela terra, onde também se pode navegar, ou naufragar.
Criam-se expectativas, sonha-se o seu mar e todos os portos onde ficar. A terra
que queremos ver, o povo do seu lugar, a companhia com que levamos e queremos
amar. Toda a descoberta, é um caminho a crescer dentro de nós, a mente, sem
esforço, apreende esse modo de estar, tem imagens gravadas, na memória de
futuros no momento de recordar.
A impaciência, a imperiosa exigência, de antes o mar para navegar, não condiz
com a vida, que na terra, nem o sonho deixa pensar. A vontade pode ser muita de
cortar horizontes, mas a vida não é uma permuta, nem profícua em ingredientes,
dando-nos a esse luxo. Temos de ter os pés bem assentes em terreno seguro,
porque voar sem estratégia de como pousar, pode ser como um astronauta, na lua
sem pousar.
dc
sexta-feira, 30 de maio de 2025
Às vezes acontece
A chuva batia, com força, contra os vidros, trazida pelo vento, como se estivéssemos em pleno inverno. Chuva, vento e frio, tempo ideal para aproveitar, para descansar.
Na cama permanece o
calor dos corpos, que durante noite deram espaço e desvelo, aos desejos e
instintos, ficando sadiamente reconfortados.
Na véspera, ela tinha chegado de avião, após uma viagem de mais de dez horas.
Ele tinha ido ao aeroporto,
esperar a sua chegada. O seu rosto vinha marcado pelo cansaço, mas não o
suficiente para que os seus lindos olhos, cor de esmeralda, perdessem o seu
brilho, nem que o seu sorriso, deixasse de desenhar a sua boca carnuda, pintada
com batom vermelho. Reparei nas suas calças e blusa, que embora simples, davam-lhe
elegância e juventude. Eu estava, vestido em modo desportivo, polo e calças de
ganga, e um ramo de flores com cheiro de primavera. Quando os nossos olhares se
cruzaram e o reconhecimento foi feito, a mala que empurrava, assim como o
casaco, foram largados, enquanto aceleravam o passo dirigindo-se um ao encontro
do outro, até se abraçarem. Ele, eufórico, elevava-a no ar expressando o seu
entusiasmo, beijando-se, pela primeira vez. A doideira concretizara-se, afinal
não fora tempo perdido, algo acontecera que os fizera juntar-se, mesmo quando
tudo parecia ser impossível.
Depois de um jantar
simples, em lugar agradável, conversaram sem tempo, desatando nós, que pudessem
trazer qualquer percalço, naquilo a que se propunham. Olhares se adentrando, à
descoberta do que os animava, como se quisessem confirmar, quanto era real. Os
dedos, mutuamente tocando as faces, como que desenhando e memorizando todos os
pormenores e a tepidez da pele. O cabelo comprido dela, solto sobre os ombros,
realçava-lhe o formato do rosto, belo, determinado, mostrando a alegria de estar
ali. Os lábios eram macios, quentes, o seu beijo sabia bem.
Ao saírem traziam consigo o calor do ambiente vivido; não havia, como não
confessar o efeito dum vinho generoso, que acompanhara a refeição.
A viagem até a casa tinha uma pressa desajustada, para quem quer registar e
viver tudo em pormenor, mas havia a urgência, de estarem juntos em lugar mais
discreto, onde pudessem estar à vontade, em intimidade.
Foi uma noite, onde não há palavras que a expliquem, as únicas palavras soltas,
foram trocadas em momentos, onde os corpos falaram, as carícias se duplicaram até
o prazer chegar, em plena realização dos sentidos.
O cansaço baixou-lhes a
pálpebras, como persianas que tiram o sol dos olhos, o diálogo foi-se diluindo
com as palavras se enrolando. Adormeceram abraçados, respirando pausadamente e
sentido o cheiro adocicado dos corpos. O sono seria o complemento da certeza de
que uma nova estória se estava escrevendo nas suas vidas.
A chuva fazia-se sentir....medo
de abrir os olhos...temia que tivesse sido somente um sonho, do qual não queria
acordar...
dc
sexta-feira, 16 de maio de 2025
Dar um tempo
O tempo não se dá, essa é uma ideia que morre, mal se pensa que se pode dar tempo. Traz desde logo, em si, julgamento, em relação ao momento, por insuficiente, demasiado, perdido, tudo isso, mesmo sem saber em relação a quê, e porquê? Afinal que tempo se dá, se interrompemos o tempo, que só existe no conhecimento, ou reconhecimento, da sua presença. Na realidade dar um tempo, é uma forma subtil, de fugir à responsabilidade do que se assumiu, ou não assumiu, de analisar, ou não analisar, talvez até, fugir à oportunidade de esclarecer, das vantagens, ou desvantagens, de “perder” ou “ganhar” tempo, ou o que implica essa decisão. Se dar tempo, tem como objectivo a qualidade de viver o tempo, desperdiça-lo é impedir de viver e aproveitar todos os milésimos de tempo presente, antes de ser passado.
Dar um tempo, será uma
afirmação inconsequente, cujo o efeito, à partida é uma objeção, baseada no
medo, nas circunstâncias sentidas e vividas, impondo o facto consumado, a um
desentendimento, ou instabilidade emocional, no presente, com consequências no
futuro próximo.
dc
sábado, 10 de agosto de 2024
DIvagando
Desfiz as malas, pouco tempo após chegar a casa.
Olhei, o espaço, retomei os lugares, arrumei o que havia para arrumar e
pus a lavar o que havia para lavar.
Seguiu-se um banho relaxante, enquanto o livre pensamento desfilava sobre
o modo como corre a vida, abstraindo-me de entrar a pés juntos nas rotinas.
Tento fazer um esforço para procurar descobrir, que sintonias encontrar,
que intuições saem de mim, para seguir com o pós férias. Cansa a repetição
insuportável, que estabelece que as férias existem, para sossegar do trabalho,
e que este serve para suportar as férias que sempre gozávamos. Cansa a ausência
de energia, para trazer a paz necessária, para abandonar tudo, encontrar o voo
certo, para derrubar, todas as regras absurdas que a sociedade nos impõe como
único caminho para sermos gente. A natureza ensina muito com o seu
desenvolvimento, como reage à interferência dos humanos, com a sua
evolução ou paragem, regeneração e morte.
Se a energia domina a constituição do nosso corpo, como nos deixamos dominar
pela imposição de estruturas contra-natura?
dc
quarta-feira, 3 de julho de 2024
Insónia
Tem
noites, como agora, em que acordo sobressaltado, como se tudo já tivesse
dormido. Fico ensimesmado procurando a razão, de tal acontecer, pois, de facto
gostaria de voltar a adormecer. No entanto, o sono não volta e a mente fica
solta, na procura do que fazer. Se contar carneiros não me faz entorpecer e os
olhos fechar, continuo o divagar, à volta de pensamentos estranhos, ou
preocupares tamanhos, tornado-se um inferno, pior que noite fria de inverno.
Tento ler para voltar a adormecer. Escolho um livro desinteressante(?), mas é
difícil, ele tem tantas palavras e frases construidas que ao raciocínio dão
asas, e me levam a voar, neste continuar sem saber, se estou a pensar ou a
sonhar, não entendendo se de olhos fechados, ou abertos, e os sentidos
despertos. Há quem lhe chame Insónia, mas eu tenho dúvidas, não conheço tal “pessoa”,
que ao sono traga tanta cerimónia. Resolvo debitar palavras seguidas, sem fio
condutor que revele saber, e acabo por resolver, que tenho de parar, não vá
acertar no que estou a dizer, e fiquem a saber que tenho dificuldade em
adormecer.
A noite já vai alta e fico em silêncio, aproveitando o vazio que se instala,
olhando os livros nas estantes da sala, pensando, pensando, tentando tomar
consciência da proveniência deste acontecer, sem chegar a conclusão alguma. Possivelmente,
como tem sido costume nos últimos tempos, acordarei sentado no sofá, com dores
em todo o corpo, de mau humor e desde logo a tentar resolver, os muitos
problemas que já fazem parte da rotina, de quem procura sobreviver no marasmo
social e politiqueiro deste país governado, pelos desgovernados eleitos. Ah,
será isto que provoca a tal insónia?
dc
sábado, 1 de junho de 2024
Maio já lá vai
Maio se finda, trazendo algum
calor que tanto desejamos e precisamos. O verão chega a passos acelerados, para
nos fazer esquecer o rigor do inverno, com a sua chuva e frio necessários, para
a evolução das espécies, no entanto, para nós pobres mortais, um quanto
exagerado que foi, nos faz apreciar, com mais fervor, este sol que nos aquece e
ilumina, de tal sorte, que os olhos brilham, os sorrisos aparecem, o modo de
vestir se altera e até o prazer das verduras no prato e a riqueza das frutas,
nos alegram. A natureza, e as suas diferentes virtudes, nos lembra que a Terra
é um belo lugar para se viver e só o egoísmo e brutalidade dos homens que a
agridem e desrespeitam a podem provocar, e a que vá encontrando meios para se
defender. E acaso essa bestialidade humana se descuidar, “nuclearizando” e
destruindo a sua forma de vida como a conhecemos, ela sempre encontrará forma
de se regenerar demorando o tempo que for necessário, sem esperar pelo
reaparecimento da raça humana.
Recomendo que aproveitem a natureza. Não embarquem, em ódios de alguns humanos,
que se julgam capazes, pelo seu poder, causarem a degradação da Terra e a da
sua natureza, sendo eles os únicos sobreviventes, comprando um bunker, ou
fazendo uma viagem espacial temporária.
dc
quinta-feira, 23 de maio de 2024
Meditar de fato-macaco
Está sentado no banco do jardim. Veste uma espécie de fato-macaco escuro, com
marca de uma empresa, no peito do blusão, que parece ser de uma oficina mecânica,
talvez a mecânica seja a sua profissão. À sua frente, e nas suas costas, estão
os prédios da cooperativa, que tem um nome sugestivo “Gente do Amanhã”. Não é a
primeira vez que por ali está. Aquele é o lugar, que parece ter sido, escolhido
para se isolar e fazer o seu almoço. Ele chega, encosta a bicicleta no
gradeamento, e ali, longe de restaurantes acessíveis, e possíveis, tira a sua
bucha e com ar meditativo inicia o seu repasto. O seu olhar, abrange a zona
ajardinada e a parede do prédio à sua frente. É um olhar vago, como que perdido,
entre a mastigação e os pensamentos que o assaltam, naquela meditação
procurada. Os pássaros, sentem-no e na ânsia de encontrar pequenas sobras,
rodeiam-no de forma agitada, em diferentes pio, pios. Os melros, que abundam
naquele lugar, percorrem a zona relvada, movimentando-se na procura de galhos e
comida. Nem a sua graciosidade, motiva a sua atenção. Nada parece afastá-lo daquele
ar vago. Está, como se procurasse encontrar a explicação, para aquele seu,
estar ali. Fica-me a dúvida, se a razão de estar ali, tem a ver com uma razão
de ordem económica, ou simplesmente, foi uma forma por si escolhida de
encontrar a própria paz. No meio de toda a luta diária, dos dias de hoje, encontrar
paz, e recuperar o equilíbrio, é quase obrigatório, para sobreviver.
O primeiro de Maio, dia do trabalhador, celebrou-se há alguns dias, muito há
ainda para lutar. Questiono-me: será que ele pensa, na gente do amanhã? Terá
ele algum dia ouvido, ou lido, o poema de Vinicius “Operário em construção”?
dc
………
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
(última parte do poema "Operário em construção" de Vnicius de
Morais)
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024
Não me apetece sorrir
Pintaram-lhe o rosto
A criança não entendia
Tal não era suposto
Se tanta criança sofria
O poeta dimensiona a dor
Que sua fragilidade suporta
Aqueles olhos falam, não por favor
Hoje em Gaza muita gente foi morta
Um dia, o carnaval será de
paz
E alegria numa festa de liberdade
Trocando a mentira e o “tanto faz”
Pela vivência com a fraternidade
dc
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024
Ali, somente parados
Ali, somente parados, não de mãos dadas, o frio era maior. O seu amor já não exigia tal, bastava o ombro a ombro. Não falavam um com o outro, sentiam-se presentes, deixavam-se ficar, somente ali, sentindo a brisa, embevecendo-se com aquele céu, rico de tonalidades e desenhos mágicos e aguçando o seu imaginário, um mar que lhes permitia navegar, especulando para além do horizonte longínquo.
dc
quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
Hoje, é dia de celebração
Tenho pena, de me ter perdido das palavras
escritas, que antigamente surgiam a todo o vapor, e que vertia no papel com
rapidez, com o medo que elas se perdessem no labirinto dos pensamentos. Hoje é
o dia do teu aniversário, as emoções de todos estes anos passados são tantas,
tornam a tarefa ainda mais difícil. Surgem palavras tão comuns e desacertadas,
que não correspondem ao que durante todos estes anos, vivemos, sentimos e
realizamos. Talvez as palavras, que surgem de seguida no texto, não expressem o
calor, o carinho, nem as diferentes emoções, que neste momento vêm a
superfície. O que vivenciamos, no acompanhar do teu crescimento, com as
dificuldades económicas, o tempo de estudo na escola, mais tarde na
universidade, discutindo os trabalhos e as notas. As pequenas escaramuças
comuns de um pai, que se arrogou no direito de te criar, e acompanhar até ao
dia que saíste para viver com o teu companheiro de sempre e formar a tua
própria família. Sinto que é insuficiente dizer-te o quanto brilhas para mim,
por tudo aquilo em que te transformaste, e me deixa orgulhoso, nesse teu
percurso desde menininha, à senhora casada, com o homem que escolheste, como
pilar de entendimento, para a realização de objectivos maiores, e trouxeram à
luz do dia um filho (o neto, que tanto desejava).
Eu disse, no início deste escrito, que já não sabia arrumar as palavras como
outrora, e falta-lhes, talvez, a riqueza de vocabulário, ou a beleza que
merecias, mas espero que me perdoes. Só queria que soubesses, que mais do que
um jantar de aniversário, ou o estourar do champanhe, há coisas deliciosas, não
descritas aqui, que ainda fervilham em mim, permanecerão para o resto dos meus
dias caladas bem no fundo do meu ser.
Um beijo, e um Xi coração do tamanho do mundo.
DC
quarta-feira, 15 de novembro de 2023
A distância é terrível.
Conheceram-se, de modo inusitado. As circunstâncias limitaram-lhe os horizontes. Distantes, sem a presença física, vão recorrendo às novas tecnologias, para que a imagem lhes permita verem-se e conversar, alimentando os seus sentimentos, trocando ideias realçando valores, e as suas diferenças de personalidade. Ela trabalhava por turnos numa vida dura, ele “Freelancer”, estava sem horários fixos e com disponibilidade. Inúmeras eram manhãs que acordava com a sua voz, assim como as despedidas de boa noite, quando ficava em casa e podiam conversar mais um tempo em horário mais comum. Cada dia, uma revelação, cada noite a dor de ausência, mas nada os afastava.
Foram planeando uma vida,
vivendo sonhos, desbravando a floresta densa com passeios imaginários, avaliando
o presente, imaginando e criando sonhos especulando o futuro. Exploravam o blá
blá da sina da cigana, que os colocara na mesmo caminho, como almas próximas. Eram
dias de dor pela distância, ricos de comunicação, de revelação de quem somos e
como somos, anulando sombras, preparando o terreno para quando a oportunidade chegasse,
ficarem juntos de forma plena e perene. Os sonhos são bons e alimentam forças
incríveis, mas a sua realização é mais complexa, é necessário dar o passo em
frente, para que a solução se encontre, para que as vontades e desejos
expressos se concretizem, caso contrário, a distância prolongada e a rotina da
ausência, porão em causa os sentimentos, diluirão as memórias do tacto, dos
cheiros, dos sons e das vivências na pele. Tudo tem o seu tempo, não se podem
queimar etapas por medos ou inseguranças. Ter medo de errar é entorpecer e
ficar sem capacidade de decisão. Procurar na comunicação moderna a aproximação,
é uma solução precária de alimentar situações irrealizáveis, esgrimir ausências,
vazios e soluções questionáveis. A distância é terrível, provoca fissuras na estrutura emocional, por vezes irreparáveis.
dc
"Amor sem verdade é paixão; verdade sem amor é crueldade". A frase é do psicanalista Wilfred R. Bion:
sábado, 30 de setembro de 2023
Outono?
No findar do mês, com o Outono marcando os dias, não ainda, pelo excesso de folhas caídas sobre a superfície dos chãos, antes por este calor inesperado, que traz sorrisos e fadiga ao corpo. Há que aproveitar para nos adaptamos à diferença, fazendo memória e reescrevendo a estória, que define as estações do ano, com as emoções que evocam. Os pássaros, ainda estão pelos beirais como se não quisessem partir, as gaivotas, continuam frequentando os areais, e o pôr-do-sol, ainda é bem visível no horizonte, com seus tons quentes, na variação de tons laranja e vermelhos intensos. Quase nos sentimos flutuar, em vez de caminhar, como se fosse presente a ausência de gravidade. É estranho, o modo como o clima nos dias de hoje, se torna tão imprevisível, e nos impede as rotinas das diferentes estações climáticas. Os tons ocres, estão afastados dos nossos olhares, os azuis predominam, os brilhos da claridade, sustentam uma atmosfera, extra-sensorial, que vai modelando relevos nas figuras, que ao nosso redor, habitam. Os sorrisos desenham os rostos, os cabelos, soltam-se na brisa leve, as roupas fluidas na leveza dos tecidos, e o odor da maresia, vai-se misturando com perfume doce que vem da terra ressequida. Do mesmo modo, o amor rejuvenesce entre os seres, os amantes vão retardando a calmaria outonal, intensificando as suas vivências, aproveitando-se com frenesim deste novo instante que a natureza os presenteou. Fica a dúvida, se é um fenómeno transitório, e que tudo beneficia, ou se é mais uma partida, que as variações climáticas nos pregam para sabermos, o quanto mal tratamos a Terra.
dc
domingo, 30 de abril de 2023
Atrás da cortina
Como um modelo simulado, vive atrás da cortina, dos sentimentos, das dores, das angústias, da espera eterna, daquele amor imaginado pressentido nos outros, como se fosse lei da vida, a eterna busca, do inexplicável caminho, ao centro do universo de alguém. Rígido, de forma morfológica tosca, com elementos básicos de sugestão, procurando encontrar no desenho dos dias, em mão suave, delineando o caminho desse sentimento criativo que alimenta a nossa existência. O espaço é sempre o mesmo, suficientemente terreno. O tempo que corre célere alimenta a angústia, de um objectivo, sempre longe da meta que anseia. Já sentiu o toque, o bafejar dos seus lábios, o brilho da promessa, mas a férrea distância, vai prolongando a tormenta do verbo existir, sem encontrar o mapa, que indique o caminho, adequado à realização do sonho, da alegria, da felicidade mesmo que temporária, de ser amado até ao limite das suas forças.
dc
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023
É uma árvore, ponto
A sua imagem agarra-me o
olhar. Surge em mim um enorme desejo de a abraçar, como se quisesse sentir a seiva
da vida, aperceber-me da sua comunicação com a “sua” sociedade, ou se ela,
também, relata as suas dores de existir. Sem coragem para me aproximar e passar
aos actos, na impossibilidade para ir mais longe, como mulher casada que não
queremos como amante, tento trazê-la para dentro da máquina, fixando-a no
espaço restrito, artificial, dos números e traços digitais. É o egoísmo cego,
de possuir algo e fazê-lo meu, a que posso recorrer em qualquer situação, em
que, vê-la, ajuda-me a decidir, a ganhar maior entendimento de dificuldades
emocionais, que é necessário enfrentar e resolver. Assim, registo as suas
linhas abruptas, a sua cor, o seu contraste com o ambiente que a envolve, o
recorte variado, dramático, majestático da totalidade do seu corpo. Tento saber
das razões, do seu fascínio sobre mim, discernir a emoção que se adentra,
tomando-me o corpo. O tempo decorre e fico apatetado, hirto, olhando como se uma, outra, dimensão me possuísse, desbravo mentalmente, dezenas de frases e
palavras que tentem esclarecer o que me move. Reflicto sobre o seu modo de sobrevivência
a cada intempérie, frio, sol, ou calor. Como reage à acção do homem, cada vez
que lhe cortam os braços e diminuem-lhe a envergadura, e o fenómeno do seu
renascer, com novas formas, com aquela sobranceria, vistosa, cobrindo-a de novo
traje e novas cores, como se nada tivesse acontecido. Assume nova imagem,
espera as mudanças num ciclo repetitivo, em que o crescimento se vai dando, transmitindo
alegria, nesse seu ressurgir, mais viva do que nunca, da dor temporária das
amputações, toda se reformula, no florir da sobrevivência. O que se aprende com
elas? Quão próxima, ou distante, é a sua existência, dos seres humanos? O que
tenho de aprender com ela, qual a essência que nos comunica? Questiono em
silêncio, não por necessidade do saber, mas mais, para saborear da estranheza
daquilo que representa como "ser vivo". Todo o raciocínio fica longe de qualquer explicação.É uma árvore, ponto.
dc
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023
Fim de tarde
Recusando que a noite aconteça, ela se sobrepões iluminando detalhes, que não deixam despercebida a sua presença. Usa a imagem, a melodia do corpo, a riqueza das palavras e a natureza de ser mulher. Deixando-o atarantado entre o lusco-fusco da descoberta de uma inteligência acima da média, um humor que rasga sorrisos e insinua incapacidade de se dar na totalidade. Ela derrama os olhos pelo chão, escondendo neles, o brilho que a denuncie, temendo ceder à probabilidade de voltar a amar.
dc











