sexta-feira, 10 de julho de 2026

Sim, nem sempre


Nem sempre podemos dizer tudo. Há mundos privados difíceis de explicar, sensações que te movem que não sabes de onde vêm. A mole humana que rodeia o lugar em que habitas vai-te condicionando; os relacionamentos, a alegria de pertencer, a expressividade que entranhas, tentam desnudar-te, cercar a tua intimidade, para que se sintam na tua órbita. És um estranho, que se encontra na toma do café, que veem ler o jornal e fazendo as palavras cruzadas ou então com um livro aberto parecendo devorar palavras tal a tua atenção. És objecto de espanto, talvez entendido como figura pedante, no mínimo obtusa, como se não quisesses mistura com a gente comum, por te pensares diferente.

É difícil entenderem-te, muito mais quando o teu comportamento não se enquadra na conversa corriqueira, por vezes fofoqueira, do dia a dia, quando não colaboras na discussão da “Casa dos Degredos”, com que as TVs lhes preenchem os serões, ou até do futebolês, da clubite fanática que os faz começar a semana deprimidos pelo mau resultado do seu clube e, no rescaldo, a falta de empenho da equipa, dos árbitros que são péssimos, da imprensa tendenciosa. A ausência de leitura é mais do que evidente, as redes sociais no telemóvel falam alto na mesa de alguém, os chamados “reels” são ouvidos em som alto para que os vizinhos da mesa do café ouçam, e por vezes, até ao passear no parque, se ouçam as gargalhadas em alta voz que chegam aos ouvidos de todos os presentes no espaço circundante. O seu mundo não tem política, a cultura é algo estranho ao seu viver. A culpa não se lhes pode atribuir: a “casta superior do poder” na sociedade de hoje usa e divulga o chavão “Os tempos são outros” para fornecer a pais, professores e povo em geral a justificação de fracassos, criação de permissividade e caos; tudo aquilo que, se explicado, poderá ser perigoso para o domínio dos donos disto tudo, que apelam a modernismos bacocos, tecnologias que criam adição como as redes sociais, ou que põem o povo a trabalhar para eles na aquisição e pagamento de serviços, fazendo-os acreditar que, efectuando registo e pagamentos de produtos por si próprios, numa qualquer grande superfície, estão a acompanhar a evolução tecnológica e a poupar tempo e não a contribuir para o desemprego, enchendo os bolsos dos donos. Com tudo isso a educação perde-se, os princípios e valores não são contabilizados; discutem-se as questões de género, dividindo a luta de direitos comuns a todos por questões particulares, criando um espírito de seita onde deveria haver igualdade de todos; Travam-se os pilares do relacionamento colectivo e de respeito como seres humanos pela liberdade e maior participação na gestão colectiva do seu bem-estar.

dc

 

sábado, 6 de junho de 2026

Um anónimo também é gente


Será que algum dia ouvirá da sua boca o muito que tem para dizer? Há muito perdeu a fala clara, vibrátil, e a sua entoação típica; agora só uns sons roufenhos e ridículos saem da sua boca, transformando o acto da fala num martírio, entre o conteúdo e a clareza mínima para que seja perceptível. No somatório de coisas ruins que acontecem, pela sua natureza de rebelde social, é frustrante ter de se calar perante os factos. É difícil e avoluma-se com o silêncio a que se devota para não se esforçar a gritar; mesmo assim, não o entendem. Foi fugindo do contacto, guardando o seu espaço de convivência para um número cada vez mais reduzido de pessoas. Pensou que escrever seria uma solução, mas não é fácil verter para texto o que as emoções e sentimentos ditam, nem lhe dar a expressividade necessária que enriquece o diálogo. Já lhe perpassou aprender a língua gestual para não se esforçar a falar; pelo menos os surdos-mudos o entenderiam. Na verdade, a vida continua e não deixou de pensar em sentir os lábios de quem ama sobre a pele, de acordar no mesmo leito, sentir as suas mãos acariciando o seu rosto, o calor dos seus próprios corpos e odores mesclados com o cheiro da noite e o diálogo incoerente do ensonado amanhecer. Assim, vai-se limitando a observar, ler e acreditar que um dia acontecerá e a fala se soltará, as mãos falarão carícias e os seus olhos serão mensagem de um sentimento profundo que cala dentro de si.

Um anónimo também é gente


terça-feira, 2 de junho de 2026

Onde mora o beijo...

   

O beijo é um símbolo dos apaixonados, dos amantes, do amor em geral, da ternura e da alegria que mata todo o mal; é um prémio ao êxito, é o dó-dói que cura todas as feridas e dores. Tristemente, o beijo parece ter saído do cardápio dos namorados, dos casados e bem-amados; raros são os beijos, o beijo morreu(?). Casados despedem-se com um beijo na testa, namorados na face, só os amantes escondidos beijam tão fundo que chega ao coração. O beijo público tinha multa e nós deixámos que a decisão ficasse na mão de gente de mentalidade curta. Perdeu-se o beijo na boca da amada ou amado, as gentes parecem possuídas pela vergonha. Um beijo não precisa de ser esfregado, mas deve sentir-se o lábio quente, até molhado, lendo a alma de quem se ama, nesse beijo que preenche o dia, nos acalma e apela ao seu continuar na esperança de que o beijo em cada dia, com mais força, selará a vontade de amar.

dc

terça-feira, 12 de maio de 2026

Amo-te em silêncio

     

Amo-te em silêncio, mesmo que o teu nome não seja Margarida, foi a flor que escolhi, pelo seu simbolismo, para falar o que penso, mesmo sabendo impossível a diferença que nos impõe o tempo de existir e da distância que me impede de colocar as palavras em registo audível, para que te toquem. O silêncio foi o caminho que escolhi para poder sentir o ruído que se agita dentro de mim sempre que afloras os meus pensamentos.

Procurei decifrar-te, tentei descobrir o que te faz estar presente, entre frases e sorrisos. Nunca consegui saber onde está o teu coração e, se alguma vez pensei ter a tua atenção, foi um sonho desenhado em papel de vento.

 

dc


https://www.youtube.com/watch?v=_BVfzJFkWug  

domingo, 3 de maio de 2026

Cheiros da terra e espera silenciosa


Quando não chega mais do que superficialidades, para que serve escutar ou trocar dois dedos de conversa? A vida é demasiado curta para isso.

É simples: o correr da vida já me desenhou imensos cenários e fez-me passar por diferentes papéis nos quais me tornei “especialista”. Agora, detecto facilmente, na leitura das primeiras frases ou da sua escuta, se me interessa o papel a representar.

O dinheiro não me move; da experiência não abuso, só serviria para cortar a possibilidade criativa que ainda me resta.

Resolvi antes voar, em outros lugares onde a representação é funcional e intuitiva, indo ao encontro da vida real.

A cidade já não é novidade; a natureza simples dos espaços amplos onde ainda prevalecem a pureza, o trinar dos pássaros, a brisa que atravessa as árvores que me apetece abraçar, os cheiros da terra que me inundam de calma e espera silenciosa.

Um dia chegará, de braços abertos, e os seus lábios molhados me saciar-me-ão de outra sede que faz o mundo rodar e traz à vida algo mais do que frases sonoras que morrem em folhas de papel que ninguém lê.

 

dc




sábado, 2 de maio de 2026

Caminhar para descobrir

 

Caminho no meio de todos aqueles pinheiros-mansos que parecem tocar o céu. Não me apercebi do transcorrer do tempo. Sei que cheguei com a claridade da tarde nublada e regressei com o dia anoitecido. A luz dos candeeiros já começava a iluminar as ruas. O relógio não merecera consulta naquela viagem inédita ao mundo dos pensamentos, como fora sugerido que o fizesse para melhor saber de mim. Alguém me dissera que seria bom estar rodeado de árvores e, se quisesse, as abraçasse; talvez a seiva que nelas corre me ensinasse outras formas de encontrar as respostas que procurava. Lembro-me do pisar da caruma, dos galhos secos a estalarem, dos estradões corta-fogo feitos na areia, de ouvir o mar distante e o cheiro da maresia misturado com o da resina dos pinheiros que atravessava todo o espaço e chegava até mim. Lembro-me de que, em certo momento, não me recordava ao certo onde estava e, muito menos, depois de tanto ter adentrado no pinheiral, de ficar com a sensação de que me perdera. Julgava eu ter caminhado em direção ao ruído do mar, mas sem bússola, ou sol, como referência e o cérebro carregado de milhares de reflexões, regressar foi uma aventura. Tudo isso foi minimizado pela calma de que estava possuído. O turbilhão que até ali me trouxera praticamente tinha desaparecido, de tal modo que, naquele mesma noite, ficou decidido o que fazer nos tempos mais próximos e com a confiança necessária para tomar todas as decisões que se impusessem para encontrar a solução que melhor servisse o meu bem-estar e o modo de vida que entendia dever seguir, contra ventos e marés.

dc


 

domingo, 12 de abril de 2026

Na dúvida

     

É possível que tenha criado um avatar, para atrair as atenções, como renúncia de si própria, do mesmo modo que teme enfrentar o espelho e encontrar o rosto que renega, por incapacidade de valorar a sua real beleza. É possível que tenha criado um avatar, como renúncia de si própria, para atrair as atenções, do mesmo modo que renega a idade que não quer, a confiança perdida algures no caminho. Prefere projectar-se num rosto que seria seu por direito, se o mundo efectivamente tivesse um Deus. Sim, ele ter-lhe-ia dado um outro rosto, um outro corpo, uma força maior para se encarar nos seus defeitos e virtudes, mais de acordo com o seu humor e o seu gosto de vestir e viver. Tem momentos em que faz umas caretas, tentando esconder-se atrás de um esgar que não deixa que julguem a sua beleza. Sabe que não precisaria de mudar; os seus olhos grandes com íris clara, que lhe dão uma expressão gata, embora na maior parte do tempo fiquem por trás dos óculos que usa para a presbiopia. Evita mostrar as suas mãos; não são delicadas, de dedos compridos e afilados como gostaria, e ela sabe que as mãos revelam muitas coisas. Maquilha-se, não muito, mas o suficiente para esconder os pés de galinha da noite mal dormida. É livre e humana e, como tal, é normal ter medo de se enfrentar, muito mais depois do último desamor que a visitou. O avatar traz presenças, likes de gente vária que lhe permitem a escolha como amizades. Não se revela muito, partilha imagens de outras mulheres, sugere pensamentos ousados e de amor nas entrelinhas, confia naquela sua passagem pela rede como agenda do possível em tempos aborrecidos no dia a dia.

dc