Se
caminhássemos no mesmo areal, eu caminhando em direção ao sul e tu em direção ao
norte, em algum momento ficaríamos frente a frente e deixaríamos de estar sós.
O teu rosto chagaria iluminado com esses teus olhos de mar e eu ver-te-ia com
olhos de terra, mesmo sendo de um signo de água(?). Aí, nesse momento, a
conversa fluiria por tempo infinito, como o areal onde os nossos pés
assentavam. As falas teriam como princípio essa coisa a que se chama o “Karma”
e como funcionara para nos juntar naquele lugar. Neste nosso caminhar,
caminhando, apuraríamos que não teve origem no tal eclipse do espanto que
tantos perseguiam, nem fora pensado para nos eclipsarmos. Somente dois
espíritos à procura de respostas ao silêncio; as marcas no areal falavam do
quanto meditaram até convergirem. Aquele era um lugar de fala, depois de tanta
espera para se conhecerem. Prender-me-ia no teu sorriso, nos teus lábios ao mexer
com as falas, e no olhar o brilho com que chegaste. Sem abraço, as mãos se
dariam, mantendo a distância para que nos observássemos. Depois, sentar-nos-íamos
no areal, sem largar as mãos como que mantendo o espaço e a segurança na
descida. Mundos e ideias surgiriam dos pensamentos, emoções se revelariam,
sentimentos se definiriam.
E sem saber acabaríamos deitados no areal olhando o céu, rodando a cabeça de
vez em quando de acordo com as falas. A sua mão estaria dentro da minha,
reagindo como resposta à conversa; ao mesmo tempo, aperceber-me-ia da maciez
dos seus dedos afilados e do seu perfume. O pôr do sol acabaria por surgir e nos
colocar-nos-íamos em posição para o ver; bastaria rodarmos os corpos e ficarmos
de cotovelos enfiados no areal. O pôr do sol seria um prémio, tão único, como a
natureza da sua existência naquela praia.
dc