Não tenho a certeza se tem a perceção do que acontece e do que ele sente de modo inconsciente. Ele próprio não sabe como e porquê. Uma coisa, na verdade, acontece: fica à espera que ela surja, trazendo a sua imagem à superfície do dia, como um despertador de emoções. Quando se apercebe da idade que os separa, teme não ter oportunidade para colocar o que sente e expressar-se com palavras, fica absorvido na espera, como alguém tímido. Talvez se possa dizer, deste remoinho de emoções que surgem do nada, agitando todo o seu ser, que se comporta como aquele sujeito que, em noite de baile, fica preso no lugar, sem se dirigir à sua eleita com aquela frase: A menina dança. Tudo são obstáculos. Por vezes, o que vemos e sentimos, adentrando em nós, é alheio ao sujeito desse sentimento, nem é claro que seja o causador ou, até, tenha tido a percepção do efeito que causa.
Sente-se perdido na meditação dos dias, incapaz de decidir, de tomar a iniciativa, de correr atrás do seu sorriso, da voz dela, inteira. A única coisa em que pensa é no encanto que a imagem bidimensional, sem volume, o fascina, que o faz pensar num abraço, num corpo distante de que não lhe conhece a forma, o saber dos seus pensamentos, desejos e emoções que o formam. Nunca lhe ouviu a voz, ou sentiu o seu sorriso a nascer nos lábios. No entanto, imagina-a a pousar o seu rosto sobre o seu peito, ouvindo as batidas calmas do seu coração, do qual se assenhorou sem saber ou perceber. “Que seja bom enquanto dure” é a frase que mantém como refrão, pensando que não importam idades ou tempo de estar como suplemento um do outro, e os dias voarão até que eu parta, como naturalmente deve acontecer, mais cedo que tarde. Será o seu egoísmo? Quem será capaz de avaliar a riqueza do vivido? Fica a dúvida, mas no seu coração já foi decidido, que dure os segundos, minutos, dias ou semanas, mas que seja eterno.
dc