Um dia te aperceberás das razões do silêncio. Nesse momento entenderás as não respostas ou as interrogações existentes no que lês, naquilo que comunico e na sua abstração. Verás que a idade importa, que a beleza não me favoreceu, que o meu corpo não foi desenhado dentro das expectativas do comum das pessoas que nos rodeiam e que nem sempre reparam se existem outros valores ou qualidades. Entenderás como o diálogo é substituído por monólogos intermináveis, que ocupam uma grande parte da actividade cerebral, e como eles se desenvolvem em caminhadas intermináveis, ocupando a energia corporal e o desenho de discursos que nunca serão expressos. É uma forma de amor encoberto, em que não se perde a cara e não se pode ser recusado. Ele é a ausência do objecto da sua existência, é o sustentáculo para que a esperança não se perca. Raras vezes, mas as suficientes para pelo menos sugerir que, embora o silêncio seja real, não significa que não sejas motivo e a maior carta do baralho das minhas conjecturas. Podia desenhar um avatar que simulasse o que queria ser perante os teus olhos, que fosse a resposta ideal para te motivar interesse e não passares ao lado daquilo que sou. No fim, todos nós temos silêncios inexplicáveis, nem sempre na altura certa ou por razões visíveis, mas sempre razão duma pausa para tentar descobrir o rumo a tomar.
Ler é um caminho para sonhar e descobrir outros mundos e pensamentos ou o mar na sua imensidão, tão largo, como longínquo o seu horizonte; ele permite-nos navegar tão longe, sem que barco exista que o possa superar. Deixando-me enlevar por ele, vou ao fundo do pensamento, das emoções, como um qualquer peixe nas profundezas do oceano. Nesse modo de estar, fico com a certeza de que um dia chegaremos juntos ao fim deste silêncio.
dc