Olho, fico
parado, observo e penso. A revolução passou por aqui e deixou os seus sinais
naqueles "graffitis" que gritam sugerindo futuros. Alimento da revolução numa
expressão com sabor a povo. Bocados de vida expressos em frases e imagens
diversas, desenhadas por mãos trémulas, usando a tinta e pincéis com a
inexperiência dos amadores, para quem o discurso verbal se enrolava na
garganta. O seu dizer era carregado de cores vibrantes de leitura fácil, dando
força à mensagem que a cada momento respondia às necessidades e caminhos por
onde a revolução tinha de caminhar. A criatividade andava à solta,
democraticamente todos roubavam um pouco de espaço nas paredes, agora telas da
sua mensagem. Cada um com o seu propósito, cada organização programando a luta
e as suas acções, ora convergentes, ora opostas quanto aos caminhos a seguir,
muitas vezes críticas; no entanto, na maioria queriam o mesmo e iam tenteando procurar
chegar ao povo que queriam livre e consciente de si próprio. Em alguns lugares
deu-se espaço às crianças para se soltarem e lidarem com o seu génio
descomprometido, dando largas à imaginação, desenhando alegrias várias, em
inocentes traçados, onde as suas poucas memórias eram relatadas. Lamentavelmente,
com o tempo, alguns de garganta fechada, em nome da higiene do espaço, foram
colando papéis e tapando com tinta alguns "graffitis" mais expressivos, para
evitar que as memórias mantivessem o povo atento às conquistas e ao significado
da revolução. Ao contrário daqueles, como eu, que, quando elaborados,
pensávamos deverem existir para todo o sempre como caderno de história da
Revolução de Abril.
dc