sábado, 6 de junho de 2026

Um anónimo também é gente


Será que algum dia ouvirá da sua boca o muito que tem para dizer? Há muito perdeu a fala clara, vibrátil, e a sua entoação típica; agora só uns sons roufenhos e ridículos saem da sua boca, transformando o acto da fala num martírio, entre o conteúdo e a clareza mínima para que seja perceptível. No somatório de coisas ruins que acontecem, pela sua natureza de rebelde social, é frustrante ter de se calar perante os factos. É difícil e avoluma-se com o silêncio a que se devota para não se esforçar a gritar; mesmo assim, não o entendem. Foi fugindo do contacto, guardando o seu espaço de convivência para um número cada vez mais reduzido de pessoas. Pensou que escrever seria uma solução, mas não é fácil verter para texto o que as emoções e sentimentos ditam, nem lhe dar a expressividade necessária que enriquece o diálogo. Já lhe perpassou aprender a língua gestual para não se esforçar a falar; pelo menos os surdos-mudos o entenderiam. Na verdade, a vida continua e não deixou de pensar em sentir os lábios de quem ama sobre a pele, de acordar no mesmo leito, sentir as suas mãos acariciando o seu rosto, o calor dos seus próprios corpos e odores mesclados com o cheiro da noite e o diálogo incoerente do ensonado amanhecer. Assim, vai-se limitando a observar, ler e acreditar que um dia acontecerá e a fala se soltará, as mãos falarão carícias e os seus olhos serão mensagem de um sentimento profundo que cala dentro de si.

Um anónimo também é gente


terça-feira, 2 de junho de 2026

Onde mora o beijo...

   

O beijo é um símbolo dos apaixonados, dos amantes, do amor em geral, da ternura e da alegria que mata todo o mal; é um prémio ao êxito, é o dó-dói que cura todas as feridas e dores. Tristemente, o beijo parece ter saído do cardápio dos namorados, dos casados e bem-amados; raros são os beijos, o beijo morreu(?). Casados despedem-se com um beijo na testa, namorados na face, só os amantes escondidos beijam tão fundo que chega ao coração. O beijo público tinha multa e nós deixámos que a decisão ficasse na mão de gente de mentalidade curta. Perdeu-se o beijo na boca da amada ou amado, as gentes parecem possuídas pela vergonha. Um beijo não precisa de ser esfregado, mas deve sentir-se o lábio quente, até molhado, lendo a alma de quem se ama, nesse beijo que preenche o dia, nos acalma e apela ao seu continuar na esperança de que o beijo em cada dia, com mais força, selará a vontade de amar.

dc

terça-feira, 12 de maio de 2026

Amo-te em silêncio

     

Amo-te em silêncio, mesmo que o teu nome não seja Margarida, foi a flor que escolhi, pelo seu simbolismo, para falar o que penso, mesmo sabendo impossível a diferença que nos impõe o tempo de existir e da distância que me impede de colocar as palavras em registo audível, para que te toquem. O silêncio foi o caminho que escolhi para poder sentir o ruído que se agita dentro de mim sempre que afloras os meus pensamentos.

Procurei decifrar-te, tentei descobrir o que te faz estar presente, entre frases e sorrisos. Nunca consegui saber onde está o teu coração e, se alguma vez pensei ter a tua atenção, foi um sonho desenhado em papel de vento.

 

dc


https://www.youtube.com/watch?v=_BVfzJFkWug  

domingo, 3 de maio de 2026

Cheiros da terra e espera silenciosa


Quando não chega mais do que superficialidades, para que serve escutar ou trocar dois dedos de conversa? A vida é demasiado curta para isso.

É simples: o correr da vida já me desenhou imensos cenários e fez-me passar por diferentes papéis nos quais me tornei “especialista”. Agora, detecto facilmente, na leitura das primeiras frases ou da sua escuta, se me interessa o papel a representar.

O dinheiro não me move; da experiência não abuso, só serviria para cortar a possibilidade criativa que ainda me resta.

Resolvi antes voar, em outros lugares onde a representação é funcional e intuitiva, indo ao encontro da vida real.

A cidade já não é novidade; a natureza simples dos espaços amplos onde ainda prevalecem a pureza, o trinar dos pássaros, a brisa que atravessa as árvores que me apetece abraçar, os cheiros da terra que me inundam de calma e espera silenciosa.

Um dia chegará, de braços abertos, e os seus lábios molhados me saciar-me-ão de outra sede que faz o mundo rodar e traz à vida algo mais do que frases sonoras que morrem em folhas de papel que ninguém lê.

 

dc




sábado, 2 de maio de 2026

Caminhar para descobrir

 

Caminho no meio de todos aqueles pinheiros-mansos que parecem tocar o céu. Não me apercebi do transcorrer do tempo. Sei que cheguei com a claridade da tarde nublada e regressei com o dia anoitecido. A luz dos candeeiros já começava a iluminar as ruas. O relógio não merecera consulta naquela viagem inédita ao mundo dos pensamentos, como fora sugerido que o fizesse para melhor saber de mim. Alguém me dissera que seria bom estar rodeado de árvores e, se quisesse, as abraçasse; talvez a seiva que nelas corre me ensinasse outras formas de encontrar as respostas que procurava. Lembro-me do pisar da caruma, dos galhos secos a estalarem, dos estradões corta-fogo feitos na areia, de ouvir o mar distante e o cheiro da maresia misturado com o da resina dos pinheiros que atravessava todo o espaço e chegava até mim. Lembro-me de que, em certo momento, não me recordava ao certo onde estava e, muito menos, depois de tanto ter adentrado no pinheiral, de ficar com a sensação de que me perdera. Julgava eu ter caminhado em direção ao ruído do mar, mas sem bússola, ou sol, como referência e o cérebro carregado de milhares de reflexões, regressar foi uma aventura. Tudo isso foi minimizado pela calma de que estava possuído. O turbilhão que até ali me trouxera praticamente tinha desaparecido, de tal modo que, naquele mesma noite, ficou decidido o que fazer nos tempos mais próximos e com a confiança necessária para tomar todas as decisões que se impusessem para encontrar a solução que melhor servisse o meu bem-estar e o modo de vida que entendia dever seguir, contra ventos e marés.

dc


 

domingo, 12 de abril de 2026

Na dúvida

     

É possível que tenha criado um avatar, para atrair as atenções, como renúncia de si própria, do mesmo modo que teme enfrentar o espelho e encontrar o rosto que renega, por incapacidade de valorar a sua real beleza. É possível que tenha criado um avatar, como renúncia de si própria, para atrair as atenções, do mesmo modo que renega a idade que não quer, a confiança perdida algures no caminho. Prefere projectar-se num rosto que seria seu por direito, se o mundo efectivamente tivesse um Deus. Sim, ele ter-lhe-ia dado um outro rosto, um outro corpo, uma força maior para se encarar nos seus defeitos e virtudes, mais de acordo com o seu humor e o seu gosto de vestir e viver. Tem momentos em que faz umas caretas, tentando esconder-se atrás de um esgar que não deixa que julguem a sua beleza. Sabe que não precisaria de mudar; os seus olhos grandes com íris clara, que lhe dão uma expressão gata, embora na maior parte do tempo fiquem por trás dos óculos que usa para a presbiopia. Evita mostrar as suas mãos; não são delicadas, de dedos compridos e afilados como gostaria, e ela sabe que as mãos revelam muitas coisas. Maquilha-se, não muito, mas o suficiente para esconder os pés de galinha da noite mal dormida. É livre e humana e, como tal, é normal ter medo de se enfrentar, muito mais depois do último desamor que a visitou. O avatar traz presenças, likes de gente vária que lhe permitem a escolha como amizades. Não se revela muito, partilha imagens de outras mulheres, sugere pensamentos ousados e de amor nas entrelinhas, confia naquela sua passagem pela rede como agenda do possível em tempos aborrecidos no dia a dia.

dc

 

domingo, 29 de março de 2026

Reflexões

Como explicar-te, se o calor dos teus lábios está distante, se as tuas mãos não podem sentir a maciez da pele, se o teu cheiro se esgota na distância, se o espaço que habito sente a tua ausência, se tudo o que sonhas se desfaz num acordar a sós, se o caminho que queres percorrer e as realizações a que te propões ficam suspensos; se não ouves as perguntas, não podes dar as respostas. As palavras podem escrever-se para construírem frases, mas são insuficientes para expressarem os olhares cúmplices, as emoções da presença, a opinião de circunstância, o riso que se solta, a calma depois do amor e o respirar sereno de quem caminha pela noite com os deuses da paz.
Podes citar frases e imagens que seduzem, que respondem às tuas inquietações ou são alertas de quem cresceu e viveu de pequenas ou grandes dores, ou até descrevem a aprendizagem que te trouxe. No entanto, não podes ter a certeza de que quem te observa entende o suficiente se a distância ainda existe.


dc