Os passos foram desenhando o caminho
que o inconsciente trazia à superfície. Muitas memórias fluíam; era um caudal
de água que procurava a foz. Foi ao encontro do silêncio, para que as histórias
surgissem. Quando saiu da sua cidade, não sabia bem o que o movia a vir para
tão longe. Ele sabia que estava só no meio da multidão, todos os dias eram
rotina, estava a definhar sem saber que passos tomar para sair do marasmo; lia,
tentava pintar ou escrever, mas andava em círculos no correr dos dias. No
entanto, com o aproximar do tempo de férias, a vontade de sair para estar onde
agora estava começou a ser obsessão; algo o impelia a vir para esta cidade.
Aqui viu uma vila de operários nascer do nada e transformar-se em cidade. Aqui aprendeu
o que significa ser tratado como “compadre”; é ser um de nós; é o vizinho
saudando, interrogação, convite para companhia, solidariedade, confiança,
igualdade.
Aqui celebrara os primeiros meses da existência da sua filha, aqui vivera dois
amores desfasados no tempo, aqui percorrera por horas um pinhal tentando
encontrar o mar, quando não conseguia encontrar-se a si próprio. Aqui voltara umas
quantas vezes, preso a este lugar, a estas gentes, às praias que por aqui
proliferam. Desta vez, “sozinho em casa”, numa pausa que lhe permitia usar o tempo
para reflectir sobre tantas histórias e marcas profundas de cuja importância só
agora tomava consciência. Estar aqui permitia-lhe as leituras, as caminhadas, o
silêncio, as conversas a dois, dele com o seu outro, num acordar para a escuta,
para a observação e deixar-se absorver pela calma, num ambiente necessário para
encarar as decisões futuras.
dc