Um anónimo também é gente
sábado, 6 de junho de 2026
Um anónimo também é gente
terça-feira, 2 de junho de 2026
Onde mora o beijo...
O beijo
é um símbolo dos apaixonados,
dos amantes, do amor em geral, da ternura e da alegria que mata todo o mal; é
um prémio ao êxito, é o dó-dói que cura todas as feridas e dores. Tristemente,
o beijo parece ter saído do cardápio dos namorados, dos casados e bem-amados;
raros são os beijos, o beijo morreu(?). Casados despedem-se com um beijo na testa,
namorados na face, só os amantes escondidos beijam tão fundo que chega ao
coração. O beijo público tinha multa e nós deixámos que a decisão ficasse na
mão de gente de mentalidade curta. Perdeu-se o beijo na boca da amada ou amado,
as gentes parecem possuídas pela vergonha. Um beijo não precisa de ser
esfregado, mas deve sentir-se o lábio quente, até molhado, lendo a alma de quem
se ama, nesse beijo que preenche o dia, nos acalma e apela ao seu continuar na
esperança de que o beijo em cada dia, com mais força, selará a vontade de amar.
dc
terça-feira, 12 de maio de 2026
Amo-te em silêncio
Amo-te em silêncio, mesmo que o teu nome não seja Margarida, foi a flor que escolhi, pelo seu simbolismo, para falar o que penso, mesmo sabendo impossível a diferença que nos impõe o tempo de existir e da distância que me impede de colocar as palavras em registo audível, para que te toquem. O silêncio foi o caminho que escolhi para poder sentir o ruído que se agita dentro de mim sempre que afloras os meus pensamentos.
Procurei decifrar-te, tentei descobrir o que te faz estar presente, entre frases e sorrisos. Nunca consegui saber onde está o teu coração e, se alguma vez pensei ter a tua atenção, foi um sonho desenhado em papel de vento.
dc
https://www.youtube.com/watch?v=_BVfzJFkWug
domingo, 3 de maio de 2026
Cheiros da terra e espera silenciosa
Quando
não chega mais do que superficialidades, para que serve escutar ou trocar dois
dedos de conversa? A vida é demasiado curta para isso.
É simples: o correr da vida já me desenhou imensos cenários e fez-me passar por
diferentes papéis nos quais me tornei “especialista”. Agora, detecto facilmente,
na leitura das primeiras frases ou da sua escuta, se me interessa o papel a
representar.
O dinheiro não me move; da experiência não abuso, só serviria para cortar a
possibilidade criativa que ainda me resta.
Resolvi antes voar, em outros lugares onde a representação é funcional e
intuitiva, indo ao encontro da vida real.
A cidade já não é novidade; a natureza simples dos espaços amplos onde ainda
prevalecem a pureza, o trinar dos pássaros, a brisa que atravessa as árvores
que me apetece abraçar, os cheiros da terra que me inundam de calma e espera
silenciosa.
Um dia chegará, de braços abertos, e os seus lábios molhados me saciar-me-ão de
outra sede que faz o mundo rodar e traz à vida algo mais do que frases sonoras
que morrem em folhas de papel que ninguém lê.
dc
sábado, 2 de maio de 2026
Caminhar para descobrir
Caminho no meio de todos aqueles pinheiros-mansos
que parecem tocar o céu. Não me apercebi do transcorrer do tempo. Sei que
cheguei com a claridade da tarde nublada e regressei com o dia anoitecido. A
luz dos candeeiros já começava a iluminar as ruas. O relógio não merecera
consulta naquela viagem inédita ao mundo dos pensamentos, como fora sugerido
que o fizesse para melhor saber de mim. Alguém me dissera que seria bom estar
rodeado de árvores e, se quisesse, as abraçasse; talvez a seiva que nelas corre
me ensinasse outras formas de encontrar as respostas que procurava. Lembro-me
do pisar da caruma, dos galhos secos a estalarem, dos estradões corta-fogo
feitos na areia, de ouvir o mar distante e o cheiro da maresia misturado com o
da resina dos pinheiros que atravessava todo o espaço e chegava até mim.
Lembro-me de que, em certo momento, não me recordava ao certo onde estava e,
muito menos, depois de tanto ter adentrado no pinheiral, de ficar com a
sensação de que me perdera. Julgava eu ter caminhado em direção ao ruído do
mar, mas sem bússola, ou sol, como referência e o cérebro carregado de
milhares de reflexões, regressar foi uma aventura. Tudo isso foi minimizado pela
calma de que estava possuído. O turbilhão que até ali me trouxera praticamente
tinha desaparecido, de tal modo que, naquele mesma noite, ficou decidido o que
fazer nos tempos mais próximos e com a confiança necessária para tomar todas as
decisões que se impusessem para encontrar a solução que melhor servisse o meu
bem-estar e o modo de vida que entendia dever seguir, contra ventos e marés.
dc
domingo, 12 de abril de 2026
Na dúvida
É possível que tenha criado
um avatar, para atrair as atenções, como renúncia de si própria, do mesmo modo
que teme enfrentar o espelho e encontrar o rosto que renega, por incapacidade de
valorar a sua real beleza. É possível que tenha criado um avatar, como renúncia
de si própria, para atrair as atenções, do mesmo modo que renega a idade que
não quer, a confiança perdida algures no caminho. Prefere projectar-se num
rosto que seria seu por direito, se o mundo efectivamente tivesse um Deus. Sim,
ele ter-lhe-ia dado um outro rosto, um outro corpo, uma força maior para se
encarar nos seus defeitos e virtudes, mais de acordo com o seu humor e o seu
gosto de vestir e viver. Tem momentos em que faz umas caretas, tentando
esconder-se atrás de um esgar que não deixa que julguem a sua beleza. Sabe que
não precisaria de mudar; os seus olhos grandes com íris clara, que lhe dão uma expressão gata, embora na
maior parte do tempo fiquem por trás dos óculos que usa para a presbiopia.
Evita mostrar as suas mãos; não são delicadas, de dedos compridos e afilados
como gostaria, e ela sabe que as mãos revelam muitas coisas. Maquilha-se, não
muito, mas o suficiente para esconder os pés de galinha da noite mal dormida. É
livre e humana e, como tal, é normal ter medo de se enfrentar, muito mais
depois do último desamor que a visitou. O avatar traz presenças, likes de gente
vária que lhe permitem a escolha como amizades. Não se revela muito, partilha
imagens de outras mulheres, sugere pensamentos ousados e de amor nas
entrelinhas, confia naquela sua passagem pela rede como agenda do possível em
tempos aborrecidos no dia a dia.
dc
domingo, 29 de março de 2026
Reflexões
Como explicar-te, se o calor dos teus
lábios está distante, se as tuas mãos não podem sentir a maciez da pele, se o
teu cheiro se esgota na distância, se o espaço que habito sente a tua ausência,
se tudo o que sonhas se desfaz num acordar a sós, se o caminho que queres percorrer
e as realizações a que te propões ficam suspensos; se não ouves as perguntas,
não podes dar as respostas. As palavras podem escrever-se para construírem
frases, mas são insuficientes para expressarem os olhares cúmplices, as emoções
da presença, a opinião de circunstância, o riso que se solta, a calma depois do
amor e o respirar sereno de quem caminha pela noite com os deuses da paz.
Podes citar frases e imagens que seduzem, que respondem às tuas inquietações ou
são alertas de quem cresceu e viveu de pequenas ou grandes dores, ou até
descrevem a aprendizagem que te trouxe. No entanto, não podes ter a certeza de que
quem te observa entende o suficiente se a distância ainda existe.
dc