terça-feira, 24 de março de 2026

Porque leio as paredes


Porque leio as paredes, onde com descaro escrevem pensamentos tímidos e se declaram os seus amores, entre a escrita que fala e cores que expressam as emoções,  fui descobrindo que usam aquela tela dura, tantas vezes rasgada da sua lisura, ou tão perfeita, tão acabada que ainda se sente o cheiro da tinta, para deixar a sua impressão digital carregada de criatividade e expressividade. É bem possível que anseiem que os leiam, que os entendam e que até acabem por reconhecer a sua linguagem e diferença. Em algumas situações vi-os a criar de forma espontânea, agitando a lata de tinta spray na mão, acompanhando o corpo que se agita a cada movimento. Como um Pollock preenchendo as suas telas, vão derramando tinta. Há quem lhes chame grafiteiros, e são criticados porque “sujam” as paredes, mas eles sentem-se artistas de intervenção, produzindo mensagens que os aproximam da gente comum. Nem todos reduzem as suas pinturas a “assinaturas”, uma espécie de marca do autor, criando um alfabeto morfológico próprio. Na sua grande maioria vão mais longe do que isso, produzem painéis ricos de mensagens de intervenção política, social, publicitária de causas, cultural e estética. Não sujam as paredes, falam através delas, num suporte de mensagem de grande acessibilidade que os coloca de imediato perante o público e o seu julgamento; muitas vezes contribuíram para alertar as populações para diferentes fenómenos sociais, como uma acção de cidadania, mobilizando-as, ou para registar algum facto merecedor. Enquanto observador, não raras vezes, deixo-me levar pela sua cor, pela leitura do que me querem comunicar, e admiro-os pela sua coragem de furar a normalização num grito silencioso, em que arriscam a sua liberdade.
Fascina-me o seu trabalho e, qual parasita, aproveito para captar a sua totalidade, ou “agarrar pedaços” e registar. Gosto dos efeitos produzidos nas superfícies escolhidas como suporte do graffiti. Aquela parede granitada que produz textura e a lisa, de expressão quase fotográfica. Muitas são as diferenças, que se manifestam através da própria luz e sombra existentes no local e nas diferentes horas do dia, afectando a tonalidade das cores afectando a mensagem. É um trabalho de paciência, menos espontâneo, com longas horas de espera para encontrar o momento certo de registo. A imagem captada é produzida num outro suporte, com diferentes dimensões, e pode representar a totalidade do original captado ou parte do mesmo. O resultado final pode ser uma nova comunicação temática com uma nova proposta estética ou uma outra forma de leitura, diferente do original, mas reforçando o que pretende comunicar.

 

dc


sábado, 21 de março de 2026

Silêncio ou avatar?

    

Um dia te aperceberás das razões do silêncio. Nesse momento entenderás as não respostas ou as interrogações existentes no que lês, naquilo que comunico e na sua abstração. Verás que a idade importa, que a beleza não me favoreceu, que o meu corpo não foi desenhado dentro das expectativas do comum das pessoas que nos rodeiam e que nem sempre reparam se existem outros valores ou qualidades. Entenderás como o diálogo é substituído por monólogos intermináveis, que ocupam uma grande parte da actividade cerebral, e como eles se desenvolvem em caminhadas intermináveis, ocupando a energia corporal e o desenho de discursos que nunca serão expressos. É uma forma de amor encoberto, em que não se perde a cara e não se pode ser recusado. Ele é a ausência do objecto da sua existência, é o sustentáculo para que a esperança não se perca. Raras vezes, mas as suficientes para pelo menos sugerir que, embora o silêncio seja real, não significa que não sejas motivo e a maior carta do baralho das minhas conjecturas. Podia desenhar um avatar que simulasse o que queria ser perante os teus olhos, que fosse a resposta ideal para te motivar interesse e não passares ao lado daquilo que sou. No fim, todos nós temos silêncios inexplicáveis, nem sempre na altura certa ou por razões visíveis, mas sempre razão duma pausa para tentar descobrir o rumo a tomar.

Ler é um caminho para sonhar e descobrir outros mundos e pensamentos ou o mar na sua imensidão, tão largo, como longínquo o seu horizonte; ele permite-nos navegar tão longe, sem que barco exista que o possa superar. Deixando-me enlevar por ele, vou ao fundo do pensamento, das emoções, como um qualquer peixe nas profundezas do oceano. Nesse modo de estar, fico com a certeza de que um dia chegaremos juntos ao fim deste silêncio.

 

dc

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Além do visível

Majestosa se abre para receber o sol e a brisa da tarde, à semelhança do
sorriso que vislumbro no teu rosto quando chegas acompanhada de palavras que confortam, vestida de viajante despreocupada. Observo os diferentes ângulos, tento vislumbrar o que mais posso saber da sua natureza, como chegou, de onde partiu, o que alimentou o seu crescimento e as razões da sua cor e Vida. Tento captar a sua génese, mesmo sem lhe sentir o cheiro, nem saber a importância do lugar ou a terra de onde se alimentou e cresceu. É possível que seja essa a força maior que me mobiliza os pensamentos, na procura e estudo da forma e feitio, que faz com que sejamos o que somos e como somos. Na realidade até que ponto a natureza, ou a genética, nos molda para aparentarmos essa forma que nos faz seres vivos e quanto as circunstâncias influem nesse percurso.
É difícil, quando te plantas aos meus olhos, não ficar perplexo com a beleza e o quanto o Universo é perfeito e calculista quando nos apresenta espécimes raros e capazes de nos motivarem a ir mais além do comum dos dias.

 

dc

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

O tempo que nos tira tempo

 

Ficou absorto, de olhos presos no que via. Sentado, imóvel, sem alinhar dois raciocínios. Afinal, de facto, os olhos falavam muito mais do que imaginaria. Agora sentia por inteiro, já não só o corpo, mas tudo o mais que estava para além do que via. Olhava-a e via uma imensidão de vida. O brilho do sorriso, o corpo falando pela leveza das formas, os dedos aflorando a entrada dos bolsos das calças, assumindo um desenho tímido de quem espera o primeiro gesto para libertar a ternura disponível e se dar ao abraço a quem é objecto do seu desejo e amor. Acontecera o pior: as ondas do universo tinham-lhe negado a oportunidade de a encontrar na mesma fase do tempo. Lembrou-se do filme a Casa do Lago e pensou como seria bom ter uma caixa do correio onde pudesse deixar-lhe os seus pensamentos e desejos e, assim, contrariar o relógio do tempo, acertando os ponteiros, para se descobrirem. 

dc

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Devaneio (ou desvario)

Ela continua a perturbar-lhe os sentidos, tira-lhe os pés do chão quando a olha para além das lentes semiescuras dos óculos. A emoção chega, faz-se sentir para além do físico, algo intemporal, inexplicável, que cala dentro e traz calafrios, um desejo de estar perto e de dar aquele abraço forte até se tornar afago. Ter as suas mãos dentro das dele, vibrarem na mesma energia, de tal modo siameses que não se desligam. Insanamente, invade o seu sossego. Abraça-o com o seu olhar, provoca-lhe a necessidade de a beber, torna-se eco das suas emoções. Ela é uma proposta que liberta um sentir sem limite. Insuficientes são as palavras para dizer em frases coerentes o que está a acontecer. Deixou-o sem projecto, sem saber que caminho traçar, vulgarizou toda a sua arquitectura de pensamento. Como a água corre da fonte, ela corre dentro dele, espalhando-se por todo o seu ser. Ela é o beijo que se deseja, o amor que se quer deitado no nosso regaço. Ela é a fala de mãos que se imagina a acariciar o seu rosto, ela é a ternura que se ambiciona no aconchego, é um amor que se guarda sem segredo, o fruto e mosto de bebida tão perfumada. Na verdade, um sonho que demora a encontrar a realidade.

dc

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Caminhando à chuva

 

Gostava de saber escrever como um poeta e dizer as palavras certas, chegando aos ouvidos de quem queremos que escute. O cérebro, de modo intenso, trabalha. Pensamentos cruzados com o quotidiano das coisas baralham os raciocínios, fluindo tudo sem filtros. Confundem-se sentimentos com comportamentos, modos de estar com emoções, a beleza observada com os olhos do apego e resíduos do passado que devem ficar nas profundezas do inferno, a confundir o que na prática queremos tão limpo como a brancura da pomba da paz.
A chuva cai, traz com ela o frio, molha as roupas, o corpo gela por dentro. Acorda-o para a realidade. O sorriso inconsciente que bordava o rosto esmorece, os cantos da boca descaem e o frio traz gotas de sal à superfície dos olhos. É possível que, se fosse primavera, tudo fosse menos pesado e mais fácil encarar o futuro de forma positiva.
Ninguém tem culpa das intempéries que, dentro ou fora de nós, se desenrolam. Somos fruto das nossas vivências, da nossa cultura e educação, e das circunstâncias que nos foram surgindo no caminho. Tantas vezes pensa ter nascido fora da época. Não soube viver o que tinha quando por si passou a vida; hoje não encontra palavras, nem tem o tempo para que elas anulem a diferença que conta e que trava o seu dizer.  
Pensa ambiguidades, fica preso no acaso para que ele faça por si o que teme fazer e que, pelo menos, seria a resposta ao que sente dentro de si. Ser claro é ter a capacidade para enfrentar a negativa ou a positiva, com a força que a experiência deveria ter forjado ao longo do tempo.


dc

 

 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O que fazer?

 


Fui envolvido por silêncios, nem sempre únicos, as falas não ocorrem, todos temos necessidade de meditar. As circunstâncias do ambiente que nos rodeia envolvem-nos de questionamentos, perante a violência física e mental que ocorre na sociedade, que, envolvida por falsas premissas, leva os incautos a acreditar em frases corrompidas de lógica e afastadas da realidade. Carne para canhão, na gíria comum, somos os últimos a apercebermo-nos de que fomos enganados pelos sorrisos, as palavras bonitas, as promessas irrealizáveis. E seguimos percorrendo os mesmos caminhos, com os mesmos defeitos, porque, intoxicados quanto baste por uma comunicação fácil e programada, vamos direitos ao abismo que nos propõem. Acusam-me de pessimismo, de encarar o mundo caótico sem esperança, mas na verdade penso que mais importante do que perder a esperança é saber até que ponto consigo ajudar a despertar quem adormece em crenças de duvidosa origem, ou naqueles que os dirigem usando a frase comum “é para o vosso bem”, como se eles alguma vez tivessem sido salvadores de algo. O povo acredita nos corruptos que dizem combater a corrupção, porque, castigados pela vida, fazem profissão de fé perante o demagogo e chamado, de diabo em pessoa, que só falta ir às lágrimas para os encadear com as luzes das promessas.
Penso em quantas vezes tive de engolir sapos para que o caminho das pessoas não acelere em direcção ao abismo. Fui cúmplice de muitas desses questionamentos e decisões, do mal menor, mas será que conseguimos, em algum momento, ser capazes de chegar até eles acordando-os, ou facilitamos-lhes a vida, não os deixando escorregar na casca de banana onde caíram? Se fosse um filho, diríamos que serviria de aprendizagem, na vida em sociedade diz-se: mal menor.
 Cansei. O tempo foge-me do controlo e o fim está cada vez mais próximo, e fica-me a frase famosa: o que fazer? Será que devo manter-me no mesmo registo por um tempo ou deixar que tudo aconteça como aprendizagem?


dc