
Muitas
vezes tinha caminhado por aquela estrada de acesso à praia, com subidas e
descidas, num alcatrão sem largura suficiente para os carros. O espaço
envolvente era preenchido por pinheiros-mansos de um lado e outro do percurso,
que deixavam um cheiro agradável no ar. Cada vez que fazia aquele percurso, ao
passar pela curva da vacaria, ao aproximar-se da auto-estrada, ficava parado a
olhar o outro lado, sonhando com as potencialidades de viver naquele lugar;
imaginava uma casa com vista para a lagoa e para o campo verde, com vacas e
cavalos a pastar.
Aquela praia, para alguns seria uma surpresa; para ele, não. Há largos anos que
conhecia aquela praia. O caminho pelo passadiço, agora feito de materiais
amigos da natureza, conduz-nos à praia; quando chegou ao topo da duna, olhou e
respirou fundo. A praia, como sempre, estava quase deserta: um guarda-sol
aberto e duas pessoas, não só por ser cedo, mas porque, na verdade, nunca fora
uma praia muito frequentada. A justificação disso tinha a ver com o mar agitado
que era comum, com as ondas a quebrar no areal de forma perigosa para os
banhistas. É uma praia pouco conhecida pelos de fora; é, por assim dizer, dos
da terra. Uns chamam-lhe a Praia da Vacaria, outros do Monte Velho. O mar, nem
sempre calmo o suficiente para tomar banho e nadar um pouco, hoje estava mar-chão,
quase sem ondulação. Verificou que agora havia nadadores-salvadores, pelos
sinais que se indicavam no areal, o que permitia ter mais confiança aquando do
banho. Ele não esperou por eles e avançou. A água estava à temperatura certa,
pelo menos para ele. Foi um banho delicioso, que o deixou cansado, mas calmo e
pronto para se derramar na areia e aproveitar o sol. Mais dois banhos
aconteceram no intervalo da leitura, e do sol a cumprir o seu serviço de
bronzear e carregar o corpo de vitamina D. Acabariam por chegar mais pessoas,
não muitas, mas as suficientes para lhe dar a razão de ser.
Não ficou muito tempo; tinha vindo a caminhar pela estrada e, duas horas
passadas, teria de voltar à cidade, outrora vila. A caminhada foi calma,
observando e absorvendo cada bocadinho da paisagem até chegar ao lugar da
vacaria, onde mais uma vez sonhou e desejou ficar naquele outro lugar em
frente.
Um início de férias como esperava: debruando memórias, carregar a esperança,
largar o stresse e voltar e aproveitar para sorrir.
dc
