Nem sempre podemos dizer tudo. Há mundos privados difíceis de explicar, sensações que te movem que não sabes de onde vêm. A mole humana que rodeia o lugar em que habitas vai-te condicionando; os relacionamentos, a alegria de pertencer, a expressividade que entranhas, tentam desnudar-te, cercar a tua intimidade, para que se sintam na tua órbita. És um estranho, que se encontra na toma do café, que veem ler o jornal e fazendo as palavras cruzadas ou então com um livro aberto parecendo devorar palavras tal a tua atenção. És objecto de espanto, talvez entendido como figura pedante, no mínimo obtusa, como se não quisesses mistura com a gente comum, por te pensares diferente.
É difícil entenderem-te, muito mais quando
o teu comportamento não se enquadra na conversa corriqueira, por vezes
fofoqueira, do dia a dia, quando não colaboras na discussão da “Casa dos
Degredos”, com que as TVs lhes preenchem os serões, ou até do futebolês, da
clubite fanática que os faz começar a semana deprimidos pelo mau resultado do
seu clube e, no rescaldo, a falta de empenho da equipa, dos árbitros que são
péssimos, da imprensa tendenciosa. A ausência de leitura é mais do que
evidente, as redes sociais no telemóvel falam alto na mesa de alguém, os
chamados “reels” são ouvidos em som alto para que os vizinhos da mesa do café
ouçam, e por vezes, até ao passear no parque, se ouçam as gargalhadas em alta
voz que chegam aos ouvidos de todos os presentes no espaço circundante. O seu
mundo não tem política, a cultura é algo estranho ao seu viver. A culpa não se
lhes pode atribuir: a “casta superior do poder” na sociedade de hoje usa e
divulga o chavão “Os tempos são outros” para fornecer a pais, professores e
povo em geral a justificação de fracassos, criação de permissividade e caos; tudo
aquilo que, se explicado, poderá ser perigoso para o domínio dos donos disto
tudo, que apelam a modernismos bacocos, tecnologias que criam adição como as
redes sociais, ou que põem o povo a trabalhar para eles na aquisição e
pagamento de serviços, fazendo-os acreditar que, efectuando registo e
pagamentos de produtos por si próprios, numa qualquer grande superfície, estão
a acompanhar a evolução tecnológica e a poupar tempo e não a contribuir para o desemprego,
enchendo os bolsos dos donos. Com tudo isso a educação perde-se, os princípios
e valores não são contabilizados; discutem-se as questões de género, dividindo
a luta de direitos comuns a todos por questões particulares, criando um espírito
de seita onde deveria haver igualdade de todos; Travam-se os pilares do
relacionamento colectivo e de respeito como seres humanos pela liberdade e maior
participação na gestão colectiva do seu bem-estar.
dc