É possível que tenha criado
um avatar, para atrair as atenções, como renúncia de si própria, do mesmo modo
que teme enfrentar o espelho e encontrar o rosto que renega, por incapacidade de
valorar a sua real beleza. É possível que tenha criado um avatar, como renúncia
de si própria, para atrair as atenções, do mesmo modo que renega a idade que
não quer, a confiança perdida algures no caminho. Prefere projectar-se num
rosto que seria seu por direito, se o mundo efectivamente tivesse um Deus. Sim,
ele ter-lhe-ia dado um outro rosto, um outro corpo, uma força maior para se
encarar nos seus defeitos e virtudes, mais de acordo com o seu humor e o seu
gosto de vestir e viver. Tem momentos em que faz umas caretas, tentando
esconder-se atrás de um esgar que não deixa que julguem a sua beleza. Sabe que
não precisaria de mudar; os seus olhos grandes com íris clara, que lhe dão uma expressão gata, embora na
maior parte do tempo fiquem por trás dos óculos que usa para a presbiopia.
Evita mostrar as suas mãos; não são delicadas, de dedos compridos e afilados
como gostaria, e ela sabe que as mãos revelam muitas coisas. Maquilha-se, não
muito, mas o suficiente para esconder os pés de galinha da noite mal dormida. É
livre e humana e, como tal, é normal ter medo de se enfrentar, muito mais
depois do último desamor que a visitou. O avatar traz presenças, likes de gente
vária que lhe permitem a escolha como amizades. Não se revela muito, partilha
imagens de outras mulheres, sugere pensamentos ousados e de amor nas
entrelinhas, confia naquela sua passagem pela rede como agenda do possível em
tempos aborrecidos no dia a dia.
dc