sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Caminhando à chuva

 

Gostava de saber escrever como um poeta e dizer as palavras certas, chegando aos ouvidos de quem queremos que escute. O cérebro, de modo intenso, trabalha. Pensamentos cruzados com o quotidiano das coisas baralham os raciocínios, fluindo tudo sem filtros. Confundem-se sentimentos com comportamentos, modos de estar com emoções, a beleza observada com os olhos do apego e resíduos do passado que devem ficar nas profundezas do inferno, a confundir o que na prática queremos tão limpo como a brancura da pomba da paz.
A chuva cai, traz com ela o frio, molha as roupas, o corpo gela por dentro. Acorda-o para a realidade. O sorriso inconsciente que bordava o rosto esmorece, os cantos da boca descaem e o frio traz gotas de sal à superfície dos olhos. É possível que, se fosse primavera, tudo fosse menos pesado e mais fácil encarar o futuro de forma positiva.
Ninguém tem culpa das intempéries que, dentro ou fora de nós, se desenrolam. Somos fruto das nossas vivências, da nossa cultura e educação, e das circunstâncias que nos foram surgindo no caminho. Tantas vezes pensa ter nascido fora da época. Não soube viver o que tinha quando por si passou a vida; hoje não encontra palavras, nem tem o tempo para que elas anulem a diferença que conta e que trava o seu dizer.  
Pensa ambiguidades, fica preso no acaso para que ele faça por si o que teme fazer e que, pelo menos, seria a resposta ao que sente dentro de si. Ser claro é ter a capacidade para enfrentar a negativa ou a positiva, com a força que a experiência deveria ter forjado ao longo do tempo.


dc

 

 

 

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