Sinto
prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus
diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a
pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que
aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que
permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o
gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse
de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure
reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades
duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me
enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente,
mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las,
seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las
através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais
tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as
emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem,
levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e
afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.
dc
domingo, 11 de janeiro de 2026
Folhas de outono
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Foto:Diamantino Carvalho
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