sábado, 6 de junho de 2026

Um anónimo também é gente


Será que algum dia ouvirá da sua boca o muito que tem para dizer? Há muito perdeu a fala clara, vibrátil, e a sua entoação típica; agora só uns sons roufenhos e ridículos saem da sua boca, transformando o acto da fala num martírio, entre o conteúdo e a clareza mínima para que seja perceptível. No somatório de coisas ruins que acontecem, pela sua natureza de rebelde social, é frustrante ter de se calar perante os factos. É difícil e avoluma-se com o silêncio a que se devota para não se esforçar a gritar; mesmo assim, não o entendem. Foi fugindo do contacto, guardando o seu espaço de convivência para um número cada vez mais reduzido de pessoas. Pensou que escrever seria uma solução, mas não é fácil verter para texto o que as emoções e sentimentos ditam, nem lhe dar a expressividade necessária que enriquece o diálogo. Já lhe perpassou aprender a língua gestual para não se esforçar a falar; pelo menos os surdos-mudos o entenderiam. Na verdade, a vida continua e não deixou de pensar em sentir os lábios de quem ama sobre a pele, de acordar no mesmo leito, sentir as suas mãos acariciando o seu rosto, o calor dos seus próprios corpos e odores mesclados com o cheiro da noite e o diálogo incoerente do ensonado amanhecer. Assim, vai-se limitando a observar, ler e acreditar que um dia acontecerá e a fala se soltará, as mãos falarão carícias e os seus olhos serão mensagem de um sentimento profundo que cala dentro de si.

Um anónimo também é gente


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