Será que algum dia ouvirá da sua boca
o muito que tem para dizer? Há muito perdeu a fala clara, vibrátil, e a sua
entoação típica; agora só uns sons roufenhos e ridículos saem da sua boca,
transformando o acto da fala num martírio, entre o conteúdo e a clareza mínima
para que seja perceptível. No somatório de coisas ruins que acontecem, pela sua
natureza de rebelde social, é frustrante ter de se calar perante os factos. É
difícil e avoluma-se com o silêncio a que se devota para não se esforçar a
gritar; mesmo assim, não o entendem. Foi fugindo do contacto, guardando o seu
espaço de convivência para um número cada vez mais reduzido de pessoas. Pensou
que escrever seria uma solução, mas não é fácil verter para texto o que as
emoções e sentimentos ditam, nem lhe dar a expressividade necessária que
enriquece o diálogo. Já lhe perpassou aprender a língua gestual para não se
esforçar a falar; pelo menos os surdos-mudos o entenderiam. Na verdade, a vida
continua e não deixou de pensar em sentir os lábios de quem ama sobre a pele, de
acordar no mesmo leito, sentir as suas mãos acariciando o seu rosto, o calor
dos seus próprios corpos e odores mesclados com o cheiro da noite e o diálogo
incoerente do ensonado amanhecer. Assim, vai-se limitando a observar, ler e
acreditar que um dia acontecerá e a fala se soltará, as mãos falarão carícias e
os seus olhos serão mensagem de um sentimento profundo que cala dentro de si.
Um anónimo também é gente
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