sábado, 22 de agosto de 2026

A SÓS

 

Se caminhássemos no mesmo areal, eu caminhando em direção ao sul e tu em direção ao norte, em algum momento ficaríamos frente a frente e deixaríamos de estar sós. O teu rosto chagaria iluminado com esses teus olhos de mar e eu ver-te-ia com olhos de terra, mesmo sendo de um signo de água(?). Aí, nesse momento, a conversa fluiria por tempo infinito, como o areal onde os nossos pés assentavam. As falas teriam como princípio essa coisa a que se chama o “Karma” e como funcionara para nos juntar naquele lugar. Neste nosso caminhar, caminhando, apuraríamos que não teve origem no tal eclipse do espanto que tantos perseguiam, nem fora pensado para nos eclipsarmos. Somente dois espíritos à procura de respostas ao silêncio; as marcas no areal falavam do quanto meditaram até convergirem. Aquele era um lugar de fala, depois de tanta espera para se conhecerem. Prender-me-ia no teu sorriso, nos teus lábios ao mexer com as falas, e no olhar o brilho com que chegaste. Sem abraço, as mãos se dariam, mantendo a distância para que nos observássemos. Depois, sentar-nos-íamos no areal, sem largar as mãos como que mantendo o espaço e a segurança na descida. Mundos e ideias surgiriam dos pensamentos, emoções se revelariam, sentimentos se definiriam.
E sem saber acabaríamos deitados no areal olhando o céu, rodando a cabeça de vez em quando de acordo com as falas. A sua mão estaria dentro da minha, reagindo como resposta à conversa; ao mesmo tempo, aperceber-me-ia da maciez dos seus dedos afilados e do seu perfume. O pôr do sol acabaria por surgir e nos colocar-nos-íamos em posição para o ver; bastaria rodarmos os corpos e ficarmos de cotovelos enfiados no areal. O pôr do sol seria um prémio, tão único, como a natureza da sua existência naquela praia.

 

dc


terça-feira, 11 de agosto de 2026

A necessária conversa a dois


Os passos foram desenhando o caminho que o inconsciente trazia à superfície. Muitas memórias fluíam; era um caudal de água que procurava a foz. Foi ao encontro do silêncio, para que as histórias surgissem. Quando saiu da sua cidade, não sabia bem o que o movia a vir para tão longe. Ele sabia que estava só no meio da multidão, todos os dias eram rotina, estava a definhar sem saber que passos tomar para sair do marasmo; lia, tentava pintar ou escrever, mas andava em círculos no correr dos dias. No entanto, com o aproximar do tempo de férias, a vontade de sair para estar onde agora estava começou a ser obsessão; algo o impelia a vir para esta cidade.
Aqui viu uma vila de operários nascer do nada e transformar-se em cidade. Aqui aprendeu o que significa ser tratado como “compadre”; é ser um de nós; é o vizinho saudando, interrogação, convite para companhia, solidariedade, confiança, igualdade.
Aqui celebrara os primeiros meses da existência da sua filha, aqui vivera dois amores desfasados no tempo, aqui percorrera por horas um pinhal tentando encontrar o mar, quando não conseguia encontrar-se a si próprio. Aqui voltara umas quantas vezes, preso a este lugar, a estas gentes, às praias que por aqui proliferam. Desta vez, “sozinho em casa”, numa pausa que lhe permitia usar o tempo para reflectir sobre tantas histórias e marcas profundas de cuja importância só agora tomava consciência. Estar aqui permitia-lhe as leituras, as caminhadas, o silêncio, as conversas a dois, dele com o seu outro, num acordar para a escuta, para a observação e deixar-se absorver pela calma, num ambiente necessário para encarar as decisões futuras.

dc

domingo, 9 de agosto de 2026

Porque leio nas paredes 3

Gostaria de contar-lhe as suas histórias e as coisas belas que acontecem nesta nossa vivência sobre a terra, porque partilhar com ela seria dividir conhecimento e sensibilidades. No entanto, fica-se na privacidade deste recato das mensagens privadas, com textos mal aparelhados, sabendo que só ela os poderá ler e interpretar o seu conteúdo, o seu silêncio e a sua ausência.
Ela pode rir-se do desacerto das letras, do vocabulário errático ou da má qualidade da escrita, mas espera que não se ria da coragem com que ele se atreveu a declarar o seu desconcerto quando a observa. E mesmo que nunca a tenha perto, a sua imagem traz-lhe a sua morfologia, sem desvendar qual o segredo de se sentir seduzido; é algo que surgiu de forma inesperada, como se fosse a resposta ao sentimento que deseja preenchido e, por arte de telepatia, ela tivesse entrado no seu pensamento e adentrasse na sua pessoa. Como pode uma simples imagem justificar a razão do que sentia ao olhá-la, mesmo sabendo de forma consciente ser somente uma imagem, que pode estar longe da realidade, e que ela não parece suficiente para revelar quem é. É um gostar abstracto inexplicável, quase diria injustificado, porque nada chegou até ele que criasse, pelo menos, razão para acreditar numa comunhão de sentires. A emoção afecta-o, ao vê-la, gera um sentimento que se entranha e cresce dia a dia; a explicação para isso continua por encontrar e torna mais difícil afugentar os pensamentos que surgem sem filtro.

  

dc

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A "minha" praia



Muitas vezes tinha caminhado por aquela estrada de acesso à praia, com subidas e descidas, num alcatrão sem largura suficiente para os carros. O espaço envolvente era preenchido por pinheiros-mansos de um lado e outro do percurso, que deixavam um cheiro agradável no ar. Cada vez que fazia aquele percurso, ao passar pela curva da vacaria, ao aproximar-se da auto-estrada, ficava parado a olhar o outro lado, sonhando com as potencialidades de viver naquele lugar; imaginava uma casa com vista para a lagoa e para o campo verde, com vacas e cavalos a pastar.
Aquela praia, para alguns seria uma surpresa; para ele, não. Há largos anos que conhecia aquela praia. O caminho pelo passadiço, agora feito de materiais amigos da natureza, conduz-nos à praia; quando chegou ao topo da duna, olhou e respirou fundo. A praia, como sempre, estava quase deserta: um guarda-sol aberto e duas pessoas, não só por ser cedo, mas porque, na verdade, nunca fora uma praia muito frequentada. A justificação disso tinha a ver com o mar agitado que era comum, com as ondas a quebrar no areal de forma perigosa para os banhistas. É uma praia pouco conhecida pelos de fora; é, por assim dizer, dos da terra. Uns chamam-lhe a Praia da Vacaria, outros do Monte Velho. O mar, nem sempre calmo o suficiente para tomar banho e nadar um pouco, hoje estava mar-chão, quase sem ondulação. Verificou que agora havia nadadores-salvadores, pelos sinais que se indicavam no areal, o que permitia ter mais confiança aquando do banho. Ele não esperou por eles e avançou. A água estava à temperatura certa, pelo menos para ele. Foi um banho delicioso, que o deixou cansado, mas calmo e pronto para se derramar na areia e aproveitar o sol. Mais dois banhos aconteceram no intervalo da leitura, e do sol a cumprir o seu serviço de bronzear e carregar o corpo de vitamina D. Acabariam por chegar mais pessoas, não muitas, mas as suficientes para lhe dar a razão de ser.
Não ficou muito tempo; tinha vindo a caminhar pela estrada e, duas horas passadas, teria de voltar à cidade, outrora vila. A caminhada foi calma, observando e absorvendo cada bocadinho da paisagem até chegar ao lugar da vacaria, onde mais uma vez sonhou e desejou ficar naquele outro lugar em frente.
Um início de férias como esperava: debruando memórias, carregar a esperança, largar o stresse e voltar e aproveitar para sorrir.

dc