domingo, 9 de agosto de 2026

Porque leio nas paredes 3

Gostaria de contar-lhe as suas histórias e as coisas belas que acontecem nesta nossa vivência sobre a terra, porque partilhar com ela seria dividir conhecimento e sensibilidades. No entanto, fica-se na privacidade deste recato das mensagens privadas, com textos mal aparelhados, sabendo que só ela os poderá ler e interpretar o seu conteúdo, o seu silêncio e a sua ausência.
Ela pode rir-se do desacerto das letras, do vocabulário errático ou da má qualidade da escrita, mas espera que não se ria da coragem com que ele se atreveu a declarar o seu desconcerto quando a observa. E mesmo que nunca a tenha perto, a sua imagem traz-lhe a sua morfologia, sem desvendar qual o segredo de se sentir seduzido; é algo que surgiu de forma inesperada, como se fosse a resposta ao sentimento que deseja preenchido e, por arte de telepatia, ela tivesse entrado no seu pensamento e adentrasse na sua pessoa. Como pode uma simples imagem justificar a razão do que sentia ao olhá-la, mesmo sabendo de forma consciente ser somente uma imagem, que pode estar longe da realidade, e que ela não parece suficiente para revelar quem é. É um gostar abstracto inexplicável, quase diria injustificado, porque nada chegou até ele que criasse, pelo menos, razão para acreditar numa comunhão de sentires. A emoção afecta-o, ao vê-la, gera um sentimento que se entranha e cresce dia a dia; a explicação para isso continua por encontrar e torna mais difícil afugentar os pensamentos que surgem sem filtro.

  

dc

 

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