terça-feira, 11 de agosto de 2026

A necessária conversa a dois


Os passos foram desenhando o caminho que o inconsciente trazia à superfície. Muitas memórias fluíam; era um caudal de água que procurava a foz. Foi ao encontro do silêncio, para que as histórias surgissem. Quando saiu da sua cidade, não sabia bem o que o movia a vir para tão longe. Ele sabia que estava só no meio da multidão, todos os dias eram rotina, estava a definhar sem saber que passos tomar para sair do marasmo; lia, tentava pintar ou escrever, mas andava em círculos no correr dos dias. No entanto, com o aproximar do tempo de férias, a vontade de sair para estar onde agora estava começou a ser obsessão; algo o impelia a vir para esta cidade.
Aqui viu uma vila de operários nascer do nada e transformar-se em cidade. Aqui aprendeu o que significa ser tratado como “compadre”; é ser um de nós; é o vizinho saudando, interrogação, convite para companhia, solidariedade, confiança, igualdade.
Aqui celebrara os primeiros meses da existência da sua filha, aqui vivera dois amores desfasados no tempo, aqui percorrera por horas um pinhal tentando encontrar o mar, quando não conseguia encontrar-se a si próprio. Aqui voltara umas quantas vezes, preso a este lugar, a estas gentes, às praias que por aqui proliferam. Desta vez, “sozinho em casa”, numa pausa que lhe permitia usar o tempo para reflectir sobre tantas histórias e marcas profundas de cuja importância só agora tomava consciência. Estar aqui permitia-lhe as leituras, as caminhadas, o silêncio, as conversas a dois, dele com o seu outro, num acordar para a escuta, para a observação e deixar-se absorver pela calma, num ambiente necessário para encarar as decisões futuras.

dc

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