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sábado, 22 de agosto de 2026

A SÓS

 

Se caminhássemos no mesmo areal, eu caminhando em direção ao sul e tu em direção ao norte, em algum momento ficaríamos frente a frente e deixaríamos de estar sós. O teu rosto chagaria iluminado com esses teus olhos de mar e eu ver-te-ia com olhos de terra, mesmo sendo de um signo de água(?). Aí, nesse momento, a conversa fluiria por tempo infinito, como o areal onde os nossos pés assentavam. As falas teriam como princípio essa coisa a que se chama o “Karma” e como funcionara para nos juntar naquele lugar. Neste nosso caminhar, caminhando, apuraríamos que não teve origem no tal eclipse do espanto que tantos perseguiam, nem fora pensado para nos eclipsarmos. Somente dois espíritos à procura de respostas ao silêncio; as marcas no areal falavam do quanto meditaram até convergirem. Aquele era um lugar de fala, depois de tanta espera para se conhecerem. Prender-me-ia no teu sorriso, nos teus lábios ao mexer com as falas, e no olhar o brilho com que chegaste. Sem abraço, as mãos se dariam, mantendo a distância para que nos observássemos. Depois, sentar-nos-íamos no areal, sem largar as mãos como que mantendo o espaço e a segurança na descida. Mundos e ideias surgiriam dos pensamentos, emoções se revelariam, sentimentos se definiriam.
E sem saber acabaríamos deitados no areal olhando o céu, rodando a cabeça de vez em quando de acordo com as falas. A sua mão estaria dentro da minha, reagindo como resposta à conversa; ao mesmo tempo, aperceber-me-ia da maciez dos seus dedos afilados e do seu perfume. O pôr do sol acabaria por surgir e nos colocar-nos-íamos em posição para o ver; bastaria rodarmos os corpos e ficarmos de cotovelos enfiados no areal. O pôr do sol seria um prémio, tão único, como a natureza da sua existência naquela praia.

 

dc


sábado, 19 de agosto de 2023

O entardecer é um suspiro

 

O entardecer é um suspiro. Corro para ver o Sol, antes de ele partir para outro lugar. Depois fico-me, sentado, usufruindo o bater das vagas no lençol de areia. Tudo o mais é silêncio. As gaivotas já se despediram do dia, e, algumas, estão em grupo pousadas no areal, talvez preparando o sono, quem sabe. Só na minha cabeça, as engrenagens, da vida activam, os diferentes sentidos. As minhas mãos, vivenciam o toque da areia, que escorre entre os dedos; os meus olhos, procuram gravar as cores que marcam o céu e desenham o horizonte; o meu coração baixa as batidas, e a respiração torna-se compassada, lenta absorvendo todos os odores que me chegam. A emoção toma todo o meu ser e uma paz estranha, mas deliciosa, se apodera de mim, sem permissão para interrupções. O mar, está ali, com a sua canção de embalar, para que tudo esteja certo, para que tudo dê certo. Tudo adentra, o frio não existe, a angústia se foi, a serenidade se implanta, o presente torna-se intenso, único, autêntico.

dc