domingo, 12 de abril de 2026

Na dúvida

     

É possível que tenha criado um avatar, para atrair as atenções, como renúncia de si própria, do mesmo modo que teme enfrentar o espelho e encontrar o rosto que renega, por incapacidade de valorar a sua real beleza. É possível que tenha criado um avatar, como renúncia de si própria, para atrair as atenções, do mesmo modo que renega a idade que não quer, a confiança perdida algures no caminho. Prefere projectar-se num rosto que seria seu por direito, se o mundo efectivamente tivesse um Deus. Sim, ele ter-lhe-ia dado um outro rosto, um outro corpo, uma força maior para se encarar nos seus defeitos e virtudes, mais de acordo com o seu humor e o seu gosto de vestir e viver. Tem momentos em que faz umas caretas, tentando esconder-se atrás de um esgar que não deixa que julguem a sua beleza. Sabe que não precisaria de mudar; os seus olhos grandes com íris clara, que lhe dão uma expressão gata, embora na maior parte do tempo fiquem por trás dos óculos que usa para a presbiopia. Evita mostrar as suas mãos; não são delicadas, de dedos compridos e afilados como gostaria, e ela sabe que as mãos revelam muitas coisas. Maquilha-se, não muito, mas o suficiente para esconder os pés de galinha da noite mal dormida. É livre e humana e, como tal, é normal ter medo de se enfrentar, muito mais depois do último desamor que a visitou. O avatar traz presenças, likes de gente vária que lhe permitem a escolha como amizades. Não se revela muito, partilha imagens de outras mulheres, sugere pensamentos ousados e de amor nas entrelinhas, confia naquela sua passagem pela rede como agenda do possível em tempos aborrecidos no dia a dia.

dc

 

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