Caminhando a horas incertas pelas ruas desertas, os olhos parados, e o corpo se agitando a cada passo, Não tem destino, A chuva cai torrencialmente e cria um cortina na sua frente, como se um papel vegetal colocado perante os olhos. Também não importa caminha de forma intuitiva, um passo a seguir a outro passo, em cadência metódica, como se mentalmente contasse, o número de vezes que o faz.
Os faróis dos carros parecem estrelas multicores deslizando e cruzando-se, como se comandadas por mãos fantasmas, Tremeluzem como a inconstância dos pensamentos que o trouxeram à rua, em pleno temporal. Perto, ouve-se o estrondo das ondas que batem fortes contra os limites da estrada, e o ruído de fundo de um mar fortemente mexido, Os passos incertos, levam-no naquela direcção, atraído pelo cheiro do mar e aquela música fascinante que ele produz, No mar vêem-se também pequenas luzes tremeluzindo que aparecem e desaparecem no meio da ondulação, Barcos que esperam a melhor altura para entrar e atracarem no Porto. Tudo se vai desenrolando por trás daquelas linhas que desenham chuva, como as dúvidas, e problemas que o perturbam.
Tremendo e temendo aproxima-se do molhe onde as ondas gigantes ameaçam, desenhando arabescos de espuma branca no ar, com reflexos da luz dos candeeiros do paredão, como se fossem raios laser. Fica naquele limbo, entre o fugir de medo e o desafiar as ondas como se as quisesse combater com toda a sua fúria, Sente como que um arrepio, no corpo todo, cada vez que uma bate mais forte e se aproxima mais de si. Tantas vezes repetirá, até que o medo e a vontade de viver seja mais forte e o faça regressar ao caminho que começara.
Será ali naquele caminhar a sós, no meio do temporal, naquele caminhar um passo atrás de outro passo, Com o mar próximo, o seu cheiro e o barulho da ondulação forte, Com chuva intensa molhando-o, como se quisesse lavar-se de tudo o que de mau sentia naquela momento, Que ele passará as próximas horas deambulando até as energias se esgotarem e uma calma letárgica lhe indique que está pronto para regressar e decidir que rumo a tomar.
Alguns vão ao psicólogo, outros bebem uns copos, outros ainda, como ele, procuram desta forma reorganizarem-se física e mentalmente, preparando-se para os desafios e desventuras que acto de viver, neste mundo em desacerto, trás consigo.
DC
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
PENSAR À CHUVA
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Foto:internet
sábado, 28 de setembro de 2013
"Não EspeRavA TANTO
Acordas abraçada
Com desejo de calma
Sem apelo de chama
Por aquele corpo sem alma
O Hábito permanece
Num corpo ausente
Que por vezes esquece
Daquilo que sente
Os dias passam
O riso disfarça
E loas se cantam
À vida que passa
Alguém de longe que observa
Com palavras alerta
Para que não sejas cega
À nova descoberta
Um dia rirás
Com novo encanto
E a todos dirás
“Não esperava tanto”
dc
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Imagem:David Dubnitskiy
OUVINDO BACH
Elevo o som, fixo-me suspenso e esparramado no sofá, Deixo as teclas do órgão, soltarem-se debaixo de dedos céleres, Os violinos, os violoncelos com braços e mãos que se mexem agitados, fazendo arcos vogando sobre as cordas se apaixonando, se entrelaçando nas notas, construindo a música.
Não me pergunto sobre o D minor, toccata, fuga ou um Opus qualquer, Não faço ideia do que será uma colcheia, uma semicolcheia um dó menor ou maior, a semifusa ou se confusa..., Sei que elas se conjugam harmoniosamente dançando umas com as outras, Cada instrumento, a sua sonoridade, e cada momento vai decorrendo, no desafio contínuo acelerando, ou diminuindo o ritmo da música, que se propõem chegar até nós.
Nem técnica, nem sabedoria erudita me definem, A música corre, desenvolve-se e entra pelos ouvidos, chega à mente, desta ao coração e à pele que se arrepia... As emoções acontecem de forma irresistível, fazendo-me gostar e permanecer atento, tentando descobrir no silêncio da escuta, as sonoridades abstractas que me abraçam, como se falassem dos diferentes sons da natureza e da humanidade.
Assim me recreei escutando, com medo de parar o encantamento, com medo de que os pássaros fugissem que os riachos desaparecessem, que a vida deixasse de acontecer e ficasse novamente perdido nos ruídos da cidade.
DC
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Foto: Hamrah art
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
A Mala..
....de uma viagem, que não se sabe acontecida, ou restando ali no vazio perdida somente como sinal de ida sem regresso.
Naquela mala pousada no carril, ficou a angústia de não saber, qual a sorte que escolheste, se mudar de lugar, para me esquecer, ou ir mais longe sem tempo de voltar.
Resta-me agora sacudir o ar do teu perfume, lavar o sabor dos teus lábios com a chuva que se avizinha, e deixar que o vento que ocorre leve dos meus pensamentos as memórias de ti.
Resta-me agora deixar minguar a tua presença no meu corpo, fugir da sombra dos teus passos, e esperar o entardecer que me aproximará novamente desse horizonte longínquo, de um outro mundo por conhecer.
DC
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foto: Vladimir Marlov
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
IDADE DO OUTONO
PINTAMOS O OUTONO
DE CASTANHO,
QUANDO A IDADE
COMEÇA A FICAR”PRETA”,
INVERNAMOS NO SONO
E NA REALIDADE,
COMO QUEM VEGETA.
FUGIMOS RECUANDO
QUANDO DEVÍAMOS
AVANÇAR,
ENCONTRANDO
UMA OUTRA RAZÃO
UM OUTRO LUGAR.
TER PROVECTA IDADE,
NÃO É O FIM DE UNS IDIOTAS,
É UMA OUTRA FORMA
DE ESTAR NO MUNDO
ONDE NO FUNDO, NO FUNDO
SE ABREM OUTRAS PORTAS
DC
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FOTO: imagem do filme Outono em NY
terça-feira, 24 de setembro de 2013
AO mergulhar..
.... meu corpo nas águas, fugia da estreiteza da terra, Eu queria lavar, apagar a violência da tua posse, e a mágoa de sentir, ainda em mim, as marcas da tua passagem.
Olho o espelho irregular que me reflecte e não me reconheço, perdi meu rosto, desde que te vivera em mim, Restava a forma, o volume, a aparência de quem fora, Por dentro só a dor correndo no sangue, no ciclo infinito enquanto vida.
Serei mais uma caso de estatística, que não afastará teu cheiro, a pressão dos teus lábios sobre os meus, o peso do teu corpo e as tuas mãos imperiosas explorando e arrancando-me a roupa.
Odiei-te no primeiro momento por descobrires a minha fraqueza, enlouqueci de prazer e desejo quando me tomaste em pleno, tornei-me submissa, e acabei envergonhada pela cedência.
Lavo-me agora despindo-te da minha pele, liberto-me de ti, e afundo-me lentamente na água fria onde me deixo escorregar bem fundo na procura da paz que me roubaste.
DC
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Foto:internet
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
UM OUTONO A CHEGAR
A noite se aproximou lentamente do Dia e lhe perguntou: “Queres aparecer hoje, ou não? Está-se a fazer tarde e preciso de aclarar as ideias... O Dia meio incomodado, e de má vontade, entreabriu os olhos no meio da algazarra do despertador e disse-lhe: -“Tem calma e um pouco de paciência, Tenho de falar com o Sol, para saber se vem trabalhar hoje e se a minha amiga tarde tem o horário estabelecido, para quando regressares te entregar o serviço nocturno.
Assim conversam e passam os dias, entretendo o meu tio Setembro, preocupados com o primo Outubro, que no cair da folha de Outono, estará muito atarefado a preparar o irmão Inverno, que se lhe seguirá na gestão, despindo de folhas as árvores e dando banho frio a todo o mundo. Tudo isto, antes que a madrinha Primavera se apresente ao serviço, com todas as suas forças, e comece a trazer há luz dos acontecimentos as novas cores, folhas e frutos nas árvores, que servirão de chapéu para nos proteger do sol, com que o seu afilhado Verão nos gosta de brindar.
Partimos dos milésimos de segundos para os segundos, horas, dias, meses, anos e séculos, entremeados pelas várias estações e os gritos de um mundo que julgamos conhecer.
Outono chega na repetição do ciclo, ainda sem folhas caídas, no entanto preparado para se despedir, com todo o cuidado, de um verão tardio que deixou nosso corpo torrado e terreno bravio de tanto secar.
DC
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Foto:Diamantino Carvalho. Fafe
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