A carruagem está meio vazia, olhas pela janela vendo a paisagem correndo ao teu encontro como imagens de um filme trazidas pelo vento. O seu correr perante os teus olhos, fazem-te esquecer as preocupações e transportam-te para um outro lugar.
Imaginas a tua chegada e a espera de quem te gosta, a roupa, o sorriso, o brilho dos seu olhos, o abraço e o beijo cheio de promessas. Vês e revês o cenário imaginando diferentes reacções de ambos, de um só, ou simplesmente mudas as cores da roupa o calor do beijo, a diferença do abraço, a riqueza da promessa.
A viagem vai decorrendo e as estações cortam o teu pensamento, interrompem a paisagem que se desenrola aos teus olhos. O teu pensamento muda. A tensão se vai desvanecendo e a imaginação te traindo entra em outros cenários. Já não só, mas a dois, no espaço perdido de uma carruagem semi-vazia, onde os outros se tornam voláteis.
Sentes a humidade em teu corpo, deleitas-te com as imagens e deixas-te ir nesse devaneio, nesse espasmo de aventura, perdendo o chão, a noção do tempo e a bússola dos sentidos, somente o desenrolar das emoções...
... a ponte surge, com ela a paisagem da cidade em cascata que se vai tornando cada vez mais nítida e entrando pelos olhos aquecendo-te a alma... e pensas nas múltiplas vezes que aqui regressas, sempre com o mesmo prazer da primeira vez, em que o regresso aconteceu. É o retorno ao berço, à memória que se aviva e traz o arrepio na pele.
Anos vivendo longe, numa outra cidade, onde as raízes não encontram chão, alimentam essa necessidade de um dia regressar definitivamente.
Parado no cais da estação ele vê o comboio que se aproxima, levanta-se e aguarda que o comboio pare, que a sua imagem surja do fundo escuro da porta.
Finalmente a espera ansiosa se desvanece no abraço apertado, no beijo sôfrego, na alegria de se reverem.
Nova partida, nova viagem, mas esta sem carruagens e sem limites para o gozo das emoções.
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