Caminhava em passo
estugado, como de costume, fazendo disso o meu exercício matinal. Sentia no rosto
o frio das pingas escassas de chuva “molha tolos” e o vento, que trazia com
alguma força, tirando-me da modorra e sono que ainda habitava em mim.
As ruas estavam silenciosas, de onde em onde passava um carro e muito poucos
se encontravam estacionados. Sugeria uma espécie de abandono das gentes, talvez
expectável tendo em conta que era um dos três dias de Carnaval, como tal seria
normal que os farristas e as famílias aproveitassem, a tolerância de ponto, para
se deixarem dormir um pouco mais, gozando o calor da casa.
Os pensamentos, em tal cenário, divagavam para outras zonas menos citadinas e
tempos mais distantes, que mais se acentuavam com o cheiro a madeira queimada que
por certo alimentaria os recuperadores e lareiras. Se não fossem os pormenores
citadinos, como aquele correr de vivendas, os edifícios de apartamentos, as
bocas de incêndio, o alcatrão, quase parecia caminhar por uma aldeia dos meus
ancestrais.
Nesse caminhar e divagar fui fazendo o meu exercício, quando de repente, ao
chegar ao fim de uma das ruas, trazido pelo vento chega-me um perfume intenso misturado
com o cheiro mundano, noctívago, e no dobrar da esquina deparo-me com uma figura
feminina voluptuosa, suportada num corpo escultural, que se adivinha através da
lingerie que o desenhava, debaixo de uma espécie de tule preto que a cobre
desde os ombros até pouco abaixo dos joelhos, secundado por umas aberturas laterais que
deixam apreciar uma pele branca marmórea, O rosto de cor pálida, belo, tem as
sobrancelhas e as pestanas pintadas de negro, as pálpebras de um tom de azul
acinzentado, e as olheiras acentuadas, sugerindo cansaço, realçavam o brilho
dos olhos, Lábios marcados, por um batom cor rubi, meio esborratados, especulando
beijos, O retrato que agora faço do momento, foi desenhado no meu cérebro como
se fosse um laser rápido, que em segundos me marcou. O espanto e a surpresa, daquela figura perante os meus olhos, provocou-me um ligeiro tropeço, que a sua
mão delicada impediu que tomasse proporções mais graves, agarrando o meu braço e
colocando-me em milésimos de segundos a meia dúzia de centímetros de si, Inebriou-me
com o seu perfume e sorriso divertido, enquanto os seus olhos perscrutavam-me.
Ainda mal refeito, sinto a sua boca quente sobre a minha sorvendo-me os lábios, sentindo a sua língua insinuando-se na minha, e o seu corpo se insinuando no
meu, Meio atordoado, pela surpresa do que ocorria, ouço o barulho de portas se
abrindo, dum carro negro que parecia surgido do nada. Caímos no banco de trás
em inexplicável samba de corpos que se libertam do supérfluo e se encaixam, ambos
perdidos na bruma do prazer que os tomava, nem o meu corpo suado parecia
incomodá-la, antes pelo contrário, A sua boca é um vulcão, percorre-me e assenhora-se de mim, sinto os seus beijos e os dentes ligeiramente afilados na pele, entro
num labirinto de emoções e perco a noção do tempo, como se asas me tomassem o
corpo levando-me para as nuvens, numa espécie de loucura que se
apoderou dos meus sentidos...ouvia a sua voz quente se distanciando num
discurso que não percebia. Algum tempo depois, recuperando a razão, vou-me
assenhorando do lugar e de mim. Ela tinha desaparecido, somente um pequeno
lenço preto repousava no estofo do carro, com uma ligeira mancha vermelha, a
luz do dia que chegava do exterior incomodava-me os olhos, Fechei um pouco mais
a porta enquanto me recompunha e olhei o rosto pelo retrovisor do carro e
fiquei horrorizado com o que via. Os meus olhos se perdiam numas olheiras
profundas, escuras, num rosto descolorido, dois pontos pequenos, escuros marcavam o pescoço, e os lábios como um desenho escuro desenhando a boca...ainda
não refeito do que sentia e via, ouço a sua voz quente, como surgida de nenhures, em que se adivinhava um sorriso, que dizia pausadamente: ”caminhante o
caminho faz-se caminhando...é Carnaval não leves a mal...ah ah ah”
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