Ficou
absorto, de olhos presos no que via. Sentado, imóvel, sem alinhar dois
raciocínios. Afinal, de facto, os olhos falavam muito mais do que imaginaria.
Agora sentia por inteiro, já não só o corpo, mas tudo o mais que estava para
além do que via. Olhava-a e via uma imensidão de vida. O brilho do sorriso, o
corpo falando pela leveza das formas, os dedos aflorando a entrada dos bolsos
das calças, assumindo um desenho tímido de quem espera o primeiro gesto para
libertar a ternura disponível e se dar ao abraço a quem é objecto do seu desejo
e amor. Acontecera o pior: as ondas do universo tinham-lhe negado a
oportunidade de a encontrar na mesma fase do tempo. Lembrou-se do filme a Casa
do Lago e pensou como seria bom ter uma caixa do correio onde pudesse deixar-lhe
os seus pensamentos e desejos e, assim, contrariar o relógio do tempo,
acertando os ponteiros, para se descobrirem.
dc