Hoje fui à praia com o meu neto e deliciei-me. A forma como me apareceu vestido de calções e t-shirt, boné na cabeça na cabeça, mochila às costas, preparadíssimo para ir para a praia, deixou-me de olhos brilhantes tal era a sua felicidade.
Na viagem, dentro do carro, começou a falar do tempo dizendo que o “dia tinha o sol bom”, que havia “outros de vento que num apetecia a praia”.
Chegamos, o estacionamento da praia estava cheio, manifestei em voz alta o meu temor de ter lugar para o carro, Ele dizia, “é temos de ter”. Encontramos um espaço já no extremo do parque e ele todo vibrante dizia, “vês vô eu disse, eu disse que arranjavas lugar”.
Em plena praia ao colocar-lhe o protector solar em spray, dizia-lhe para fechar os olhos, que ele fechava com força e depois perguntava “já posso abrir, já vô?”.
Depois foi um fartote de brincadeira, fugindo das ondas, rindo de satisfação com os baldes de água salgada – brrr fria — pela cabeça abaixo, a seu pedido, o gozo de encostar as mãos frias ao meu corpo. As suas mãos infantis enterrando-se na areia, agarrando-a atirando-a ao mar. Os seus gritos de alegria a correr para se molhar, vindo atrás de mim para me molhar atraiam o olhar das pessoas que sorriam com a sua alegria e que me deixava completamente “babado”, tal era comunhão entre nós.
Já na toalha os seus olhitos piscando pelo incómodo do sol, a mastigar bolachas, tinha um sorriso malandro ao questionar-me sobre as minhas preferências, para ele poder ficar com as que tinham mais açúcar, de vez em quando bebia um golo de água da garrafa, enquanto isso, eu olhava-o pensando como ele assumia entre nós uma atitude compincha e partilha.
Não pudemos regressar a casa sem que fossemos primeiro ao “nosso” Jardim das Sete Bicas comer um “geladinho” que ele fazia questão de saborear, ficando no final, como qualquer criança, com gelado espalhado por tudo o que é cara e mãos, acabando tudo no lavatóriO com muita água.
Foram duas horas de pleno gozo emocional. Determinando em mim a necessidade de manter vivo e activo, para aproveitar o mais que puder o desfrute de tais momentos e se possível deixar-lhe as melhores memórias para quando definitivamente ausente.
Mal saberá ele a satisfação que me dá sempre que pronuncia aquele “Vô?”
22JUL2012
segunda-feira, 23 de julho de 2012
NA PRAIA COM MEU NETO
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Foto: Diamantino Carvalho
O MEU ESCRIFALAR
Muito do que escrevi, escrevo ou escreverei tem rastos de vida, tem pele esfolada e ardência que causa dor.Tudo o que os outros, de igual modo, escrevem para que eu leia, contribuem para o design do percurso das minhas palavras.
Não há deste meu lado, a pretensão da linguagem e capacidade daquele que é escritor, somente escrifalar, do muito que a sensibilidade e observação sugerem, e, talvez pôr em palavras aquilo que por vezes a timidez ou outras razões nos impedem de fazê-lo de outra forma.
De qualquer modo escritafar, seja de sonhos, cicatrizes, risos ou tristeza será sempre um modo saudável de catarse da alma e terá sempre o ADN de quem o faz.
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Foto: Diamantino Carvalho -
domingo, 22 de julho de 2012
ODEIO ADJECTIVOS
Do meu amigo aqui transcrevo e assino por baixo.
A sua bem humorada explicação serve para que muitas pessoas aprendam um pouco de português e a estarem atentas aos dislates que por aí dizem. Aqui vai.
Odeio os adjectivos
Tenho um amigo que não perde um debate na Assembleia da República ou uma audição numa qualquer Comissão Parlamentar.
Diz-me que se enerva neste jogo sujo das direitas contra as esquerdas, mas que de tanto matutar no que vê e ouve, arranja ao fim de algum tempo uma melhor resposta ao que o enervou. De treino em treino, apurou um sentido crítico, não raras vezes bem humora- das. Adepto do Eça de Queiroz(quem não é) e das suas “Farpas”, que lê repetidamente e cita á exaustão, diz que se estivesse na A.R. usaria o humor mortífero para cilindrar o adversário. Quando na conversa concordei que uma boa laracha liquida mais que um argumento ideológico ou um juízo macro-económico qualquer, retorquiu-me que só não o fazem por falta de cultura.
Dei-lhe toda a razão.
Saber dirimir sintacticamente torna-se uma arma terrível na mão de alguém de cultura, como se torna uma arma assassina do próprio, se a massa cinzenta de que dispõe for de segunda escolha.
Veja-se António José Seguro a responder aos jornalistas sobre a posição do PS no voto a dar sobre o O.E. :
- Abstenção Violenta.
Como é de calcular entrou de imediato para o anedotário nacional.
Ao adjectivar a abstenção Seguro julgava dar uma imagem reforçada da posição do PS.
Se soubesse um pouco mais da língua que tão mal fala saberia que o adjectivo, traz sempre água na bico ou seja é para disfarçar uma mentirita.
Exemplos:
Democracia liberal; Democracia financeira; Democracia ocidental; Democracia muscu- lada etc pois estaria aqui até amanhã a adjectivar a desgraçada da Democracia.
Democracia defini-se por ela própria; se adjectivada deixa de o ser. E ainda por cima esconde uma aldrabice.
Adjectivar não é aditivar, é travestir a mentira para que os mais incultos ou lorpas sejam levados á pincha.
RVJ
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INTIMIDADE
"Hoje declarei em casa de uns amigos que a maior prova de amor que um poeta pode dar a uma mulher é a sua intimidade. Escrever versos diante dela é qualquer coisa como parir com um Cristo à cabeceira da cama."
Miguel Torga
Fonte - Diário (1936) Tema - Poeta
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sábado, 21 de julho de 2012
LEMBRA DE MIM - Ivan Lins
Um dia as palavras foram ditas e não tiveram eco do teu sentir,
Lembra que foi ele que te deu a mão no correr das ruas. Que te passeou na lonjura do rio, te confortou no areal do mar.
Lembra a sua voz, que na distância foi conforto, e te acompanhava no caminho em que fugias do silêncio.
Fica-te com a memória do acordar, das suas carícias na tua pele, e do afagar de teus cabelos, que nunca retribuíste.
Saboreia o cheiro das árvores no jardim em que foste a flor mais apreciada.
Agarra nas imagens roubadas no melhor de ti e olha-as pensando no que nunca destes, mas em ti foi buscado.
Se depois disso tudo ainda não souberes como se constrói o amor, então terás de reciclar o teu mundo porque não sabes dar-lhe o valor.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
A "ESTÓRIA" DO MACACO
Um noite, cerca das duas horas da madrugada, um individuo que viajava de carro, por uma estrada escura e deserta no interior do país, de repente, sentiu um desequilíbrio no carro. Saiu e viu que tinha um pneu furado. Quando se preparava para o mudar verificou que não tinha macaco para o fazer. Olhou em redor preocupado e viu ao longe uma luz que lhe parecia ser de uma casa. E a ela se dirigiu esperançado.
Como a distância era grande, ele foi pensando na forma como iria pedir aos habitantes da casa o macaco para mudar o pneu. E então começou a pensar como se devia fazer o pedido:
- Olhe o senhor desculpe o adiantado da hora, mas tive um furo e estou sem macaco para mudar o pneu o sr. Podia-me emprestar... O gajo vai ficar f...do a estas horas da noite, pensava ele. Imagina se ele está com a mulher enfim... que se lixe eu tenho mesmo que lá ir. Talvez deva mudar o discurso.
- Olhe eu sei que é muito desagradável acordar alguém a esta hora da noite, mas sabe aconteceu-me um imprevisto.... e se o gajo me manda àquela parte e não me empresta?
Assim foi o condutor se aproximando da casa e conjecturando como faria o seu pedido e matutando como seria a resposta, que para ele iria sendo cada vez mais desagradável.
Quando chegou perto de onde vinha a luz verificou que afinal era um casarão enorme e sumptuoso. Preocupado e já consumido pelas especulações ao longo do caminho, aproximou-se e tocou à campainha da porta, Entretanto na sua cabeça só lhe vinham imagens desagradáveis de como os donos o iriam receber.
De repente acende uma luz e abre-se um janela onde parece um individuo que em voz ensonada lhe pergunta:
- O que é que pretende...
O condutor furioso vira-se a cabeça em direcção à janela e diz-lhe. Não é preciso nada vá-se lixar vá pra ò car...meta o macaco no cú.
(anedota retirada da internet)
Esta estória anedótica, é um bom exemplo do que diz o povo “ Lançou os foguetes, apanhou as canas e fez a festa”.
Muitas pessoas especulam tanto em relação ao que os outros pensam, ou aos seus comportamentos, que acabam por mostrar de si próprios aquilo que aos outros atribuem, ou seja, vira-se o “feitiço contra o feiticeiro”.
"A talho de foice" duas quadro do António Aleixo:
Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço,
Que, não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.
Veste bem já reparaste
Mas ele próprio ignora
Que por dentro é um contraste
Com o que mostra por fora.
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Foto: Diamantino Carvalho
quinta-feira, 19 de julho de 2012
A QUEDA ERA UM SONHO
Saltei voando do parapeito da janela do meu mundo
E senti o vento esmagando a pele, o ar forçado no peito
O pássaro passou por mim rindo a preceito
sabendo que meu corpo morria de qualquer jeito
Na surpresa inesperada de um lugar amortecido
A queda era um sonho no acordar desaparecido
De olhos bem abertos para acreditar na luz do dia
O meu sonho se interrompia e meu voo era agora de alegria
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FOTO: Carlos Alberto Bau(net)
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