sábado, 31 de janeiro de 2026

INcertezas

 

 

Não tenho a certeza se tem a perceção do que acontece e do que ele sente de modo inconsciente. Ele próprio não sabe como e porquê. Uma coisa, na verdade, acontece: fica à espera que ela surja, trazendo a sua imagem à superfície do dia, como um despertador de emoções. Quando se apercebe da idade que os separa, teme não ter oportunidade para colocar o que sente e expressar-se com palavras, fica absorvido na espera, como alguém tímido. Talvez se possa dizer, deste remoinho de emoções que surgem do nada, agitando todo o seu ser, que se comporta como aquele sujeito que, em noite de baile, fica preso no lugar, sem se dirigir à sua eleita com aquela frase: A menina dança. Tudo são obstáculos. Por vezes, o que vemos e sentimos, adentrando em nós, é alheio ao sujeito desse sentimento, nem é claro que seja o causador ou, até, tenha tido a percepção do efeito que causa.

Sente-se perdido na meditação dos dias, incapaz de decidir, de tomar a iniciativa, de correr atrás do seu sorriso, da voz dela, inteira. A única coisa em que pensa é no encanto que a imagem bidimensional, sem volume, o fascina, que o faz pensar num abraço, num corpo distante de que não lhe conhece a forma, o saber dos seus pensamentos, desejos e emoções que o formam. Nunca lhe ouviu a voz, ou sentiu o seu sorriso a nascer nos lábios. No entanto, imagina-a a pousar o seu rosto sobre o seu peito, ouvindo as batidas calmas do seu coração, do qual se assenhorou sem saber ou perceber. “Que seja bom enquanto dure” é a frase que mantém como refrão, pensando que não importam idades ou tempo de estar como suplemento um do outro, e os dias voarão até que eu parta, como naturalmente deve acontecer, mais cedo que tarde. Será o seu egoísmo? Quem será capaz de avaliar a riqueza do vivido? Fica a dúvida, mas no seu coração já foi decidido, que dure os segundos, minutos, dias ou semanas, mas que seja eterno.


dc


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Hoje é dia de música


     

Quero sentir a alegria da música, que vai além da realização física. Sentir que me mexe por dentro, que me traz a vontade de ser, que me arrasta para fora da cama de pijama vestido, agitando o corpo de forma inconsciente, e me leva a saltar por cima dos sofás seguindo o ritmo sonoro, até à cozinha para um café matinal, e depois...depois ficar sentado a olhar a não existência. Ouvir, sem saber como o encanto e prazer da variação das notas dos instrumentos nos aquece por dentro, numa felicidade que nos atravessa o corpo de energia, pondo um sorriso e a alegria de dançar na casa vazia. Num sonho de pular ao ar livre, abraçar as árvores, afagar os animais e atravessar ribeiros de água brilhante.
O som daquela música que não é datada faz-nos esquecer o afã das cidades, a exaustão do trabalho, o corre-corre dos transportes, a comida enfardada à força, o tempo que se esfuma, a angústia dos atrasos, as contas a pagar, o passar rápido da noite ao dia, as companhias desconhecidas cruzando os nossos dias de angustiadas olheiras numa luta diária. Essa música que formiga nos ouvidos e vai em crescendo até à corrente sanguínea, enchendo-nos por inteiro, como se não houvesse amanhã.
Largado de costas sobre a cama, olho o tecto, grito bem alto: “Ide todos para o raio que vos parta, hoje este é o meu plano, esquecer-me de que há um mundo além da música.” O aparelho de leitura irá aquecer, o amplificador quase irá derreter, as colunas vibrarão até ficarem flácidas como pele envelhecida, tantas as rotações de sons e vozes. Certamente acabarei o dia com o corpo esparramado no chão da sala, olhando os meus amigos que, na estante, carregados de letras, frases e histórias, alguns já perderam a minha curiosidade e prazer de os ler, e que, comumente, me sustentam horas de silêncio. Hoje é dia de música, não podem ficar ciumentos, cada um tem o seu lugar e circunstâncias.

dc

 



AI Dance Video - Feel It In My Bones Kelly Boesch AI Art
https://youtu.be/0_wiI5o2BLY?si=EXFAOPVY4YK5TpAA  

sábado, 17 de janeiro de 2026

Na estação


   

O tempo decorria e continuava esperando a sua chegada. Ela pensa que chegará com pezinhos de lã, suavemente, com as falas da sabedoria e do prazer, que colocam borboletas no estômago, fazem o sangue fluir rápido nas veias e trazendo consigo o brilho aos olhos, brilho que adentra em raros momentos, nos quais a felicidade bate à porta. Antecipadamente, alinhavou circunstâncias, aplanou o terreno e, acima de tudo, procurou aprimorar o melhor de si. Filtrou todos os casos e acasos, procurou melhorar a forma de dizer, colocou calor, emoção e verdade nas palavras. Por precaução, esmerou o vestir, arranjou o cabelo e perfumou-se de paz, e ficou levitando nesse lugar da vida em que a esperança nos coloca. Sem temer qualquer barreira física limitativa, acreditando nas emoções, inteligência e diversidade com que chegará até ele. Há muito que acreditava na oportunidade, somente teria de manejar o momento com sabedoria, deixando as emoções e a intuição libertarem-se para que se consumasse. 

dc

domingo, 11 de janeiro de 2026

Folhas de outono


Sinto prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente, mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las, seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem, levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.

dc



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

E pronto, está dito

 

Encantado com esse teu avatar, que se atravessa no meu caminho e na mesma aventura, dentro destas páginas, feitas de pontos binários, onde somos somente uma ideia, um rascunho da realidade. Somos a vulgaridade que se faz sentir, entre "likes" e "emojis", onde os cheiros são ausência e as ideias são a multiplicação de partilhas, com textos e imagens, cujos volumes se perdem achatados pela bidimensionalidade. Deformado olhar, que se dilui na imensidão de solicitações e sugestões, que surgem em catadupa e nos colonizam, nos tornam indiferentes, com bonomia plástica perante o caos e a violência. Somos a notícia, da não notícia. Somos alimento de publicidade enganosa: “venha já chatear connosco”, como se não tivesse melhor na cabeça, do que vir para aqui “chatear”, nas redes sociais. No entanto, o teu avatar diverte-me porque não me ilude, alimenta a curiosidade, ao mesmo tempo que se descredibiliza, quanto à responsabilidade do que diz e apresenta. Torna-se assim divertido como jogo de paciência, onde se procura, encontrar debaixo de uma pele possível, algo mais do que aparentemente quer dizer. Assim, se usa este espaço como lugar de partilha, de distração espiritual e humorística, página de comunicação de pensamentos e preocupações que o algoritmo tenta anular. Persisto na ideia e acredito que de onde em onde, se pode furar o bloqueio dos mandantes e possamos ser escutados, lidos apercebidos, avaliados, julgados, positiva ou negativamente, pelos viajantes que, como eu, navegam nesta comunicação fria. Assim, assumo que o meu passeio, pelas páginas desta rede como adjectivo social não é em vão. Tento, presumo, que com isso motive muitos mais a não adormecerem na narrativa de quem manda e acreditem na sua capacidade e intuição para encararem as melhores opções perante a sociedade. É bom ver caras bonitas, físicos bem proporcionados, mas não adianta muito se não tiverem atrelados, outros conhecimentos, que sirvam como referência, ao que tipo de amizade que poderá ser vivida, mantida, acalentada, conjugando diferentes modos de pensar num caminho de diversidade e aprendizagem.

 

dc