terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Hoje é dia de música


     

Quero sentir a alegria da música, que vai além da realização física. Sentir que me mexe por dentro, que me traz a vontade de ser, que me arrasta para fora da cama de pijama vestido, agitando o corpo de forma inconsciente, e me leva a saltar por cima dos sofás seguindo o ritmo sonoro, até à cozinha para um café matinal, e depois...depois ficar sentado a olhar a não existência. Ouvir, sem saber como o encanto e prazer da variação das notas dos instrumentos nos aquece por dentro, numa felicidade que nos atravessa o corpo de energia, pondo um sorriso e a alegria de dançar na casa vazia. Num sonho de pular ao ar livre, abraçar as árvores, afagar os animais e atravessar ribeiros de água brilhante.
O som daquela música que não é datada faz-nos esquecer o afã das cidades, a exaustão do trabalho, o corre-corre dos transportes, a comida enfardada à força, o tempo que se esfuma, a angústia dos atrasos, as contas a pagar, o passar rápido da noite ao dia, as companhias desconhecidas cruzando os nossos dias de angustiadas olheiras numa luta diária. Essa música que formiga nos ouvidos e vai em crescendo até à corrente sanguínea, enchendo-nos por inteiro, como se não houvesse amanhã.
Largado de costas sobre a cama, olho o tecto, grito bem alto: “Ide todos para o raio que vos parta, hoje este é o meu plano, esquecer-me de que há um mundo além da música.” O aparelho de leitura irá aquecer, o amplificador quase irá derreter, as colunas vibrarão até ficarem flácidas como pele envelhecida, tantas as rotações de sons e vozes. Certamente acabarei o dia com o corpo esparramado no chão da sala, olhando os meus amigos que, na estante, carregados de letras, frases e histórias, alguns já perderam a minha curiosidade e prazer de os ler, e que, comumente, me sustentam horas de silêncio. Hoje é dia de música, não podem ficar ciumentos, cada um tem o seu lugar e circunstâncias.

dc

 



AI Dance Video - Feel It In My Bones Kelly Boesch AI Art
https://youtu.be/0_wiI5o2BLY?si=EXFAOPVY4YK5TpAA  

sábado, 17 de janeiro de 2026

Na estação


   

O tempo decorria e continuava esperando a sua chegada. Ela pensa que chegará com pezinhos de lã, suavemente, com as falas da sabedoria e do prazer, que colocam borboletas no estômago, fazem o sangue fluir rápido nas veias e trazendo consigo o brilho aos olhos, brilho que adentra em raros momentos, nos quais a felicidade bate à porta. Antecipadamente, alinhavou circunstâncias, aplanou o terreno e, acima de tudo, procurou aprimorar o melhor de si. Filtrou todos os casos e acasos, procurou melhorar a forma de dizer, colocou calor, emoção e verdade nas palavras. Por precaução, esmerou o vestir, arranjou o cabelo e perfumou-se de paz, e ficou levitando nesse lugar da vida em que a esperança nos coloca. Sem temer qualquer barreira física limitativa, acreditando nas emoções, inteligência e diversidade com que chegará até ele. Há muito que acreditava na oportunidade, somente teria de manejar o momento com sabedoria, deixando as emoções e a intuição libertarem-se para que se consumasse. 

dc

domingo, 11 de janeiro de 2026

Folhas de outono


Sinto prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente, mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las, seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem, levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.

dc



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

E pronto, está dito

 

Encantado com esse teu avatar, que se atravessa no meu caminho e na mesma aventura, dentro destas páginas, feitas de pontos binários, onde somos somente uma ideia, um rascunho da realidade. Somos a vulgaridade que se faz sentir, entre "likes" e "emojis", onde os cheiros são ausência e as ideias são a multiplicação de partilhas, com textos e imagens, cujos volumes se perdem achatados pela bidimensionalidade. Deformado olhar, que se dilui na imensidão de solicitações e sugestões, que surgem em catadupa e nos colonizam, nos tornam indiferentes, com bonomia plástica perante o caos e a violência. Somos a notícia, da não notícia. Somos alimento de publicidade enganosa: “venha já chatear connosco”, como se não tivesse melhor na cabeça, do que vir para aqui “chatear”, nas redes sociais. No entanto, o teu avatar diverte-me porque não me ilude, alimenta a curiosidade, ao mesmo tempo que se descredibiliza, quanto à responsabilidade do que diz e apresenta. Torna-se assim divertido como jogo de paciência, onde se procura, encontrar debaixo de uma pele possível, algo mais do que aparentemente quer dizer. Assim, se usa este espaço como lugar de partilha, de distração espiritual e humorística, página de comunicação de pensamentos e preocupações que o algoritmo tenta anular. Persisto na ideia e acredito que de onde em onde, se pode furar o bloqueio dos mandantes e possamos ser escutados, lidos apercebidos, avaliados, julgados, positiva ou negativamente, pelos viajantes que, como eu, navegam nesta comunicação fria. Assim, assumo que o meu passeio, pelas páginas desta rede como adjectivo social não é em vão. Tento, presumo, que com isso motive muitos mais a não adormecerem na narrativa de quem manda e acreditem na sua capacidade e intuição para encararem as melhores opções perante a sociedade. É bom ver caras bonitas, físicos bem proporcionados, mas não adianta muito se não tiverem atrelados, outros conhecimentos, que sirvam como referência, ao que tipo de amizade que poderá ser vivida, mantida, acalentada, conjugando diferentes modos de pensar num caminho de diversidade e aprendizagem.

 

dc

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Cravo foste na nossa vida


Naquele dia 27 de dezembro, em que o teu choro recém-nascido, se tornou presença nas nossas vidas, assumimos a responsabilidade que é formar um ser humano. Não sei ainda, passados estes anos todos se fizemos o nosso papel como deve ser, mas de verdade, nos esforçamos para que tal acontecesse. Tu que foste a revolução na vida de um casal jovem, vivendo uma revolução de cravos na mão. Cravo foste na nossa vida e até hoje perfumas e nos dás força para viver.
Actualmente são maiores os desafios e o amadurecimento a que somos forçados, o coração endurece e com isso as formas de nos expressarmos. A saúde, as dificuldades económicas, e a sociedade no seu todo se alterou, infelizmente não para melhor, mas a escola da revolução do passado e o crescer, na vida que tens vivido, deram-te as defesas, que são a base da tua tenacidade e capacidade para superar os desafios que se te deparam.

É difícil escrever sobre a importância da tua presença, na minha vida. Hoje não és somente filha, esposa, mãe, és também alguém responsável que vela por outros, que também são pais e filhos de alguém. Ao aperceber-me disso, reparo que afinal já dobraste a da data da revolução dos cravos e tudo o que isso significa.

Afinal, as palavras navegam nas frases deste texto, são só um pretexto para te dizer, que por vezes, por estupidez, ou comodismo, não nos expressamos devidamente. O amor é uma escolha, ela se mantém nesta responsabilidade de ser pai. Sabes que contas comigo, para te apoiar a superar, os momentos fáceis ou difíceis, sem deixar de acreditar que és forte o suficiente para os enfrentar, mas que o abraço de um pai sempre é um conforto extra, nas nossas vidas.

Beijinhos um XI coração do tamanho do mundo e até mais logo.


DC 

28DEZ25

PS. um dia depois, porque um crash me surpreendeu. Hoje não falhou

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Só, gosto de ti

 

As rugas marcam-me o rosto, os cabelos clareiam, o tempo passa de modo e inevitável, no entanto, a vontade de te descobrir e saber porque me fazes querer-te, é bem maior, que o desejo de perdurar vivendo por aqui, sem poder dizer-te, gosto de ti.

dc

sábado, 6 de dezembro de 2025

Sabendo o impossível


Sabendo o impossível, mais difícil é poder revelar, o que dentro se desfaz todos os dias. Gostaria que fossemos mais do que um olá. Que nos pudéssemos ver e conversar, que não estivéssemos tão longe um do outro, não pela distância, mas pelo tempo que cada um tem para usar aproveitando para se abrir ao conhecimento. Não é preocupação, se a tua atenção se prende na minha figura, ou forma de estar, porque amar pode existir mesmo, que só de um lado, no segredo daquilo que no outro motiva. Amar, pode ser também a capacidade, de deixar que o outro possa ser feliz com as opções que faz. Diariamente confronto-me com as tuas frases, que pretendem ser mensagem, mas são demasiado abrangentes, ou ambíguas, para que entenda o teu querer e quais os objectivos desse fraseado. Por vezes sorris e respondes, outras vezes, ficas longe como se não existisse quem te escuta, ou lê. Tento entender nesta modernidade, mais propriamente estas tecnologias de comunicação, em que o importante é nos mostrarmos como se fossemos pessoas felizes. Na verdade, são infindas as situações em que a fachada, é só a cara da casa reconstruída por dentro, ou que esconde as ruínas do coração dilacerado por emoções várias.

 

dc