terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Devaneio (ou desvario)

Ela continua a perturbar-lhe os sentidos, tira-lhe os pés do chão quando a olha para além das lentes semiescuras dos óculos. A emoção chega, faz-se sentir para além do físico, algo intemporal, inexplicável, que cala dentro e traz calafrios, um desejo de estar perto e de dar aquele abraço forte até se tornar afago. Ter as suas mãos dentro das dele, vibrarem na mesma energia, de tal modo siameses que não se desligam. Insanamente, invade o seu sossego. Abraça-o com o seu olhar, provoca-lhe a necessidade de a beber, torna-se eco das suas emoções. Ela é uma proposta que liberta um sentir sem limite. Insuficientes são as palavras para dizer em frases coerentes o que está a acontecer. Deixou-o sem projecto, sem saber que caminho traçar, vulgarizou toda a sua arquitectura de pensamento. Como a água corre da fonte, ela corre dentro dele, espalhando-se por todo o seu ser. Ela é o beijo que se deseja, o amor que se quer deitado no nosso regaço. Ela é a fala de mãos que se imagina a acariciar o seu rosto, ela é a ternura que se ambiciona no aconchego, é um amor que se guarda sem segredo, o fruto e mosto de bebida tão perfumada. Na verdade, um sonho que demora a encontrar a realidade.

dc

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Caminhando à chuva

 

Gostava de saber escrever como um poeta e dizer as palavras certas, chegando aos ouvidos de quem queremos que escute. O cérebro, de modo intenso, trabalha. Pensamentos cruzados com o quotidiano das coisas baralham os raciocínios, fluindo tudo sem filtros. Confundem-se sentimentos com comportamentos, modos de estar com emoções, a beleza observada com os olhos do apego e resíduos do passado que devem ficar nas profundezas do inferno, a confundir o que na prática queremos tão limpo como a brancura da pomba da paz.
A chuva cai, traz com ela o frio, molha as roupas, o corpo gela por dentro. Acorda-o para a realidade. O sorriso inconsciente que bordava o rosto esmorece, os cantos da boca descaem e o frio traz gotas de sal à superfície dos olhos. É possível que, se fosse primavera, tudo fosse menos pesado e mais fácil encarar o futuro de forma positiva.
Ninguém tem culpa das intempéries que, dentro ou fora de nós, se desenrolam. Somos fruto das nossas vivências, da nossa cultura e educação, e das circunstâncias que nos foram surgindo no caminho. Tantas vezes pensa ter nascido fora da época. Não soube viver o que tinha quando por si passou a vida; hoje não encontra palavras, nem tem o tempo para que elas anulem a diferença que conta e que trava o seu dizer.  
Pensa ambiguidades, fica preso no acaso para que ele faça por si o que teme fazer e que, pelo menos, seria a resposta ao que sente dentro de si. Ser claro é ter a capacidade para enfrentar a negativa ou a positiva, com a força que a experiência deveria ter forjado ao longo do tempo.


dc

 

 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O que fazer?

 


Fui envolvido por silêncios, nem sempre únicos, as falas não ocorrem, todos temos necessidade de meditar. As circunstâncias do ambiente que nos rodeia envolvem-nos de questionamentos, perante a violência física e mental que ocorre na sociedade, que, envolvida por falsas premissas, leva os incautos a acreditar em frases corrompidas de lógica e afastadas da realidade. Carne para canhão, na gíria comum, somos os últimos a apercebermo-nos de que fomos enganados pelos sorrisos, as palavras bonitas, as promessas irrealizáveis. E seguimos percorrendo os mesmos caminhos, com os mesmos defeitos, porque, intoxicados quanto baste por uma comunicação fácil e programada, vamos direitos ao abismo que nos propõem. Acusam-me de pessimismo, de encarar o mundo caótico sem esperança, mas na verdade penso que mais importante do que perder a esperança é saber até que ponto consigo ajudar a despertar quem adormece em crenças de duvidosa origem, ou naqueles que os dirigem usando a frase comum “é para o vosso bem”, como se eles alguma vez tivessem sido salvadores de algo. O povo acredita nos corruptos que dizem combater a corrupção, porque, castigados pela vida, fazem profissão de fé perante o demagogo e chamado, de diabo em pessoa, que só falta ir às lágrimas para os encadear com as luzes das promessas.
Penso em quantas vezes tive de engolir sapos para que o caminho das pessoas não acelere em direcção ao abismo. Fui cúmplice de muitas desses questionamentos e decisões, do mal menor, mas será que conseguimos, em algum momento, ser capazes de chegar até eles acordando-os, ou facilitamos-lhes a vida, não os deixando escorregar na casca de banana onde caíram? Se fosse um filho, diríamos que serviria de aprendizagem, na vida em sociedade diz-se: mal menor.
 Cansei. O tempo foge-me do controlo e o fim está cada vez mais próximo, e fica-me a frase famosa: o que fazer? Será que devo manter-me no mesmo registo por um tempo ou deixar que tudo aconteça como aprendizagem?


dc

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

É ridiculo emudecer a alma

Amar-te não implica que me ames, que tenhas de saber ou que tenhas consciência disso. Amar é uma opção minha, da qual não prescindo. Aconteceu de forma inesperada, inconsciente. Seduzido lentamente por frases e sorrisos que traziam sonhos e vontades. Na realidade, queria sentir a sua alegria e felicidade, sabendo-a viva. Ao ama-la, senti-mo realizado. Pior será dos que nunca amaram, que não sabem o significado desse sentir agridoce que nos faz correr todos os dias para algum lugar, tantas vezes indeterminado.
A idade estabelece entre nós uma diferença razoável, daí entender a ausência de alegria, motivação e vontade para fazer parte da minha vida. Não escolhemos quem é o objecto do nosso amor, acontece, sente-se e pronto. Perdi-me no que inventei de ti, e alimentei essa ideia. Quanto a mim, não me importo, como dizia Vinícius, “que seja bom enquanto dure”. No entanto, amá-la é um sentimento incondicional que me permite aceitar os seus desejos e vontades, permanecendo longe dela. Acima de tudo, a sua felicidade é alegria suficiente para entender as suas escolhas. É amá-la sem dor, não é assim que o amor deve ser?

dc