Porque
leio as paredes, onde com descaro escrevem pensamentos tímidos e se declaram os
seus amores, entre a escrita que fala e cores que expressam as emoções, fui descobrindo que usam aquela tela dura,
tantas vezes rasgada da sua lisura, ou tão perfeita, tão acabada que ainda se
sente o cheiro da tinta, para deixar a sua impressão digital carregada de
criatividade e expressividade. É bem possível que anseiem que os leiam, que os
entendam e que até acabem por reconhecer a sua linguagem e diferença. Em
algumas situações vi-os a criar de forma espontânea, agitando a lata de tinta
spray na mão, acompanhando o corpo que se agita a cada movimento. Como um Pollock
preenchendo as suas telas, vão derramando tinta. Há quem lhes chame grafiteiros,
e são criticados porque “sujam” as paredes, mas eles sentem-se artistas de
intervenção, produzindo mensagens que os aproximam da gente comum. Nem todos
reduzem as suas pinturas a “assinaturas”, uma espécie de marca do autor,
criando um alfabeto morfológico próprio. Na sua grande maioria vão mais longe
do que isso, produzem painéis ricos de mensagens de intervenção política, social,
publicitária de causas, cultural e estética. Não sujam as paredes, falam
através delas, num suporte de mensagem de grande acessibilidade que os coloca
de imediato perante o público e o seu julgamento; muitas vezes contribuíram
para alertar as populações para diferentes fenómenos sociais, como uma acção de
cidadania, mobilizando-as, ou para registar algum facto merecedor. Enquanto
observador, não raras vezes, deixo-me levar pela sua cor, pela leitura do que
me querem comunicar, e admiro-os pela sua coragem de furar a normalização num
grito silencioso, em que arriscam a sua liberdade.
Fascina-me o seu trabalho e, qual parasita, aproveito para captar a sua
totalidade, ou “agarrar pedaços” e registar. Gosto dos efeitos produzidos nas superfícies
escolhidas como suporte do graffiti. Aquela parede granitada que produz textura
e a lisa, de expressão quase fotográfica. Muitas são as diferenças, que se manifestam
através da própria luz e sombra existentes no local e nas diferentes horas do
dia, afectando a tonalidade das cores afectando a mensagem. É um trabalho de
paciência, menos espontâneo, com longas horas de espera para encontrar o
momento certo de registo. A imagem captada é produzida num outro suporte, com
diferentes dimensões, e pode representar a totalidade do original captado ou
parte do mesmo. O resultado final pode ser uma nova comunicação temática com
uma nova proposta estética ou uma outra forma de leitura, diferente do original,
mas reforçando o que pretende comunicar.
dc