terça-feira, 24 de março de 2026

Porque leio as paredes


Porque leio as paredes, onde com descaro escrevem pensamentos tímidos e se declaram os seus amores, entre a escrita que fala e cores que expressam as emoções,  fui descobrindo que usam aquela tela dura, tantas vezes rasgada da sua lisura, ou tão perfeita, tão acabada que ainda se sente o cheiro da tinta, para deixar a sua impressão digital carregada de criatividade e expressividade. É bem possível que anseiem que os leiam, que os entendam e que até acabem por reconhecer a sua linguagem e diferença. Em algumas situações vi-os a criar de forma espontânea, agitando a lata de tinta spray na mão, acompanhando o corpo que se agita a cada movimento. Como um Pollock preenchendo as suas telas, vão derramando tinta. Há quem lhes chame grafiteiros, e são criticados porque “sujam” as paredes, mas eles sentem-se artistas de intervenção, produzindo mensagens que os aproximam da gente comum. Nem todos reduzem as suas pinturas a “assinaturas”, uma espécie de marca do autor, criando um alfabeto morfológico próprio. Na sua grande maioria vão mais longe do que isso, produzem painéis ricos de mensagens de intervenção política, social, publicitária de causas, cultural e estética. Não sujam as paredes, falam através delas, num suporte de mensagem de grande acessibilidade que os coloca de imediato perante o público e o seu julgamento; muitas vezes contribuíram para alertar as populações para diferentes fenómenos sociais, como uma acção de cidadania, mobilizando-as, ou para registar algum facto merecedor. Enquanto observador, não raras vezes, deixo-me levar pela sua cor, pela leitura do que me querem comunicar, e admiro-os pela sua coragem de furar a normalização num grito silencioso, em que arriscam a sua liberdade.
Fascina-me o seu trabalho e, qual parasita, aproveito para captar a sua totalidade, ou “agarrar pedaços” e registar. Gosto dos efeitos produzidos nas superfícies escolhidas como suporte do graffiti. Aquela parede granitada que produz textura e a lisa, de expressão quase fotográfica. Muitas são as diferenças, que se manifestam através da própria luz e sombra existentes no local e nas diferentes horas do dia, afectando a tonalidade das cores afectando a mensagem. É um trabalho de paciência, menos espontâneo, com longas horas de espera para encontrar o momento certo de registo. A imagem captada é produzida num outro suporte, com diferentes dimensões, e pode representar a totalidade do original captado ou parte do mesmo. O resultado final pode ser uma nova comunicação temática com uma nova proposta estética ou uma outra forma de leitura, diferente do original, mas reforçando o que pretende comunicar.

 

dc


sábado, 21 de março de 2026

Silêncio ou avatar?

    

Um dia te aperceberás das razões do silêncio. Nesse momento entenderás as não respostas ou as interrogações existentes no que lês, naquilo que comunico e na sua abstração. Verás que a idade importa, que a beleza não me favoreceu, que o meu corpo não foi desenhado dentro das expectativas do comum das pessoas que nos rodeiam e que nem sempre reparam se existem outros valores ou qualidades. Entenderás como o diálogo é substituído por monólogos intermináveis, que ocupam uma grande parte da actividade cerebral, e como eles se desenvolvem em caminhadas intermináveis, ocupando a energia corporal e o desenho de discursos que nunca serão expressos. É uma forma de amor encoberto, em que não se perde a cara e não se pode ser recusado. Ele é a ausência do objecto da sua existência, é o sustentáculo para que a esperança não se perca. Raras vezes, mas as suficientes para pelo menos sugerir que, embora o silêncio seja real, não significa que não sejas motivo e a maior carta do baralho das minhas conjecturas. Podia desenhar um avatar que simulasse o que queria ser perante os teus olhos, que fosse a resposta ideal para te motivar interesse e não passares ao lado daquilo que sou. No fim, todos nós temos silêncios inexplicáveis, nem sempre na altura certa ou por razões visíveis, mas sempre razão duma pausa para tentar descobrir o rumo a tomar.

Ler é um caminho para sonhar e descobrir outros mundos e pensamentos ou o mar na sua imensidão, tão largo, como longínquo o seu horizonte; ele permite-nos navegar tão longe, sem que barco exista que o possa superar. Deixando-me enlevar por ele, vou ao fundo do pensamento, das emoções, como um qualquer peixe nas profundezas do oceano. Nesse modo de estar, fico com a certeza de que um dia chegaremos juntos ao fim deste silêncio.

 

dc

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Além do visível

Majestosa se abre para receber o sol e a brisa da tarde, à semelhança do
sorriso que vislumbro no teu rosto quando chegas acompanhada de palavras que confortam, vestida de viajante despreocupada. Observo os diferentes ângulos, tento vislumbrar o que mais posso saber da sua natureza, como chegou, de onde partiu, o que alimentou o seu crescimento e as razões da sua cor e Vida. Tento captar a sua génese, mesmo sem lhe sentir o cheiro, nem saber a importância do lugar ou a terra de onde se alimentou e cresceu. É possível que seja essa a força maior que me mobiliza os pensamentos, na procura e estudo da forma e feitio, que faz com que sejamos o que somos e como somos. Na realidade até que ponto a natureza, ou a genética, nos molda para aparentarmos essa forma que nos faz seres vivos e quanto as circunstâncias influem nesse percurso.
É difícil, quando te plantas aos meus olhos, não ficar perplexo com a beleza e o quanto o Universo é perfeito e calculista quando nos apresenta espécimes raros e capazes de nos motivarem a ir mais além do comum dos dias.

 

dc

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

O tempo que nos tira tempo

 

Ficou absorto, de olhos presos no que via. Sentado, imóvel, sem alinhar dois raciocínios. Afinal, de facto, os olhos falavam muito mais do que imaginaria. Agora sentia por inteiro, já não só o corpo, mas tudo o mais que estava para além do que via. Olhava-a e via uma imensidão de vida. O brilho do sorriso, o corpo falando pela leveza das formas, os dedos aflorando a entrada dos bolsos das calças, assumindo um desenho tímido de quem espera o primeiro gesto para libertar a ternura disponível e se dar ao abraço a quem é objecto do seu desejo e amor. Acontecera o pior: as ondas do universo tinham-lhe negado a oportunidade de a encontrar na mesma fase do tempo. Lembrou-se do filme a Casa do Lago e pensou como seria bom ter uma caixa do correio onde pudesse deixar-lhe os seus pensamentos e desejos e, assim, contrariar o relógio do tempo, acertando os ponteiros, para se descobrirem. 

dc

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Devaneio (ou desvario)

Ela continua a perturbar-lhe os sentidos, tira-lhe os pés do chão quando a olha para além das lentes semiescuras dos óculos. A emoção chega, faz-se sentir para além do físico, algo intemporal, inexplicável, que cala dentro e traz calafrios, um desejo de estar perto e de dar aquele abraço forte até se tornar afago. Ter as suas mãos dentro das dele, vibrarem na mesma energia, de tal modo siameses que não se desligam. Insanamente, invade o seu sossego. Abraça-o com o seu olhar, provoca-lhe a necessidade de a beber, torna-se eco das suas emoções. Ela é uma proposta que liberta um sentir sem limite. Insuficientes são as palavras para dizer em frases coerentes o que está a acontecer. Deixou-o sem projecto, sem saber que caminho traçar, vulgarizou toda a sua arquitectura de pensamento. Como a água corre da fonte, ela corre dentro dele, espalhando-se por todo o seu ser. Ela é o beijo que se deseja, o amor que se quer deitado no nosso regaço. Ela é a fala de mãos que se imagina a acariciar o seu rosto, ela é a ternura que se ambiciona no aconchego, é um amor que se guarda sem segredo, o fruto e mosto de bebida tão perfumada. Na verdade, um sonho que demora a encontrar a realidade.

dc

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Caminhando à chuva

 

Gostava de saber escrever como um poeta e dizer as palavras certas, chegando aos ouvidos de quem queremos que escute. O cérebro, de modo intenso, trabalha. Pensamentos cruzados com o quotidiano das coisas baralham os raciocínios, fluindo tudo sem filtros. Confundem-se sentimentos com comportamentos, modos de estar com emoções, a beleza observada com os olhos do apego e resíduos do passado que devem ficar nas profundezas do inferno, a confundir o que na prática queremos tão limpo como a brancura da pomba da paz.
A chuva cai, traz com ela o frio, molha as roupas, o corpo gela por dentro. Acorda-o para a realidade. O sorriso inconsciente que bordava o rosto esmorece, os cantos da boca descaem e o frio traz gotas de sal à superfície dos olhos. É possível que, se fosse primavera, tudo fosse menos pesado e mais fácil encarar o futuro de forma positiva.
Ninguém tem culpa das intempéries que, dentro ou fora de nós, se desenrolam. Somos fruto das nossas vivências, da nossa cultura e educação, e das circunstâncias que nos foram surgindo no caminho. Tantas vezes pensa ter nascido fora da época. Não soube viver o que tinha quando por si passou a vida; hoje não encontra palavras, nem tem o tempo para que elas anulem a diferença que conta e que trava o seu dizer.  
Pensa ambiguidades, fica preso no acaso para que ele faça por si o que teme fazer e que, pelo menos, seria a resposta ao que sente dentro de si. Ser claro é ter a capacidade para enfrentar a negativa ou a positiva, com a força que a experiência deveria ter forjado ao longo do tempo.


dc

 

 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O que fazer?

 


Fui envolvido por silêncios, nem sempre únicos, as falas não ocorrem, todos temos necessidade de meditar. As circunstâncias do ambiente que nos rodeia envolvem-nos de questionamentos, perante a violência física e mental que ocorre na sociedade, que, envolvida por falsas premissas, leva os incautos a acreditar em frases corrompidas de lógica e afastadas da realidade. Carne para canhão, na gíria comum, somos os últimos a apercebermo-nos de que fomos enganados pelos sorrisos, as palavras bonitas, as promessas irrealizáveis. E seguimos percorrendo os mesmos caminhos, com os mesmos defeitos, porque, intoxicados quanto baste por uma comunicação fácil e programada, vamos direitos ao abismo que nos propõem. Acusam-me de pessimismo, de encarar o mundo caótico sem esperança, mas na verdade penso que mais importante do que perder a esperança é saber até que ponto consigo ajudar a despertar quem adormece em crenças de duvidosa origem, ou naqueles que os dirigem usando a frase comum “é para o vosso bem”, como se eles alguma vez tivessem sido salvadores de algo. O povo acredita nos corruptos que dizem combater a corrupção, porque, castigados pela vida, fazem profissão de fé perante o demagogo e chamado, de diabo em pessoa, que só falta ir às lágrimas para os encadear com as luzes das promessas.
Penso em quantas vezes tive de engolir sapos para que o caminho das pessoas não acelere em direcção ao abismo. Fui cúmplice de muitas desses questionamentos e decisões, do mal menor, mas será que conseguimos, em algum momento, ser capazes de chegar até eles acordando-os, ou facilitamos-lhes a vida, não os deixando escorregar na casca de banana onde caíram? Se fosse um filho, diríamos que serviria de aprendizagem, na vida em sociedade diz-se: mal menor.
 Cansei. O tempo foge-me do controlo e o fim está cada vez mais próximo, e fica-me a frase famosa: o que fazer? Será que devo manter-me no mesmo registo por um tempo ou deixar que tudo aconteça como aprendizagem?


dc

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

É ridiculo emudecer a alma

Amar-te não implica que me ames, que tenhas de saber ou que tenhas consciência disso. Amar é uma opção minha, da qual não prescindo. Aconteceu de forma inesperada, inconsciente. Seduzido lentamente por frases e sorrisos que traziam sonhos e vontades. Na realidade, queria sentir a sua alegria e felicidade, sabendo-a viva. Ao ama-la, senti-mo realizado. Pior será dos que nunca amaram, que não sabem o significado desse sentir agridoce que nos faz correr todos os dias para algum lugar, tantas vezes indeterminado.
A idade estabelece entre nós uma diferença razoável, daí entender a ausência de alegria, motivação e vontade para fazer parte da minha vida. Não escolhemos quem é o objecto do nosso amor, acontece, sente-se e pronto. Perdi-me no que inventei de ti, e alimentei essa ideia. Quanto a mim, não me importo, como dizia Vinícius, “que seja bom enquanto dure”. No entanto, amá-la é um sentimento incondicional que me permite aceitar os seus desejos e vontades, permanecendo longe dela. Acima de tudo, a sua felicidade é alegria suficiente para entender as suas escolhas. É amá-la sem dor, não é assim que o amor deve ser?

dc

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

INcertezas

 

 

Não tenho a certeza se tem a perceção do que acontece e do que ele sente de modo inconsciente. Ele próprio não sabe como e porquê. Uma coisa, na verdade, acontece: fica à espera que ela surja, trazendo a sua imagem à superfície do dia, como um despertador de emoções. Quando se apercebe da idade que os separa, teme não ter oportunidade para colocar o que sente e expressar-se com palavras, fica absorvido na espera, como alguém tímido. Talvez se possa dizer, deste remoinho de emoções que surgem do nada, agitando todo o seu ser, que se comporta como aquele sujeito que, em noite de baile, fica preso no lugar, sem se dirigir à sua eleita com aquela frase: A menina dança. Tudo são obstáculos. Por vezes, o que vemos e sentimos, adentrando em nós, é alheio ao sujeito desse sentimento, nem é claro que seja o causador ou, até, tenha tido a percepção do efeito que causa.

Sente-se perdido na meditação dos dias, incapaz de decidir, de tomar a iniciativa, de correr atrás do seu sorriso, da voz dela, inteira. A única coisa em que pensa é no encanto que a imagem bidimensional, sem volume, o fascina, que o faz pensar num abraço, num corpo distante de que não lhe conhece a forma, o saber dos seus pensamentos, desejos e emoções que o formam. Nunca lhe ouviu a voz, ou sentiu o seu sorriso a nascer nos lábios. No entanto, imagina-a a pousar o seu rosto sobre o seu peito, ouvindo as batidas calmas do seu coração, do qual se assenhorou sem saber ou perceber. “Que seja bom enquanto dure” é a frase que mantém como refrão, pensando que não importam idades ou tempo de estar como suplemento um do outro, e os dias voarão até que eu parta, como naturalmente deve acontecer, mais cedo que tarde. Será o seu egoísmo? Quem será capaz de avaliar a riqueza do vivido? Fica a dúvida, mas no seu coração já foi decidido, que dure os segundos, minutos, dias ou semanas, mas que seja eterno.


dc


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Hoje é dia de música


     

Quero sentir a alegria da música, que vai além da realização física. Sentir que me mexe por dentro, que me traz a vontade de ser, que me arrasta para fora da cama de pijama vestido, agitando o corpo de forma inconsciente, e me leva a saltar por cima dos sofás seguindo o ritmo sonoro, até à cozinha para um café matinal, e depois...depois ficar sentado a olhar a não existência. Ouvir, sem saber como o encanto e prazer da variação das notas dos instrumentos nos aquece por dentro, numa felicidade que nos atravessa o corpo de energia, pondo um sorriso e a alegria de dançar na casa vazia. Num sonho de pular ao ar livre, abraçar as árvores, afagar os animais e atravessar ribeiros de água brilhante.
O som daquela música que não é datada faz-nos esquecer o afã das cidades, a exaustão do trabalho, o corre-corre dos transportes, a comida enfardada à força, o tempo que se esfuma, a angústia dos atrasos, as contas a pagar, o passar rápido da noite ao dia, as companhias desconhecidas cruzando os nossos dias de angustiadas olheiras numa luta diária. Essa música que formiga nos ouvidos e vai em crescendo até à corrente sanguínea, enchendo-nos por inteiro, como se não houvesse amanhã.
Largado de costas sobre a cama, olho o tecto, grito bem alto: “Ide todos para o raio que vos parta, hoje este é o meu plano, esquecer-me de que há um mundo além da música.” O aparelho de leitura irá aquecer, o amplificador quase irá derreter, as colunas vibrarão até ficarem flácidas como pele envelhecida, tantas as rotações de sons e vozes. Certamente acabarei o dia com o corpo esparramado no chão da sala, olhando os meus amigos que, na estante, carregados de letras, frases e histórias, alguns já perderam a minha curiosidade e prazer de os ler, e que, comumente, me sustentam horas de silêncio. Hoje é dia de música, não podem ficar ciumentos, cada um tem o seu lugar e circunstâncias.

dc

 



AI Dance Video - Feel It In My Bones Kelly Boesch AI Art
https://youtu.be/0_wiI5o2BLY?si=EXFAOPVY4YK5TpAA  

sábado, 17 de janeiro de 2026

Na estação


   

O tempo decorria e continuava esperando a sua chegada. Ela pensa que chegará com pezinhos de lã, suavemente, com as falas da sabedoria e do prazer, que colocam borboletas no estômago, fazem o sangue fluir rápido nas veias e trazendo consigo o brilho aos olhos, brilho que adentra em raros momentos, nos quais a felicidade bate à porta. Antecipadamente, alinhavou circunstâncias, aplanou o terreno e, acima de tudo, procurou aprimorar o melhor de si. Filtrou todos os casos e acasos, procurou melhorar a forma de dizer, colocou calor, emoção e verdade nas palavras. Por precaução, esmerou o vestir, arranjou o cabelo e perfumou-se de paz, e ficou levitando nesse lugar da vida em que a esperança nos coloca. Sem temer qualquer barreira física limitativa, acreditando nas emoções, inteligência e diversidade com que chegará até ele. Há muito que acreditava na oportunidade, somente teria de manejar o momento com sabedoria, deixando as emoções e a intuição libertarem-se para que se consumasse. 

dc

domingo, 11 de janeiro de 2026

Folhas de outono


Sinto prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente, mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las, seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem, levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.

dc



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

E pronto, está dito

 

Encantado com esse teu avatar, que se atravessa no meu caminho e na mesma aventura, dentro destas páginas, feitas de pontos binários, onde somos somente uma ideia, um rascunho da realidade. Somos a vulgaridade que se faz sentir, entre "likes" e "emojis", onde os cheiros são ausência e as ideias são a multiplicação de partilhas, com textos e imagens, cujos volumes se perdem achatados pela bidimensionalidade. Deformado olhar, que se dilui na imensidão de solicitações e sugestões, que surgem em catadupa e nos colonizam, nos tornam indiferentes, com bonomia plástica perante o caos e a violência. Somos a notícia, da não notícia. Somos alimento de publicidade enganosa: “venha já chatear connosco”, como se não tivesse melhor na cabeça, do que vir para aqui “chatear”, nas redes sociais. No entanto, o teu avatar diverte-me porque não me ilude, alimenta a curiosidade, ao mesmo tempo que se descredibiliza, quanto à responsabilidade do que diz e apresenta. Torna-se assim divertido como jogo de paciência, onde se procura, encontrar debaixo de uma pele possível, algo mais do que aparentemente quer dizer. Assim, se usa este espaço como lugar de partilha, de distração espiritual e humorística, página de comunicação de pensamentos e preocupações que o algoritmo tenta anular. Persisto na ideia e acredito que de onde em onde, se pode furar o bloqueio dos mandantes e possamos ser escutados, lidos apercebidos, avaliados, julgados, positiva ou negativamente, pelos viajantes que, como eu, navegam nesta comunicação fria. Assim, assumo que o meu passeio, pelas páginas desta rede como adjectivo social não é em vão. Tento, presumo, que com isso motive muitos mais a não adormecerem na narrativa de quem manda e acreditem na sua capacidade e intuição para encararem as melhores opções perante a sociedade. É bom ver caras bonitas, físicos bem proporcionados, mas não adianta muito se não tiverem atrelados, outros conhecimentos, que sirvam como referência, ao que tipo de amizade que poderá ser vivida, mantida, acalentada, conjugando diferentes modos de pensar num caminho de diversidade e aprendizagem.

 

dc

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Cravo foste na nossa vida


Naquele dia 27 de dezembro, em que o teu choro recém-nascido, se tornou presença nas nossas vidas, assumimos a responsabilidade que é formar um ser humano. Não sei ainda, passados estes anos todos se fizemos o nosso papel como deve ser, mas de verdade, nos esforçamos para que tal acontecesse. Tu que foste a revolução na vida de um casal jovem, vivendo uma revolução de cravos na mão. Cravo foste na nossa vida e até hoje perfumas e nos dás força para viver.
Actualmente são maiores os desafios e o amadurecimento a que somos forçados, o coração endurece e com isso as formas de nos expressarmos. A saúde, as dificuldades económicas, e a sociedade no seu todo se alterou, infelizmente não para melhor, mas a escola da revolução do passado e o crescer, na vida que tens vivido, deram-te as defesas, que são a base da tua tenacidade e capacidade para superar os desafios que se te deparam.

É difícil escrever sobre a importância da tua presença, na minha vida. Hoje não és somente filha, esposa, mãe, és também alguém responsável que vela por outros, que também são pais e filhos de alguém. Ao aperceber-me disso, reparo que afinal já dobraste a da data da revolução dos cravos e tudo o que isso significa.

Afinal, as palavras navegam nas frases deste texto, são só um pretexto para te dizer, que por vezes, por estupidez, ou comodismo, não nos expressamos devidamente. O amor é uma escolha, ela se mantém nesta responsabilidade de ser pai. Sabes que contas comigo, para te apoiar a superar, os momentos fáceis ou difíceis, sem deixar de acreditar que és forte o suficiente para os enfrentar, mas que o abraço de um pai sempre é um conforto extra, nas nossas vidas.

Beijinhos um XI coração do tamanho do mundo e até mais logo.


DC 

28DEZ25

PS. um dia depois, porque um crash me surpreendeu. Hoje não falhou

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Só, gosto de ti

 

As rugas marcam-me o rosto, os cabelos clareiam, o tempo passa de modo e inevitável, no entanto, a vontade de te descobrir e saber porque me fazes querer-te, é bem maior, que o desejo de perdurar vivendo por aqui, sem poder dizer-te, gosto de ti.

dc

sábado, 6 de dezembro de 2025

Sabendo o impossível


Sabendo o impossível, mais difícil é poder revelar, o que dentro se desfaz todos os dias. Gostaria que fossemos mais do que um olá. Que nos pudéssemos ver e conversar, que não estivéssemos tão longe um do outro, não pela distância, mas pelo tempo que cada um tem para usar aproveitando para se abrir ao conhecimento. Não é preocupação, se a tua atenção se prende na minha figura, ou forma de estar, porque amar pode existir mesmo, que só de um lado, no segredo daquilo que no outro motiva. Amar, pode ser também a capacidade, de deixar que o outro possa ser feliz com as opções que faz. Diariamente confronto-me com as tuas frases, que pretendem ser mensagem, mas são demasiado abrangentes, ou ambíguas, para que entenda o teu querer e quais os objectivos desse fraseado. Por vezes sorris e respondes, outras vezes, ficas longe como se não existisse quem te escuta, ou lê. Tento entender nesta modernidade, mais propriamente estas tecnologias de comunicação, em que o importante é nos mostrarmos como se fossemos pessoas felizes. Na verdade, são infindas as situações em que a fachada, é só a cara da casa reconstruída por dentro, ou que esconde as ruínas do coração dilacerado por emoções várias.

 

dc

 

sábado, 29 de novembro de 2025

Nem sempre o humor é fácil

Nesse vazio de gargalhada plástica, de frases incoerentes, imagens disparatadas semelhando humanos, a música vai mediando, entre os pensamentos desconexos e a realidade que magoa e traça sulcos, nesses diferentes caminhos, onde o sangue corre nas veias e atinge o alvo. Raciocínio absurdo, porque não? A vida tem momentos tão absurdos, que nos faz ignorar perguntas, com medo da dureza das respostas. Nem sempre o humor é fácil, se fosse teria de vir acompanhado de cinismo, para poder dizer sem receio de magoar. O sorriso, ou a gargalhada esperta no comum, vem de ferir o outro, que não se apercebe da sua insuficiência e é motivo da piada fácil. Quase sempre esse humor fácil é fruto de um cinismo e ignorância. É uma história, fruto da escorregadela na casca de banana, ou da inocência de quem se revela perante o outro. A imagem, é o enquadramento de cena onde ele ganha os sorrisos alheios. Sim, aprecio muito mais o sorriso simples de quem nada teme, que não se gasta em gargalhadas de fácil cometimento. Sim, algo que sai de dentro, aquela a alegria que fluí do prazer de estar e viver o momento presente, mesmo que só, como aquela imagem brincalhona do gato, desfazendo o rolo de papel higiénico, ou espreitando com a curiosidade de quem se diverte, ou ainda da possível distração, de escovamos o cabelo com a escova de dentes, como espectadores do insólito.
Tudo, assim escrito, porque sendo sábado eu sorrio, agarrando a hipótese talvez ridícula de que um dia será possível, que o prazer do sorriso inocente, livre, sem constrangimentos, aconteça sem que não sejamos um avatar que quis esconder a realidade.

dc


domingo, 23 de novembro de 2025

Olho sem ver, leio sem ter letras


Sei que risco e desarrisco, correndo o risco de nunca acertar, mas que hei de eu fazer, se até tenho receio de começar. A página de papel, em branco, implica a escolha do que escrever, as letras a desenhar, a criatividade do gesto, o cheiro do papel e da tinta nas letras a escorregar. Por fim, palavras alinhadas, pensamentos desalinhados, como possibilidade. As palavras dizem, expressam(?) o que parece certo, e encontram-se alinhadas como se tudo convergisse, mas os pensamentos se contradizem, e nesse caminho do certo ou errado, tudo é desconcerto. Na verdade, penso que posso dizer-te o que penso, dizer-te, amo-te de modo intenso, com as palavras certas. Pode não ser ideia acertada, que perturbe o teu caminho, quando muito tens para andar. Eu, pelo contrário, caminho decrescendo, vou-me afundando diminuindo o tempo, para aqui restar. Nascemos distantes no tempo, em cidades equidistantes, no entanto, próximos no entendimento, ou se calhar nem isso, porque amar é um sentimento sem explicações datadas no tempo, é um lugar de dois, que é, ou será, bom enquanto durar.
Então em que ficamos, como dar o primeiro passo além da escrita. Não me quero calar. Não dizer, é ficar sem saber, se foi errado, ou não, se nem sequer começamos a dizer o que cada um pensa. Volto ao princípio, risco e desarrisco, esmago folhas de papel, escolho nova caneta, até penso usar um pincel, que em tempos usava para desenhar letra, apreciando as cores à mão na paleta, do mesmo modo, assim ia desdobrando, entre pensamento e objecto no decorrer da execução, fosse em tela ou cartão, esperando que a resposta fosse dada pelo coração. Fico por aqui, neste texto com este sarilho, que nem sei resolver, tanto o que me adentra consome. Olho sem ver, leio sem ter letras, e penso sem parar no que tenho que riscar e arriscar.

dc


domingo, 9 de novembro de 2025

Arrisquemos

 

Sim, as lágrimas correm-lhe dos olhos, mas é no interior do seu peito que elas nascem. É ali onde elas se laboram, trazendo mágoa e tristeza. O mundo se derrete na mão dos poderosos e a gente humilde, planta-lhes aceitação fazendo-os mais fortes, tal a aprendizagem que a ignorância lhes permite. Tornam-se apolíticos porque se julgam incapazes de saber dizer, de si. Aceitam fácil, a vozearia dos farsantes, engravatados, e deliciam-se com o seu falar bonito, mesmo usando palavras que mal conhecem, em promessas dum futuro que anseiam, mas dificilmente se cumprirá. Acreditam, porque é mais fácil fugir do confronto, com quem os esmaga e explora. Sentem-se ignorantes incapazes de discurso, por inconsciência do quanto seria suficiente dizer-lhes da fome que os corrói, das casas miseráveis onde vivem, do embrutecimento, da falta de formação e cultura a que são devotados, não aceitando o engano de que o mundo de hoje é outro, que temos de estar a par da modernidade, das tecnologias e têm de se adaptar, como se hoje a exploração dos seres humanos, não tivesse requintes, tão, ou mais graves do que no passado. Sim, ele tinha de ficar triste, por saber que muitos no seio do povo, ainda acreditam que pôr uma cruz num papel e colocá-lo numa urna é suficiente para mudar o mundo onde vivem. Desconhecem, ou tentam não pensar, que os que, inventaram o uso do papel e da urna, são os mesmos que os enterram, na miséria dos dias e que os convencem que não há alternativa, desmobilizando-os, da sua força e capacidade para mudar o mundo, nas lutas e na conquista da rua, como palco do seu descontentamento. Temem os vermelhos e apresentam-lhes os laranjas, mas malaguetas vermelhas e picantes, não enganam e dão melhor sabor aos comeres, no entanto, as laranjas na sua cor vistosa, nem sempre são doces. Somos o povo que tudo conquista na amarra, porque nada lhes é dado, mesmo o que é seu por direito. O povo tem de confiar, pois, até o girassol de cor amarela e brilhante contém no meio o preto, onde se alojam as sementes, que trazem o futuro. Arrisquemos, onde nunca o fizemos por medo, temos do nosso lado a razão, para enfrentarmos essa gente, que sempre fez do povo o seu “putedo”.

 

dc

domingo, 12 de outubro de 2025

Não sobrecarregues o teu silêncio...


Não sobrecarregues o teu silêncio, experiencia-o e apreende, ele existe na construção do que és. Tudo o que ele começa por aportar, no correr da sua existência, vai-se diluindo, torna-se meditativo, preenchido por ideias e imagens, que não param no tempo, mas vão evoluindo de um ponto a outro, trazendo novas energias e melhores perspectivas. Escolhemos o silêncio, como necessidade intrínseca do próprio sujeito, ou como resposta de circunstância. Pode ser um silêncio a sós, ou, acompanhado, e neste último caso, é importante que exista espaço e respeito mútuo, entre quem o pratica e com quem se partilha, mais do que silêncio.

dc