As rugas marcam-me o rosto, os cabelos
clareiam, o tempo passa de modo e inevitável, no entanto, a vontade de te
descobrir e saber porque me fazes querer-te, é bem maior, que o desejo de
perdurar vivendo por aqui, sem poder dizer-te, gosto de ti.
dc
As rugas marcam-me o rosto, os cabelos
clareiam, o tempo passa de modo e inevitável, no entanto, a vontade de te
descobrir e saber porque me fazes querer-te, é bem maior, que o desejo de
perdurar vivendo por aqui, sem poder dizer-te, gosto de ti.
dc
Sabendo o impossível, mais difícil é poder revelar, o que dentro se desfaz todos os dias. Gostaria que fossemos mais do que um olá. Que nos pudéssemos ver e conversar, que não estivéssemos tão longe um do outro, não pela distância, mas pelo tempo que cada um tem para usar aproveitando para se abrir ao conhecimento. Não é preocupação, se a tua atenção se prende na minha figura, ou forma de estar, porque amar pode existir mesmo, que só de um lado, no segredo daquilo que no outro motiva. Amar, pode ser também a capacidade, de deixar que o outro possa ser feliz com as opções que faz. Diariamente confronto-me com as tuas frases, que pretendem ser mensagem, mas são demasiado abrangentes, ou ambíguas, para que entenda o teu querer e quais os objectivos desse fraseado. Por vezes sorris e respondes, outras vezes, ficas longe como se não existisse quem te escuta, ou lê. Tento entender nesta modernidade, mais propriamente estas tecnologias de comunicação, em que o importante é nos mostrarmos como se fossemos pessoas felizes. Na verdade, são infindas as situações em que a fachada, é só a cara da casa reconstruída por dentro, ou que esconde as ruínas do coração dilacerado por emoções várias.
dc
Nesse vazio de
gargalhada plástica, de frases incoerentes, imagens disparatadas semelhando
humanos, a música vai mediando, entre os pensamentos desconexos e a realidade
que magoa e traça sulcos, nesses diferentes caminhos, onde o sangue corre nas
veias e atinge o alvo. Raciocínio absurdo, porque não? A vida tem momentos tão
absurdos, que nos faz ignorar perguntas, com medo da dureza das respostas. Nem
sempre o humor é fácil, se fosse teria de vir acompanhado de cinismo, para
poder dizer sem receio de magoar. O sorriso, ou a gargalhada esperta no comum,
vem de ferir o outro, que não se apercebe da sua insuficiência e é motivo da piada
fácil. Quase sempre esse humor fácil é fruto de um cinismo e ignorância. É uma história,
fruto da escorregadela na casca de banana, ou da inocência de quem se revela
perante o outro. A imagem, é o enquadramento de cena onde ele ganha os sorrisos
alheios. Sim, aprecio muito mais o sorriso simples de quem nada teme, que não
se gasta em gargalhadas de fácil cometimento. Sim, algo que sai de dentro, aquela
a alegria que fluí do prazer de estar e viver o momento presente, mesmo que só,
como aquela imagem brincalhona do gato, desfazendo o rolo de papel higiénico, ou
espreitando com a curiosidade de quem se diverte, ou ainda da possível distração,
de escovamos o cabelo com a escova de dentes, como espectadores do insólito.
Tudo, assim escrito, porque sendo sábado eu sorrio, agarrando a hipótese talvez
ridícula de que um dia será possível, que o prazer do sorriso inocente, livre,
sem constrangimentos, aconteça sem que não sejamos um avatar que quis esconder a
realidade.
dc
Sei que
risco e desarrisco, correndo o risco de nunca acertar, mas que hei de eu fazer,
se até tenho receio de começar. A página de papel, em branco, implica a escolha
do que escrever, as letras a desenhar, a criatividade do gesto, o cheiro do
papel e da tinta nas letras a escorregar. Por fim, palavras alinhadas,
pensamentos desalinhados, como possibilidade. As palavras dizem, expressam(?) o
que parece certo, e encontram-se alinhadas como se tudo convergisse, mas os
pensamentos se contradizem, e nesse caminho do certo ou errado, tudo é
desconcerto. Na verdade, penso que posso dizer-te o que penso, dizer-te, amo-te
de modo intenso, com as palavras certas. Pode não ser ideia acertada, que
perturbe o teu caminho, quando muito tens para andar. Eu, pelo contrário,
caminho decrescendo, vou-me afundando diminuindo o tempo, para aqui restar.
Nascemos distantes no tempo, em cidades equidistantes, no entanto, próximos no
entendimento, ou se calhar nem isso, porque amar é um sentimento sem
explicações datadas no tempo, é um lugar de dois, que é, ou será, bom enquanto
durar.
Então em que ficamos, como dar o primeiro passo além da escrita. Não me quero calar.
Não dizer, é ficar sem saber, se foi errado, ou não, se nem sequer começamos a
dizer o que cada um pensa. Volto ao princípio, risco e desarrisco, esmago folhas
de papel, escolho nova caneta, até penso usar um pincel, que em tempos usava
para desenhar letra, apreciando as cores à mão na paleta, do mesmo modo, assim
ia desdobrando, entre pensamento e objecto no decorrer da execução, fosse em
tela ou cartão, esperando que a resposta fosse dada pelo coração. Fico por
aqui, neste texto com este sarilho, que nem sei resolver, tanto o que me adentra
consome. Olho sem ver, leio sem ter letras, e penso sem parar no que tenho que
riscar e arriscar.
dc
Sim, as lágrimas correm-lhe dos olhos, mas é no interior do seu peito que elas nascem. É ali onde elas se laboram, trazendo mágoa e tristeza. O mundo se derrete na mão dos poderosos e a gente humilde, planta-lhes aceitação fazendo-os mais fortes, tal a aprendizagem que a ignorância lhes permite. Tornam-se apolíticos porque se julgam incapazes de saber dizer, de si. Aceitam fácil, a vozearia dos farsantes, engravatados, e deliciam-se com o seu falar bonito, mesmo usando palavras que mal conhecem, em promessas dum futuro que anseiam, mas dificilmente se cumprirá. Acreditam, porque é mais fácil fugir do confronto, com quem os esmaga e explora. Sentem-se ignorantes incapazes de discurso, por inconsciência do quanto seria suficiente dizer-lhes da fome que os corrói, das casas miseráveis onde vivem, do embrutecimento, da falta de formação e cultura a que são devotados, não aceitando o engano de que o mundo de hoje é outro, que temos de estar a par da modernidade, das tecnologias e têm de se adaptar, como se hoje a exploração dos seres humanos, não tivesse requintes, tão, ou mais graves do que no passado. Sim, ele tinha de ficar triste, por saber que muitos no seio do povo, ainda acreditam que pôr uma cruz num papel e colocá-lo numa urna é suficiente para mudar o mundo onde vivem. Desconhecem, ou tentam não pensar, que os que, inventaram o uso do papel e da urna, são os mesmos que os enterram, na miséria dos dias e que os convencem que não há alternativa, desmobilizando-os, da sua força e capacidade para mudar o mundo, nas lutas e na conquista da rua, como palco do seu descontentamento. Temem os vermelhos e apresentam-lhes os laranjas, mas malaguetas vermelhas e picantes, não enganam e dão melhor sabor aos comeres, no entanto, as laranjas na sua cor vistosa, nem sempre são doces. Somos o povo que tudo conquista na amarra, porque nada lhes é dado, mesmo o que é seu por direito. O povo tem de confiar, pois, até o girassol de cor amarela e brilhante contém no meio o preto, onde se alojam as sementes, que trazem o futuro. Arrisquemos, onde nunca o fizemos por medo, temos do nosso lado a razão, para enfrentarmos essa gente, que sempre fez do povo o seu “putedo”.
dc
Não sobrecarregues o teu silêncio, experiencia-o e apreende, ele existe na construção do que és. Tudo o que ele começa por aportar, no correr da sua existência, vai-se diluindo, torna-se meditativo, preenchido por ideias e imagens, que não param no tempo, mas vão evoluindo de um ponto a outro, trazendo novas energias e melhores perspectivas. Escolhemos o silêncio, como necessidade intrínseca do próprio sujeito, ou como resposta de circunstância. Pode ser um silêncio a sós, ou, acompanhado, e neste último caso, é importante que exista espaço e respeito mútuo, entre quem o pratica e com quem se partilha, mais do que silêncio.
dc
Pensava ele. Não ignoro o seu sorriso, seria
impossível, ele é uma brisa que chega para refrescar a canseira dos dias. É
verdade que não o manifesto, que o vivo em segredo. Quando ele surge, na
moldura do seu rosto, fico-me pelo silêncio deliciando-me com a sua leveza, com
as linhas que o desenham na tua boca, com a doçura com que adentra em mim. Dizem, os artistas, os filósofos, os criadores, e muitos outros pensadores, que o amor
não é, só palavras ricas de significado, é a disponibilidade para com o outro
em diferentes circunstâncias da vida, na alegria que traz, no abraço prolongado
que aconchega, na sua cultura, singeleza, beleza da alma, tantas e variadas emoções
e razões. São eles que falam, quase sempre, menosprezando a materialidade do
corpo no surgir de tais sentimentos. Talvez tenham razão. Para mim, tudo bem, é
possível que alguém pense desse modo, mas não estou convencido. Não fosse aquele
seu sorriso, a porta de entrada para o todo que representa, o resto seria insuficiente
para chegar até mim, ele fala de dela, sem pronunciar qualquer palavra, ele é
um dom raro de humana criatura. Aquele seu sorriso, foi o ponto de partida para
a minha atenção, razão do meu entusiasmo de partir à descoberta, de todo o
resto, que dizem, estar mais além do que é físico. Talvez tenham sido esses
pensamentos, que o seu sorriso me desperta, que agora ao chegar da noite, com a chuva
derrubando o silêncio, no seu cantarolar costumeiro a derramar-se sobre a
terra, me sugeriu que a vida é construída, no meio de estações de tempo e de
experiências. O seu sorriso, chegou como verão inesperado e tem-se mantido. Agora, que foi batizado pela chuva que anuncia, que o outono está à porta, fica-me a
esperança de que se manterá na órbita do meu espaço, na sucessão das estações, evitando
que o meu se definhe, pela sua ausência. É bom saber dela, seja na noite que
chega, ou no dia que se inicia, com um sorriso que fala além das palavras.
dc