quinta-feira, 31 de agosto de 2017

AGOSTO|2017




Porque findam as férias, dos que as tiveram;
porque o fim de agosto, trás o cheiro do outono, com as variantes possiveis de um setembro;
porque se seguem a este período diferentes formas de nostalgia, de memórias, recentes ou passadas;
porque me afundam, me confundem, misturando palavras, como solidão e estar sozinho;
porque me trazem as razões do vazio, a solidão morredoira de uns e o sozinho criativo de outros ...


Sozinho
Quero
Crio
Invento
Estou
Sou

Solidão
Obscura
Caminhada


Cadinho
Dor
Sem chão
Vazio
Sem vida
Fastio
Somente

Solidão
Desespero
Sem escuta
Sem voz
Junção
Cúmulo
D’Sós

dc




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

entre tudo e nada



Nem sempre agreste, nem sempre doce, nem sempre triste, nem sempre sorrindo. Simplesmente humano nos erros e acertos, sem certezas permanentes, nem dúvidas que não se desfaçam.
Por isso, se as memórias tem a doçura das coisas boas, ficam eternamente gravadas e a elas vamos recorrendo, para suavizar o azedo dos dias que surgem.
No entanto, hoje, só quero sentar-me sossegado, deixando o tempo correr, sem pensar no que posso ganhar ou perder. Quero a paragem do instante que é o presente, antes que seja passado e muito menos futuro. Quero só o momento, entre o tudo e o nada.

Dc


Ah, se eu adivinhasse onde te encontrar, e sem receio te pudesse abraçar, talvez sentisses o que Pessoa escreveu “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”

sábado, 12 de agosto de 2017

SE o amor existe





Difícil esquecer, o contorno que te delimita perante o espaço, Tens uma forma própria, que me faz reconhecer-te facilmente no meio da multidão, Nem preciso te ouvir falar, sentir o teu cheiro, ou ver os teus olhos. Tu tens o desenho que as minhas mãos tactearam e fizeram memória em mim. 
A distância é insuficiente, e a ignorância não afecta, se temos a consciência de que demos o melhor, sem perda de dignidade e valores. No meio do nevoeiro, se encontra a estrada, por isso a viagem tem de ser feita de cautelas, com pausas e regras seguras. Se o amor existe ele se manterá independentemente das vicissitudes da vida, no SE está a diferença.

dc

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Uma pegada no areal do sul



Há sempre uma pegada nas nossas vidas, uma marca de registo da nossa passagem por algum lugar, ou alguém.
Deixamos pegadas no chão da casa de banho, no ladrilho ou na toalha, no mosaico da cozinha, na alcatifa, no areal da praia e do rio, na beira da piscina, na mata, na relva do jardim, na terra húmida, no cimento fresco do pavimento, no alcatrão. Feitas por pés descalços, calçados com sapatos, com meias ou sem, de sandálias, chinelos, Umas mais leves, outras mais profundas, sempre fica essa marca de passagem, que nos identifica como seres humanos. Há pegadas que ficam dentro de nós, ou dentro de outros, no coração, na pele, na mente, na vida e seus dias. Há momentos que as pegadas repetindo caminhos, desgastam a superfície que pisamos, nos desgastam a ira, a impaciência, o pensamento, as ideias absurdas, os maus presságios, o procurar soluções.
Tantas vezes percorremos o chãos, passeando impacientemente tentando acalmar e descobrir, o por quê, dentro de nós, que quando nos apercebemos, as arestas agressivas já foram alisadas, a razão da nossa caminhada já se encontra longe, e só pensamos em dar seguimento ao que de bom fizemos ou ainda queremos fazer. 
Tudo tem solução só a morte é inevitável. Ponderar faz-nos amadurecer e é a forma de encontrar o rasgo que nos permite ser agéis na circunstância.
O caminho faz-se caminhando, o destino que queremos será o menos importante, se soubermos aproveitar e enriquecermos o que somos nesse caminhar.

dc



domingo, 6 de agosto de 2017

Desfiz-me do tempo





Desfiz-me da hora para não contar os minutos e perder segundos.
Desfiz-me da hora para que não seja certa, para não contar horas de apego,
minutos de tristeza, segundos de desassossego.
Não quero olhar os relógios sejam eles de sol, de pêndulo, de sala de parede, de pulso, da estação, do restaurante, do aeroporto, do tablier do carro, do forno, do microondas, sejam analógicos, electrónicos, digitais, minúsculos ou maiúsculos. Muito menos relógios que marcam diferentes horários de acordo com os respetivos continentes onde estão.
Recuso-me a medir o tempo que decorre, que me perturba, me acelera e me angustia. Quero que o tempo seja demora, para que a noite seja mais longa e que o amanhecer dure uma eternidade, tendo-te entre meus braços. Não quero um medidor de tempo que me rouba as horas de ti, me impede de te ver pausadamente, de saborear cada momento contigo. Recuso-me a olhar um relógio que me tira o tempo, que me rouba as horas de viver, os minutos e segundos encurtando os poucos momentos que temos como nossos. Os medidores de tempo enganam, quando te espero, as horas minutos e segundos duram eternidades, quando te tenho junto a mim eles correm a levar-te para longe. Quero-te sem medir o tempo, para sempre, como as coisas boas devem ser. 



dc

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Oiço Vozes




É difícil calar a voz que dentro de mim deambula, dando voltas repetitivas para que não saia a destempo. Tem entoações várias de acordo com os sentimentos, as emoções, os julgamentos que faz, por vezes aconselha-me, outras manda-me à merda, Fala com a minha voz e a de outros, como se de uma conversa cruzada. Uns dizem que devo estar esquizofrénico, ouço vozes, outros dizem.. mentira, não são os outros que dizem, é a tal voz que me segue. Sou um felizardo, tenho uma voz que fala tipo ventríloquo e me acompanha. Nem sempre a melhor conselheira, anda para cima e para baixo, parece não querer que o mutismo me tome. Dizem, lá estou eu, ela diz que é a voz do senso, da ponderação do pensamento procurando a forma certa de se ouvir. Na verdade enquanto ela fala eu calo-me para o exterior e permito que os outros falem, digam de si, mais do que alguma vez o fariam, se eu deixasse que meus lábios se abrissem para falar.
Hoje, aquela voz mais intima, falou-me de forma especial, aconselhou-me a escrever o que eu pensava, pondo em palavras o que as vozes diziam, deixando que livremente se registassem, Sugeria-me assim, libertar o silêncio de forma saudável dentro de mim, com a possibilidade até, de mais tarde, poder lê-las e meditar nos seus significados. De veras prefiro não as escrever, não gostaria de dividir com toda a gente os meus pensamentos, prefiro a reserva mental, fazer sozinho a catarse tentando descobrir o melhor e o pior de mim, ou dos outros. E depois o que seria, sem a guerra do raciocínio, do pensar intenso, da vivência das emoções, do avanço e retrocesso, da efabulação, da mentira criativa que alimenta as nossas estórias? Certamente ficaria triste de perder esse diálogo interno, e até correr o risco, de que esse famoso alemão “Alzheimer” me visitasse.

dc

"precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, não criticá-la, não usá-la."

(michel foucault)