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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Um novo começo

 

Caminho naquele estradão, feito de cimento, que existe paralelo ao mar, de vez em quando, paro e observo aquele céu rico poderoso de cor e expressividade, que interage com o mar, reflectindo-se, como espelho, até como se questionasse: “espelho meu, quem é mais belo do que eu”. Aos meus olhos surge como tela pintada, por prodigioso artista. Sou arrebatado pelo seu poder e fico inquieto, procuro descobrir, qual a razão, que faz com que aquela imagem, tão abstracta, me afecte, me fascine e me transporte para emoções inexplicáveis. Tento absorver o ar, devagar, enchendo os pulmões de forma cadenciada, com aquele ar carregado do cheiro da maresia e deixar que a “ausência” do que me envolve, me transportasse para outra dimensão, fazendo-me esquecer a própria existência como pessoa comum. Sem saber como, ali parado, meditava. O ano estava acabando e novo estava prestes a acontecer, recomeçando o ciclo repetitivo e eterno da existência. Talvez aquele momento, me lembrasse do efémero e da insignificância perante a grandiosidade da natureza.

dc

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Na sozinhês do banco de jardim



Gosto de me esperar, único, na sozinhês do banco de jardim. É domingo, a manhã está amena. Observo de modo meditativo, as árvores e as flores sobre o jardim, os pássaros, que neste meu esperar silenciado, me acompanham com o seu cantar melodioso, e não sabem, muito menos, adivinham, o quanto me fazem companhia e alegram. Fascina-me a sua graciosidade, o seu saltitar, nervoso e dinâmico, sobre o tapete de relva, ou o seu voo fugaz para a árvore mais próxima. Todos parecem iguais de morfologia, mas distintos na cor e desenho bem diferenciado, como que cada uma das suas “famílias” se identifica. O melro, que do preto só se distingue o seu pequeno bico e as rosadas patas; o pintassilgo de roupagem colorida, a poupa, encristada em cores sóbrias, a pomba acinzentada que parece ronronar, o raro canário amarelo de cantar distinto, e nos dias de hoje a predadora gaivota, fugida do mar e das docas, se passeia pela cidade, onde esgravata dos seus lixos abandonados, na busca de comida que no mar já não encontra.

Tudo isto neste esperar pacífico, onde estou, tal estátua, indiferente para quem me vê. Invisibilidade que leva ao engano, a pomba breve junto aos meus pés e o cão surgido, que se encosta de necessidade na minha perna, logo fugindo de espanto perante o meu prolongado, shiiitttt. Chegam até mim, trazidos pela brisa, aromas dos diferentes comeres das casas próximas, vêm enunciando, o menu melhorado, domingueiro. Vêm matizados com os odores do jardim, uns de refogados de cebola, estalando, outros de assado de carne melhorado, ou peixe grelhado. As vozes das gentes, que ali habitam, diluem-se em murmúrios entrando pelos ouvidos, rompendo o ar com facilidade. Enquanto isso ruídos dos carros da cidade se esbatem na lonjura. Adivinho naquelas casas, os banhos matinais domingueiros, apurados pela ausência da pressa, as barbas que se desfazem com cuidado, as mulheres que se perfumam e cuidam do seu rosto. Todos escolhendo cuidadosamente as roupas que saem da rotina do trabalho e surgem como a estrear. Como se à missa, todos tivessem missão por ir. Também posso lobrigar, muitos outros que se aproveitam, do lazer possível, e desfazem o tempo como lhes apraz, abandonando-se num desmazelo procurado, de indolência, tudo feito a desoras, distraindo-se a ver televisão, ou até um possível sexo gostoso e assim quebram a rotina do trabalho da semana.

Sinto-me num domingo adormecido, como aqueles que premeiam a Páscoa de todos os anos, com nuvens que se misturam na leveza do céu, brancas e cinzentas, que o sol vai furando em entretantos. Este é um domingo sem falas, nem interrupções, neste meu observar e pensar, onde também eu me cuido estando só.

 

dc


terça-feira, 30 de novembro de 2021

No calor do muro


Encolhido, como uma pequena bola de penugem, os seus olhos diminutos pareciam interrogar a minha presença com a máquina em riste. Desconhecia ele, a sedução que exercera sobre mim, desde que sobre o muro pousara aquietado, indiferente, aos que como eu, sentados na esplanada, aproveitavam o sol de inverno para superar o frio. Possivelmente, ele procurava o mesmo calor com que o sol presenteava o muro, talvez fosse cansaço, ou a penugem fosse insuficiente para o proteger. Apetecia-me agarrá-lo com as mãos, trazendo-o para perto do peito, no interior do meu sobretudo, como se de uma criança se tratasse e quisesse proteger. Pensamento, somente isso, nunca me permitiria tirar-lhe a liberdade de voar e escolher onde se acolher. A natureza emociona-nos e faz-nos apreciar, como estes pequenos nadas, obtêm uma dimensão maior, afagando-nos o coração.

dc


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Nós somos os que ficamos

Nós somos os que ficamos, depois da partida, seja ela para onde for, de modo temporário ou definitivo. Aqueles que nos deixam, marcam-nos pela ausência, em eterna memória, e esta, mesmo que mitigada com o correr dos tempos, está lá sempre como risco num disco de vinil que mantém eternamente a repetição das notas musicais. Ficamos com o que nos deixaram por esclarecer e resolver, com os traços que faziam o desenho do seu espaço de estar, com o reflexo das suas atitudes, com o que produziram ou ficou inacabado. Ficamos com a tarefa de buscar entendimento, para toda a confusão que restou após a ida. Doamos aquilo que nos incomoda, pagamos o que não devíamos, percebemos que afinal que era um alguém que nos amarrou à sua vida e nos deixa a responsabilidade de gerir as falhas, para que a imagem se mantenha de algum modo limpa. Nós ficamos e nem sempre da melhor maneira. A sua ida facilitou a resolução das suas preocupações, legou a terceiros a resolução dos compromissos que assumiu sem imaginar, a forma mais adequada de deixar aos outros as boas memórias de si. Somos nós os que ficamos, que esquecemos tudo o que de menos bom existiu e agarrámo-nos às emoções e às coisas positivas, que a triagem da nossa memória faz realçar, enquanto se vão diluindo os traços mais grotescos.


dc


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Sombras

Quando as sombras nos dominam, ninguém está perto para nos trazer a luz. Ficamos presos nos pensamentos desacertados, limitados no raciocínio e sem porta por onde fugir, ou lugar para se reencontrar. O clima emocional se desequilibra, tropeçamos nas dúvidas prementes, entre o que somos e o que não conseguimos ser. Suspensos, correndo o risco de que uma ligeira brisa nos empurre na queda, tornando-nos a massa mole que atapeta o chão e se espezinha, sendo, com sorte, adubo de um futuro, outras, prazer de quem esmaga pelo prazer de sentir o barulho crocante de um corpo de seiva já desaparecida, vampirizada pelos que, necessitados, em nós, encontraram alento.

 

 

dc

 


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Sábia natureza


Sabendo deste Outono arrasado pela penúria de alegrias e de máscaras sem bruxas, sem a guloseima de um abraço, ou de um beijo de ternura e celebração, a natureza nos presenteia com a sua cor de apelo ao renascimento, num acreditar, que nem sempre estaremos no redil de quem manda.

 

dc

 

sábado, 19 de setembro de 2020

Afinal o morto continua vivo

"As crises nos acordam para as coisas boas que não percebemos."
Robin Williams num dos seus filmes

Fizeram-lhe o funeral antecipado e, como se isso fosse coisa pouca, ostracizaram-no antes da morte, para que esta fosse mais fácil de acontecer. De propósito? Não, mas com a mesma inconsciência e prática, lhes é proposta por esta sociedade autoritária, dita moderna e democrática, em que o umbigo de cada um maior que a humanidade da qual fazem parte, num apelo insano ao individualismo ao “nós” antes do que tudo. Resistiu como sempre fez. Muitos silêncios, muitos vazios dentro desses silêncios foram necessários, e tempo para muitas coisas dentro de si, mudaram, para encarar a solidão como algo apetecível e lhe dar espaço próprio para pensar, para ouvir o que não se faz presente, reforçar, ou reajustar a sua identidade, com os valores e com evolução da vivência. Foi tempo de analisar possíveis erros e esboçar novos desafios e objectivos. Encontrar pequenas pontas perdidas, na manta de retalhos dos sentimentos e emoções, descobrir novos elos de ligação. Afinal o morto continua vivo, não para assustar nas visitas às campas dos cemitérios, mas para sorrir ao mar, ao sol e gozar o tempo de liberdade numa esplanada "desmascarada" de um qualquer café.

 

dc

domingo, 21 de junho de 2020

Domingo empanicado


Fechados, isolados, com o cutelo sobre o pescoço, vamos sendo intimidados com o medo da morte ao virar da esquina. Permanecemos, egoístas, defendendo o nosso castelo, mascarámo-nos, fugimos de quem gostamos, afastámo-nos de encontros em passeios, e das risadas em comum. Ouvimos as notícias, caindo como se fosse chuva, algumas delas contraditórias, e assim as pessoas não sabem a quantas andam. Vamos ficando calados, ou falando exageradamente do que desconhecemos e aceitamos por obediência, não por consciência. Ontem quarentena, mal conversada, hoje calamidade indeterminada. Empanicados, sujeitos à voz de quem manda e pouco esclarece, cortam-nos as pernas à esperança, ou nos dão como saída um futuro onde eles são donos e senhores, governando em nome da segurança, pela troca da liberdade. Há que abrir bem os olhos, dimensionando até onde os deixamos ir. Neste mundo “moderno”, somos telecomandados nas decisões, e aceitamos ser policias de possíveis servidões.

dc

sábado, 2 de maio de 2020

Engradados


Espalham o óleo untoso do egoísmo e do individualismo, o prazer da superfície das coisas, materializando-as na vida, que regam de desejo e ambição desmedida do ter. Vão-nos automatizando, para sobrevivermos robots da sua máquina infernal de poder. Desequilibram, criam novos paradigmas, rotulam e dão-nos os grilhões modernos, que aceitamos pacificamente, sobre a camada da pele, para que ninguém fuja ao seu controlo. Antes de tudo acontecer, somos desabilitados das asas do raciocínio, da inteligência, dos valores. Alimentam e sustentam o medo que nos faz trabalhar para sobreviver o “cada um por si” sobre o seu domínio.
Engradados de forma indiferenciada, bonecos articulados de uma sociedade corrompida, acumulam-se uns sobres os outros, aceitando pacificamente da voz do mandante, os ditames das elites obscuras, que querem e se vão apoderando, das suas mentes e corpos, tornando-os bestas egoístas, carnais, do eu, antes dos outros. Preparam-nos um futuro, cada vez mais curto, no qual não seremos actores da sua escolha.

dc
 

domingo, 9 de fevereiro de 2020

"Tenho saudades tuas"

Sim! Como se explica o inexplicável, se de repente desapareceste e a promessa de voltar, nunca foi cumprida? Amizade, companheirismo, seja lá o que for, devem ter, pelo menos, a capacidade de se expressar, não por mensagens que morrem no visor do telefone ou computador. As saudades que dizes sentir, são o sinal de algo que cresceu dentro de ti, viveu contigo nas partilhas, afagos, atenções e alentos. Se o mundo não acabou, a vida não é só trabalho, o descanso nem sempre é só dormir, por que razão te falta o tempo para uma caminhada, terminada com um café tomado numa qualquer esplanada junto ao mar, ou ao rio? Se calhar, até um qualquer lugar com um silêncio envolvente, seria suficiente, desde que nos permita falar de voz baixa com sorrisos entrecortando frases, olhos nos olhos sem o medo do que cada um diz. As saudades de ti são muitas, a disponibilidade sempre foi total. Só não posso interferir vontade de outrem, ou trazê-lo à força para matar as saudades que o dizem consumir ( afinal a saudade é de ambos).
Sim tenho saudades, também de ser importante nessas tuas saudades, de sentir que fiz parte de um período difícil de ultrapassar e, viver na pele como se em mim fosse, as tuas dores e dramas. Estou sempre onde estive, no mesmo lugar, onde de porta aberta às tuas falas, fui escuta atenta, colaborador no desbravar de teorias e factos emocionais, em momentos da alma que precisavam de encontrar soluções de maior conforto ao coração que no peito tremia, e na barriga fazia-te sentir borboletas pelo amor que te fazia sofrer. A saudade não se mata, atenua-se mesmo quando o tempo de permanecer é constante. Aparece quando te aprouver.

dc

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Sombras e reflexos


Será que fizeram tudo o que era necessário para defender o que tinham. Em que ponto do, nós, a preocupação foi o eu? Se ambos estavam bem porque temeram o fracasso, o medo de falhar? Seria por ambos terem um passado que falhou? Será que falharam já nessa altura pela sua fraqueza de serem pessoas com o eu acima de toda a sua vivência em comum? Arriscaram anos, no passado, na relação que tiveram, sempre procurando salvá-la e não tiveram coragem de lutar pelo que agora tinham. Cada um sofrendo com separação no passado, temiam o futuro, presos ao pesadelo vivido, para fazer do presente o pesadelo de não viver.
Arrastando-se com o fracasso às costas e dele não abrindo mão, fecham a porta a um novo olhar, a novos conhecimentos e experiências, perdendo de viver o presente com sangue na guelra e a vontade de voltarem a ser pessoa, com direito de amar. Por vezes, justificam-se com os filhos, outras com a distância e muitos momentos pela parte económica, no entanto, sozinhos acabavam por ultrapassar montanhas de problemas mais difíceis. Cedem de si, pelo amor aos outros e não ao seu. Perdem o tempo que não vivem, sem terem hipótese de recuperar e própria alegria de viver e serem felizes.

dc

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Folhas como pássaros



Cada folha, um pequeno pássaro pousado aguardando seu voo, cada galho, um braço, a seiva o sangue que alimenta, e um tronco um corpo vivo agarrado à terra.
Fico-me pelo olhar, absorvendo a espectacularidade deste fenómeno da natureza. A imaginação é tão fértil como a terra que o suporta. As árvores são um amor à primeira vista, que seja qual for o momento que se me deparam encantam. Tem vezes, que só por timidez, não as abraço procurando vivê-las, como uma namorada que tanto se ama e deseja. Pena é, que nem sempre as escolham de forma adequada a cada lugar e não façam delas a presença protegida e obrigatória no respirar dos seres humanos, tal qual o parceiro da nossa vida.

dc

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Como lágrimas saindo da terra




Saindo da cidade grande, procurei as terras do interior, onde a natureza nos toca mais dentro, onde se sente mais. O ar puro e os campos verdes ainda humedecidos pela chuva, criam maior recorte às imagens e maior definição às tonalidades. Ali estava aquela imagem suspensa esperando por mim. Como lágrimas saindo da terra, crescendo ao encontro dos fios, quase escala musical, numa sinfonia de encanto aos sentidos. Terra, plantas, céu e ar num cenário quase etéreo da natureza e os seus elementos, adentrando e arrefecendo o sangue das vibrações nefastas. A natureza ajudando na catarse das tensões, preocupações e sentimentos, que exacerbados, se tornam maléficos no entendimento da realidade dos dias.

dc