O tempo decorria e continuava esperando a sua
chegada. Ela pensa que chegará com pezinhos de lã, suavemente, com as falas da
sabedoria e do prazer, que colocam borboletas no estômago, fazem o sangue fluir
rápido nas veias e trazendo consigo o brilho aos olhos, brilho que adentra em
raros momentos, nos quais a felicidade bate à porta. Antecipadamente, alinhavou
circunstâncias, aplanou o terreno e, acima de tudo, procurou aprimorar o melhor
de si. Filtrou todos os casos e acasos, procurou melhorar a forma de dizer,
colocou calor, emoção e verdade nas palavras. Por precaução, esmerou o vestir, arranjou
o cabelo e perfumou-se de paz, e ficou levitando nesse lugar da vida em que a
esperança nos coloca. Sem temer qualquer barreira física limitativa,
acreditando nas emoções, inteligência e diversidade com que chegará até ele. Há
muito que acreditava na oportunidade, somente teria de manejar o momento com sabedoria,
deixando as emoções e a intuição libertarem-se para que se consumasse.
dc
sábado, 17 de janeiro de 2026
Na estação
domingo, 11 de janeiro de 2026
Folhas de outono
Sinto
prazer em destruir as folhas caídas das árvores no outono que, com os seus
diferentes tons, cobrem o solo. É um som característico, que as reduz a
pequenos resíduos, a uma massa de pó que, com a água da chuva, forma a lama que
aduba a terra. Como o pisar das uvas no lagar, assim produzimos o alimento que
permite um novo renascer. É assim a evolução da natureza.
Não sei onde descobri esse prazer, que confunde o ruído da destruição com o
gesto quase frenético de pisar, de tal jeito, como se quisesse fazer a catarse
de algo que dentro de mim procura saída. É possível que como ser humano, procure
reduzir a pó invejas, desavenças, deslealdades, amores passados, amizades
duvidosas e vivências de diferentes circunstâncias. Aquele pisar e o som tornam-me
enfadonho, como uma criança que, descobrindo a campainha, a toca repetidamente,
mesmo que não seja para chamar alguém. Na verdade, por vezes hesito em pisá-las,
seduzido pelo seu formato, cor e disposição no espaço, daí, tento fixá-las
através da objectiva como se procurasse, através da memória da sua imagem, mais
tarde dar-lhes nova vida. Na verdade, o problema não é das folhas, são as
emoções que, neste mundo caótico, de individualismo exacerbado, me envolvem,
levando-me a caminhar e a encontrar um meio de raciocinar em cima desse pisar, e
afastar esse inverno que se quer instalar dentro de mim.
dc
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
E pronto, está dito
Encantado com esse teu avatar, que se atravessa no meu caminho e na mesma aventura, dentro destas páginas, feitas de pontos binários, onde somos somente uma ideia, um rascunho da realidade. Somos a vulgaridade que se faz sentir, entre "likes" e "emojis", onde os cheiros são ausência e as ideias são a multiplicação de partilhas, com textos e imagens, cujos volumes se perdem achatados pela bidimensionalidade. Deformado olhar, que se dilui na imensidão de solicitações e sugestões, que surgem em catadupa e nos colonizam, nos tornam indiferentes, com bonomia plástica perante o caos e a violência. Somos a notícia, da não notícia. Somos alimento de publicidade enganosa: “venha já chatear connosco”, como se não tivesse melhor na cabeça, do que vir para aqui “chatear”, nas redes sociais. No entanto, o teu avatar diverte-me porque não me ilude, alimenta a curiosidade, ao mesmo tempo que se descredibiliza, quanto à responsabilidade do que diz e apresenta. Torna-se assim divertido como jogo de paciência, onde se procura, encontrar debaixo de uma pele possível, algo mais do que aparentemente quer dizer. Assim, se usa este espaço como lugar de partilha, de distração espiritual e humorística, página de comunicação de pensamentos e preocupações que o algoritmo tenta anular. Persisto na ideia e acredito que de onde em onde, se pode furar o bloqueio dos mandantes e possamos ser escutados, lidos apercebidos, avaliados, julgados, positiva ou negativamente, pelos viajantes que, como eu, navegam nesta comunicação fria. Assim, assumo que o meu passeio, pelas páginas desta rede como adjectivo social não é em vão. Tento, presumo, que com isso motive muitos mais a não adormecerem na narrativa de quem manda e acreditem na sua capacidade e intuição para encararem as melhores opções perante a sociedade. É bom ver caras bonitas, físicos bem proporcionados, mas não adianta muito se não tiverem atrelados, outros conhecimentos, que sirvam como referência, ao que tipo de amizade que poderá ser vivida, mantida, acalentada, conjugando diferentes modos de pensar num caminho de diversidade e aprendizagem.
dc
domingo, 28 de dezembro de 2025
Cravo foste na nossa vida
Naquele dia 27 de dezembro, em que o
teu choro recém-nascido, se tornou presença nas nossas vidas, assumimos a
responsabilidade que é formar um ser humano. Não sei ainda, passados estes anos
todos se fizemos o nosso papel como deve ser, mas de verdade, nos esforçamos
para que tal acontecesse. Tu que foste a revolução na vida de um casal jovem,
vivendo uma revolução de cravos na mão. Cravo foste na nossa vida e até hoje
perfumas e nos dás força para viver.
Actualmente são maiores os desafios e o amadurecimento a que somos forçados, o
coração endurece e com isso as formas de nos expressarmos. A saúde, as
dificuldades económicas, e a sociedade no seu todo se alterou, infelizmente não
para melhor, mas a escola da revolução do passado e o crescer, na vida que tens
vivido, deram-te as defesas, que são a base da tua tenacidade e capacidade para
superar os desafios que se te deparam.
É difícil escrever sobre a
importância da tua presença, na minha vida. Hoje não és somente filha, esposa,
mãe, és também alguém responsável que vela por outros, que também são pais e
filhos de alguém. Ao aperceber-me disso, reparo que afinal já dobraste a da
data da revolução dos cravos e tudo o que isso significa.
Afinal, as palavras navegam nas frases deste texto, são só um pretexto para te
dizer, que por vezes, por estupidez, ou comodismo, não nos expressamos
devidamente. O amor é uma escolha, ela se mantém nesta responsabilidade de ser pai.
Sabes que contas comigo, para te apoiar a superar, os momentos fáceis ou difíceis,
sem deixar de acreditar que és forte o suficiente para os enfrentar, mas que o
abraço de um pai sempre é um conforto extra, nas nossas vidas.
Beijinhos um XI coração do tamanho do mundo e até mais logo.
DC
28DEZ25
PS. um dia depois, porque um crash me surpreendeu. Hoje não falhou
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Só, gosto de ti
As rugas marcam-me o rosto, os cabelos
clareiam, o tempo passa de modo e inevitável, no entanto, a vontade de te
descobrir e saber porque me fazes querer-te, é bem maior, que o desejo de
perdurar vivendo por aqui, sem poder dizer-te, gosto de ti.
dc
sábado, 6 de dezembro de 2025
Sabendo o impossível
Sabendo o impossível, mais difícil é poder revelar, o que dentro se desfaz todos os dias. Gostaria que fossemos mais do que um olá. Que nos pudéssemos ver e conversar, que não estivéssemos tão longe um do outro, não pela distância, mas pelo tempo que cada um tem para usar aproveitando para se abrir ao conhecimento. Não é preocupação, se a tua atenção se prende na minha figura, ou forma de estar, porque amar pode existir mesmo, que só de um lado, no segredo daquilo que no outro motiva. Amar, pode ser também a capacidade, de deixar que o outro possa ser feliz com as opções que faz. Diariamente confronto-me com as tuas frases, que pretendem ser mensagem, mas são demasiado abrangentes, ou ambíguas, para que entenda o teu querer e quais os objectivos desse fraseado. Por vezes sorris e respondes, outras vezes, ficas longe como se não existisse quem te escuta, ou lê. Tento entender nesta modernidade, mais propriamente estas tecnologias de comunicação, em que o importante é nos mostrarmos como se fossemos pessoas felizes. Na verdade, são infindas as situações em que a fachada, é só a cara da casa reconstruída por dentro, ou que esconde as ruínas do coração dilacerado por emoções várias.
dc
sábado, 29 de novembro de 2025
Nem sempre o humor é fácil
Nesse vazio de
gargalhada plástica, de frases incoerentes, imagens disparatadas semelhando
humanos, a música vai mediando, entre os pensamentos desconexos e a realidade
que magoa e traça sulcos, nesses diferentes caminhos, onde o sangue corre nas
veias e atinge o alvo. Raciocínio absurdo, porque não? A vida tem momentos tão
absurdos, que nos faz ignorar perguntas, com medo da dureza das respostas. Nem
sempre o humor é fácil, se fosse teria de vir acompanhado de cinismo, para
poder dizer sem receio de magoar. O sorriso, ou a gargalhada esperta no comum,
vem de ferir o outro, que não se apercebe da sua insuficiência e é motivo da piada
fácil. Quase sempre esse humor fácil é fruto de um cinismo e ignorância. É uma história,
fruto da escorregadela na casca de banana, ou da inocência de quem se revela
perante o outro. A imagem, é o enquadramento de cena onde ele ganha os sorrisos
alheios. Sim, aprecio muito mais o sorriso simples de quem nada teme, que não
se gasta em gargalhadas de fácil cometimento. Sim, algo que sai de dentro, aquela
a alegria que fluí do prazer de estar e viver o momento presente, mesmo que só,
como aquela imagem brincalhona do gato, desfazendo o rolo de papel higiénico, ou
espreitando com a curiosidade de quem se diverte, ou ainda da possível distração,
de escovamos o cabelo com a escova de dentes, como espectadores do insólito.
Tudo, assim escrito, porque sendo sábado eu sorrio, agarrando a hipótese talvez
ridícula de que um dia será possível, que o prazer do sorriso inocente, livre,
sem constrangimentos, aconteça sem que não sejamos um avatar que quis esconder a
realidade.
dc