domingo, 30 de outubro de 2016

Ilusão de Outono



A chuva, abençoada cai encharcando o solo, amaciando as terras endurecidas pelo calor do verão. Solo que liberta vapor quando a água fria lhe toca.
A água na terra faz lama grossa, espessa, onde rastos indefinidos nascem e morrem rapidamente, não há moldagem possível, assim se sente ele feito de matéria, não moldável nem adaptável a qualquer fôrma. Tudo vira fantasma, como se nevoeiro tomasse conta da paisagem, fazendo que a vida vire algo volátil.
A natureza o instruiu a resistir às vontades alheias de formatarem os seus desejos e vontades. Partilhar sem se perder de si, sentir sem que seja apego, viver e não ser um morcego só visível na noite que o protege. Antes a tartaruga que sai do ovo, partindo a casca da “segurança”, e batalha para sair da areia em direcção ao mar para se encontrar com a vida, nesse mar intenso, imenso, onde se pode sobreviver e durar.
Quem disse que a vida é fácil? O tempo não se ganha, perde-se como tal há que aproveitar as próximas vinte e quatro horas tentando contabilizar o maior de momentos positivos. Com a mudança da hora, a ilusão de que se ganha mais algum tempo para viver, afinal precisamos de manter a ilusão.

dc

1 comentário:

  1. Colhe o Dia, porque És Ele

    Uns, com os olhos postos no passado,
    Vêem o que não vêem: outros, fitos
    Os mesmos olhos no futuro, vêem
    O que não pode ver-se.

    Por que tão longe ir pôr o que está perto —
    A segurança nossa? Este é o dia,
    Esta é a hora, este o momento, isto
    É quem somos, e é tudo.

    Perene flui a interminável hora
    Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
    Em que vivemos, morreremos. Colhe
    O dia, porque és ele.

    Ricardo Reis, in “Odes”
    Heterónimo de Fernando Pessoa

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