Os meus dedos percorrem o copo grande, de pé alto, bojudo, adequado ao vinho tinto. Enquanto o faço as memórias ocorrem-me. Vejo um boca de lábios cheios, sorvendo e apreciando o vinho, a cabeça inclinando-se, o copo a ser pousado sobre a mesa e de seguida o sabor do vinho na minha boca. Os dedos desenhando o copo, lembram-me aquela manhã de domingo... os meus olhos moldando o teu rosto, deslizando pelos teus olhos fechados beijando as pálpebras, acariciando o teu nariz, beijando a tua boca levemente saboreando os teus lábios cheios. depois descendo observando o teu peito, percorrendo as curvas do teu corpo, com pequenas paragens, provocadoras, no ventre liso, afagando-te as coxas roliças, sentindo, como se a tu pele estivesse em mim. O sol, tinha o poder de te realçar sobre os lençóis e a vontade de te beijar foi mais forte. Não queria que acordasses. Queria sentir-te, ternura. queria pousar meus lábios, tão levemente, na tua boca e em teu rosto. como se te embalasse, no sono. que o teu sono me deixasse espaço. sentir o calor da tua pele nos meus lábios. te guardar dentro de mim como um segredo. Quando acordasses. sorrindo com a leveza das borboletas sobrevoando a flor. com os olhos enlevados, maliciosamente doces. em voz suavemente enrouquecida, dir-me-ias do teu sentir. algo tão estranho, tão bom e inexplicável, como se o amor fosse assim explicado.
Eu, no segredo, radiante, saborearia, cada letra cada palavra, e guardaria o meu segredo tão fundo para que nunca se perdesse na realidade crua dos outros dias.
Indecisa, pensei se um dia divulgaria esta “estória”. Eu senhora casada e mãe. Até cheguei a pensar da opinião dos meus próximos. A minha racionalidade e emoção em dose quanto baste, me apontou o caminho. Afinal porque ter medo de falar de mim, de um acontecimento, que no fim reflecte uma passagem do meu tempo. De emoção e de prazer. de paz e bem estar. sem marcas tão fortes que o me tivessem impedido fazer futuro. Anotei, que valeu a pena. mesmo curto. mesmo sem passar do enamoramento. ternamente saboroso. sim repiso. vale a pena contar a estória.
DE MEMÓRIA COM TERNURA Uma estória com a simplicidade das coisa vividas. aamr.
Conhecemo-nos na roda de colegas de estudo. A partir daí comecei a apreciar-te à distância. Quando nos víamos no café, eu sorria-te de longe, enquanto beberricava a minha cerveja. a minha bebida preferida naquele tempo. Não me ligavas, os teus olhos ficavam mais atentos à minha amiga. esta já me tinha descrito, tudo o que sabia de ti, e desmobilizava o meu interesse. Não teve muita sorte, pois o seu namoro foi curto e nós pudemos conhecermos melhor. Não sei se te recordas de sairmos das aulas, perto das vinte e três horas, e caminharmos pelas ruas de mão dada. Tu eras um homem alto, fisicamente bem constituído, com algumas brancas nas têmporas o que te davam algum charme, davas-me uma sensação de segurança, aquelas horas da noite. Eu uma minorca magra que quase não se dava por mim, com os meus botins pretos, com tacão alto para não desaparecer a teu lado. Preferíamos caminhar, para podermos conversar. tendo tu que fazer um desvio razoável para me acompanhares e aproveitarmos o jardim, enorme, da Rotunda da Boavista, para nos sentarmos. algumas vezes em teu colo, como dois adolescentes, enquanto trocávamos, palavras, falávamos de arte, dos estudos, de nós, entrecortando beijos, mimos e sorrisos. Era uma espécie de tertúlia a dois. Quando a hora já aconselhava, deixavas-me à porta de casa e eu na distância do jardim da entrada, até o passar da porta, me ia despedindo. Motivavas-me a escrever poesia ilustrada com manchas de cor, que eu te oferecia. Aceitavas a oferta, lias rapidamente, talvez por educação, mas tenho dúvidas que alguma vez lhe tivesses dado a importância que eu esperava. Perdi-me em ti. De tal modo, que quis dimensionar o nosso estar, para algo diferente daqueles passeios no carro, onde namorávamos e fazíamos amor como contorcionistas. Aluguei o atelier, justificando a mim própria, e de algum certo modo aos outros, como necessário para trabalhar e estudar. na prática foi o nosso ninho de amor. Em especial dos fins de semana, quando eu chegava das visitas à terra de meus pais, e vinha cheia de vontade de estar contigo. Foi aí que pela primeira vez conheceste o meu corpo na sua totalidade, sem que a roupa fosse incómodo Nessas alturas telefonava-te, e tu vinhas ter comigo. passávamos horas em permanente namoro, onde a dimensão do meu pequeno corpo se tornava enorme perante o teu desejo. e eu na procura do teu, sentia o aconchego do teu abraço, a carícia das tuas mãos o sabor dos teus lábios, até que a madrugada nos dizia termos de partir. E voltávamos de mão dada, para a rua onde me acompanhavas, novamente para onde sempre o fazias. As férias e ter de dar aulas, tiraram-me da cidade e fui para longe. Tu partiste para férias. Não houve regresso, fomo-nos afastando, e nem tu nem eu nos procuramos mais. Encontrei alguém que me levou e casei e tive um filho, aquele que um dia me viste no colo, que poderia ter sido teu, se tivéssemos pensado mais para além da vida de estudantes. Não há arrependimento, porque o que vivemos não se dimensiona. Pergunto-me o que fará ele? Pelo que sei perdeste-te no tempo, amarrado a ti próprio e aos silêncios e à solidão. Será como diz o povo “quem muito escolhe pouco acerta”? Espero que não, que te sejas feliz, ou que agora, pelo menos, leias os poemas.
No dia dos namorados, tão comercial, este poema de Daniel Filipe talvez diga mais a todos.
A invenção do amor
Em todas as esquinas da cidade nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho do medo da solidão da angústia um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel numa tarde de chuva entre zunidos de conversa e inventaram o amor com caracter de urgência deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis Apenas o silêncio A descoberta A estranheza de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente imperativo
Um homem e uma mulher um cartaz denuncia colado em todas as esquinas da cidade A rádio já falou A TV anuncia iminente a captura A policia de costumes avisada procura os dois amantes nos becos e nas avenidas Onde houver uma flor rubra e essencial é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo É preciso encontrá-los antes que seja tarde Antes que o exemplo frutifique Antes que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos Chamem as tropas aquarteladas na província Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências O perigo justifica-o Um homem e uma mulher conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los antes que seja tarde e a memória da infância nos jardins escondidos acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas Sobretudo protejam as crianças da contaminação uma agência comunica que algures ao sul do rio um menino pediu uma rosa vermelha e chorou nervosamente porque lha recusaram Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão Aplicado no entanto Respeitador da disciplina Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado e submetido a um tratamento especial de recuperação Mas é possível que haja outros É absolutamente vital que o diagnóstico se faça no período primário da doença E também que se evite o contágio com o homem e a mulher de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos a verdade incontroversa das declarações políticas
...
É possível que cantem mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz lhe lembravam a infância Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa das montanhas Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior Mas caminhou cantando para o muro da execução foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
...
Procurem a mulher o homem que num bar de hotel se encontraram numa tarde de chuva Se tanto for preciso estabeleçam barricadas senhas salvo-condutos horas de recolher censura prévia à Imprensa tribunais de excepção Para bem da cidade do país da cultura é preciso encontrar o casal fugitivo que inventou o amor com carácter de urgência
Os jornais da manhã publicam a notícia de que os viram passar de mãos dadas sorrindo numa rua serena debruada de acácias Um velho sem família a testemunha diz ter sentido de súbito uma estranha paz interior uma voz desprendendo um cheiro a primavera o doce bafo quente da adolescência longínqua Daniel Filipe
11 de Fevereiro de 2012. Inesperadamente , às 08.40 recebo um telefonema de um amigo... vamos a Lisboa, à “manif”, prepara-te, dez e pouco.. estaremos aí à tua porta, para seguirmos para Lisboa. ...na véspera tinha-lhe enviado uma mensagem aliciando-o “ há momentos únicos na vida onde fazemos e somos parte da história. É disso que se faz a nossa memória e a valorização da vida.”
Este relato quase me parecia, “mal comparado”, com aquela manhã de 25 de Abril de 1974, com os amigos a anunciar a boa nova, a revolução estava na rua, e o povo aderiu saiu à rapidamente.
Chegamos a Lisboa, por volta das treze e trinta. No Rossio, vimos os primeiros manifestantes, que se deslocavam para o local. Como eram horas de almoçar, foi o que fizemos, a uma centena de metros do Terreiro do Paço. Quando saímos, deparamos com uma Força de Intervenção da polícia. Homenzarrões, vestidos com aquelas roupas azuis escuras, parecem comandos, joelheiras, botas e outros acessórios que mais pareciam samurais, dos tempos modernos. Até isto, nos fazia lembrar aquelas manifestações, quando o “Marocas” já estava no poder, e queria intimidar. Voltemos ao presente, é esse que interessa. Fomos caminhando em direcção ao Terreiro do Paço, aí já se encontravam umas centenas de pessoas. Onde outrora fora porta para liberdade, a praça regresava às origens, tornando-se rapidamente Praça do Povo tantos eram os seus representantes. Foi uma daquelas manifestações que lembram os tempos do pós 25 de Abril de 1975. O povo sentiu bem na pele, as medidas “troikianas”, e decidiu acorrer em massa.
Antes dos discursos acontecerem, foram-se ouvindo aquelas músicas que nos aquecem a alma e nos dão força para resistir. As concentrações, que saíram de vários pontos da cidade de Lisboa, foram chegando e enchendo a praça. Um ambiente impar que trazia emoção, orgulho em participar, a consciência de que juntos somos uma força e que podemos fazer com o nosso país mude.
Os discursos, da representante dos reformados, e dos jovens sindicalistas, tiveram o seu quê de engraçado, se é que se pode dizer tal. Gerações tão diferentes, e com tantos pontos em comum. Ambos defendendo direitos que são obrigatórios, para que a sociedade evolua e com ela a felicidade e bem estar das pessoas. Direitos que ajudem os idosos a serem recompensados por anos de trabalho e sacrifício tendo reformas dignas, saúde e bem estar. Direitos que permitam aos jovens poderem estudar, encontrar emprego, fim dos empregos precários, que lhes tiram capacidade económica para poderem ter casa própria, o que os torna um peso permanente junto dos seus pais, por vezes desempregados, por vezes, também, vivendo com dificuldades, ou já reformados. O discurso do secretario geral da CGTP, foi empolgante e tocou, nos problemas económicos e sociais que se vivem no país e como a crise económica continua a servir os interesses do grande capital, que fazem o povo apertar o cinto para que eles continuem a fazer a festa do champanhe mas piscinas do Algarve, ou em Monte Carlo. E apontou caminhos de luta futuros.
Pode-se dizer que o dia 11 Fevereiro de 2012, foi uma jornada de luta, que pode marcar o início de uma nova fase da luta dos trabalhadores, e do povo em geral, para travar este governo de contornos fascistas, que pretende trazer os direitos do trabalho, para os tempos da Revolução Industrial, em que se trabalhavam 14 e 16 horas por dia e sem quaisquer protecções sociais.
Foi um dia em que me senti feliz porque para além das conversas, de café e nos corredores de qualquer lugar, eu fui parte activa no protesto. Assim todos tenham orgulho, em dar cara e não fugir à luta.
Nas noites e nos momentos que te observo e te ouço, faço-o na espera de ser regaço. e que quando me penses, teu sorriso se abra, tua alma se alegre, e todos voos te sejam permitidos.
As palavras que são nossas, e a nós dedicadas, com prazer serão lembradas.
Lembra-te sempre como te toco, como te respiro e como te dou o meu sorriso.
Nunca te esqueças, que meus dedos são as minhas falas em teu corpo, sussurradas em cada poro do teu ser.
Nunca te esqueças, tudo o que procuro é ser um porto seguro das tuas emoções. de um querer-te que não te amarra, para decidires como seres amada.
Só a liberdade de seres, poderá decidir quanto vale o que recebes, ou queres receber.
A crise foi criada pelo poder económico, e nós pagamos todos, para que não percam os seus privilégios. Nós passamos dificuldades e fome, eles não querem ver diminuídos os seus lucros.
O trabalho deve proporcionar ao homem o que ele necessita e não transformar-se numa forma de o escravizar. As propostas deste governo não são para distribuir melhor a riqueza nacional e diminuir o fosso entre ricos e pobres, mas para alimentar o poder económico que cilindra quem trabalha.
Hoje em Lisboa todos juntos para combater o governo de mentira. Todos, para provar que as sondagens são fabricadas e favoráveis ao governo.
Hoje lutando contra os aumentos que afectam os mais desfavorecidos, da sociedade, para os ricos fiquem mais ricos.
A HORA É DE LUTA E IR PARA RUA GRITAR, JÁ É TEMPO DE PARAR COM ESTA PREPOTÊNCIA, DE NOS QUEREREM TIRAR TODAS AS CONQUISTAS SOCIAIS E ECONÓMICAS, PARA AS QUAIS LUTAMOS ARDUAMENTE ANOS E ANOS.
Antes que o dia chegue. Por razões, comerciais com data marcada.
Apetece-me falar do dia dos namorados. Embora pense que a criação deste dia é no mínimo absurda. Caso contrário teríamos de criar o dia dos casados, dos divorciados, dos amantes que amam, dos amantes que se deitam na mesma cama a horas marcadas, enganando-se no amante e no local. Dos tristes que nunca namoraram, dos solteiros com namoros desfeitos, dos desfeitos por namoros imperfeitos.
Faz-se deste dia uma espécie de 1º de Maio, ou 25 de Abril, como se fosse um marco histórico. Como se namorar tivesse um só dia importante e o resto já não. Não gosto. pode acontecer, que uma directiva governamental impeça a existência do dia, pensando ser feriado, ou data revolucionária, tornando o namoro clandestino.
Namorar é bom, não tem data, nem limites de tempo e espaço. é um afresco para permanecer e manter, mesmo nas relações já se desenvolveram para outro patamar, seja de casados, amantes. namorados de longa duração.
Transformemos a vivência a dois num constante enamoramento