Muito do que escrevi, escrevo ou escreverei tem rastos de vida, tem pele esfolada e ardência que causa dor.
Tudo o que os outros, de igual modo, escrevem para que eu leia, contribuem para o design do percurso das minhas palavras.
Não há deste meu lado, a pretensão da linguagem e capacidade daquele que é escritor, somente escrifalar, do muito que a sensibilidade e observação sugerem, e, talvez pôr em palavras aquilo que por vezes a timidez ou outras razões nos impedem de fazê-lo de outra forma.
De qualquer modo escritafar, seja de sonhos, cicatrizes, risos ou tristeza será sempre um modo saudável de catarse da alma e terá sempre o ADN de quem o faz.
Do meu amigo aqui transcrevo e assino por baixo. A sua bem humorada explicação serve para que muitas pessoas aprendam um pouco de português e a estarem atentas aos dislates que por aí dizem. Aqui vai.
Odeio os adjectivos
Tenho um amigo que não perde um debate na Assembleia da República ou uma audição numa qualquer Comissão Parlamentar.
Diz-me que se enerva neste jogo sujo das direitas contra as esquerdas, mas que de tanto matutar no que vê e ouve, arranja ao fim de algum tempo uma melhor resposta ao que o enervou. De treino em treino, apurou um sentido crítico, não raras vezes bem humora- das. Adepto do Eça de Queiroz(quem não é) e das suas “Farpas”, que lê repetidamente e cita á exaustão, diz que se estivesse na A.R. usaria o humor mortífero para cilindrar o adversário. Quando na conversa concordei que uma boa laracha liquida mais que um argumento ideológico ou um juízo macro-económico qualquer, retorquiu-me que só não o fazem por falta de cultura.
Dei-lhe toda a razão.
Saber dirimir sintacticamente torna-se uma arma terrível na mão de alguém de cultura, como se torna uma arma assassina do próprio, se a massa cinzenta de que dispõe for de segunda escolha.
Veja-se António José Seguro a responder aos jornalistas sobre a posição do PS no voto a dar sobre o O.E. :
- Abstenção Violenta.
Como é de calcular entrou de imediato para o anedotário nacional.
Ao adjectivar a abstenção Seguro julgava dar uma imagem reforçada da posição do PS.
Se soubesse um pouco mais da língua que tão mal fala saberia que o adjectivo, traz sempre água na bico ou seja é para disfarçar uma mentirita.
Exemplos:
Democracia liberal; Democracia financeira; Democracia ocidental; Democracia muscu- lada etc pois estaria aqui até amanhã a adjectivar a desgraçada da Democracia.
Democracia defini-se por ela própria; se adjectivada deixa de o ser. E ainda por cima esconde uma aldrabice.
Adjectivar não é aditivar, é travestir a mentira para que os mais incultos ou lorpas sejam levados á pincha.
"Hoje declarei em casa de uns amigos que a maior prova de amor que um poeta pode dar a uma mulher é a sua intimidade. Escrever versos diante dela é qualquer coisa como parir com um Cristo à cabeceira da cama."
Um noite, cerca das duas horas da madrugada, um individuo que viajava de carro, por uma estrada escura e deserta no interior do país, de repente, sentiu um desequilíbrio no carro. Saiu e viu que tinha um pneu furado. Quando se preparava para o mudar verificou que não tinha macaco para o fazer. Olhou em redor preocupado e viu ao longe uma luz que lhe parecia ser de uma casa. E a ela se dirigiu esperançado.
Como a distância era grande, ele foi pensando na forma como iria pedir aos habitantes da casa o macaco para mudar o pneu. E então começou a pensar como se devia fazer o pedido:
- Olhe o senhor desculpe o adiantado da hora, mas tive um furo e estou sem macaco para mudar o pneu o sr. Podia-me emprestar... O gajo vai ficar f...do a estas horas da noite, pensava ele. Imagina se ele está com a mulher enfim... que se lixe eu tenho mesmo que lá ir. Talvez deva mudar o discurso.
- Olhe eu sei que é muito desagradável acordar alguém a esta hora da noite, mas sabe aconteceu-me um imprevisto.... e se o gajo me manda àquela parte e não me empresta?
Assim foi o condutor se aproximando da casa e conjecturando como faria o seu pedido e matutando como seria a resposta, que para ele iria sendo cada vez mais desagradável.
Quando chegou perto de onde vinha a luz verificou que afinal era um casarão enorme e sumptuoso. Preocupado e já consumido pelas especulações ao longo do caminho, aproximou-se e tocou à campainha da porta, Entretanto na sua cabeça só lhe vinham imagens desagradáveis de como os donos o iriam receber.
De repente acende uma luz e abre-se um janela onde parece um individuo que em voz ensonada lhe pergunta:
- O que é que pretende...
O condutor furioso vira-se a cabeça em direcção à janela e diz-lhe. Não é preciso nada vá-se lixar vá pra ò car...meta o macaco no cú.
(anedota retirada da internet)
Esta estória anedótica, é um bom exemplo do que diz o povo “ Lançou os foguetes, apanhou as canas e fez a festa”.
Muitas pessoas especulam tanto em relação ao que os outros pensam, ou aos seus comportamentos, que acabam por mostrar de si próprios aquilo que aos outros atribuem, ou seja, vira-se o “feitiço contra o feiticeiro”.
"A talho de foice" duas quadro do António Aleixo:
Sei que pareço um ladrão Mas há muitos que eu conheço, Que, não parecendo o que são, São aquilo que eu pareço.
Veste bem já reparaste Mas ele próprio ignora Que por dentro é um contraste Com o que mostra por fora.
Por vezes o silêncio é uma resposta Por vezes é coisa nenhuma E outras falta do que dizer Ao certo não há evidência alguma Se o silêncio tem razão de ser
Nele a mente encontra o vazio Fixa-lhe o olhar na distância infinita Enquanto dentro de si prevalece o frio Duma alma inquieta que não grita Nem encontra razões da sua desdita
Voará se o deixarem para terras do além Sem procurar se a verdade está mais perto ou se longe na aridez do deserto Talvez sejam fantasmas e não haja ninguém Nesse silêncio do mundo que a sua alma tem