Foi sempre assim, lembras-te? Nunca se percebia onde acabava um corpo e se iniciava outro, as mãos que se apertavam, ou soltavam, com a expressão das emoções e os cheiros somavam informação ao que fazíamos e como nos amávamos.
Era pouco o tempo de estar, mas longo o prazer naquele chegar de reencontro, como se fôssemos redescobrir cada poro da pele, cada pequena forma da morfologia do corpo, cada brilho do olhar, o sabor de cada beijo molhado ou simplesmente corpos se roçando ao de leve. No entanto eram as mãos se agitando, a melhor expressão e assinatura do momento, sondando cada espaço, como se cada toque farejasse cada pedacinho de nós. E eram elas, mais tarde, que nos amarravam um ao outro, um dentro do outro, cada um se perdendo no outro, cada vez mais fundo, mais longe, atordoados naquele retomar do tempo perdido. Nem mesmo, quando temporariamente saciados, elas se afastavam, permaneciam coladas, como se procurassem manter todo aquele momento, como prisioneiras presas por perpétuas grilhetas.
O domingo, habitualmente o espaço da partida até nova chegada, O silêncio marcava a angústia da despedida, os olhos brilhavam, mais do que nunca, e o beijo tinha o sabor da ausência que se avizinhava, a dor da distância. Por vezes, ficava-me a pensar de forma egoísta: “não deveria haver dias da semana, mas só domingos” ou então, “poderíamos ter o livre arbítrio, de alterar o que nos impede de que todos os dias sejam domingos”. É, o domingo era já no dobrar da esquina do tempo, mas parecia uma eternidade até acontecer..
Nesse fecho do dia, as mãos voltavam a se aprisionarem até ao adeus temporário, em que o aceno era o remate final.
dc
domingo, 6 de setembro de 2015
As mãos. Porque hoje é domingo
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sábado, 5 de setembro de 2015
Limito-me a ser
Fecho-me na rede que cobre uma parte de mim, como se estabelece-se assim os limites de usufruto, ou descoberta, do que existe para além das aparências. Sem ser uma estratégia de provocação, em que o esconder pretende ser o contrário, eu revelo até onde vão os meus desejos e pensamentos. Rede e chapéu, não são mais do que adereços das dúvidas em que me escondo, em relação aos meus desejos, e ao que pretendo dos outros, na observação que possam fazer do que lhes é exposto. É evidente que a timidez existe, marcada por aquilo que faço, enconcho-me na forma, diminuindo a dimensão das coisas, para que não vejam mais do que pequenas nesgas de um corpo que permanece confinado aos limites do socialmente correcto. Perdi a oportunidade de declarar-me suficiente e livre, para ir mais longe que a limitação exposta. Limito-me a ser.
dc
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quinta-feira, 3 de setembro de 2015
A vontade não morre
A neblina pousa nos ombros
com o peso do inverno.
O pio das gaivotas
morre nas folhas caídas.
O rio caminha desenvolto
prá foz das suas vidas.
A vontade não morre,
esperança, o que lhe ocorre.
Sem medo da partida
olha o mundo da sua vida.
Como tudo, não há tempestade
sem a bonança como realidade.
Senta-se, esperando o sol acordar
e com ele o prazer de viver e ficar.
dc
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Foto: Weichuan Liu (net)
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Homem, não chora
Rios correm nos olhos do homem que não chora
Ele sabe que não volta àquelas margens
Ele sabe o que derruba na sua forte corrente
Ele sabe que a sua calma atrai a doçura e alegria do navegar
Ele sabe que vai morrer na foz, se o seu amor não voltar.
dc
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Foto:Adam Dobrovits
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Assim, sem dares por nada
Assim parada no tempo
Assim olhando longe
Assim alojando a dor
Assim sem saberes
Assim ficando
Assim sem o teu amor
Ele partiu sem dar tempo
Ele partiu ainda só enlevo
Ele partiu quase em segredo
Assim, ele partiu, sem estares preparada
Ele, assim foi, deixando-te amargurada
E hoje, assim, sem dares por nada
Sabes que ele partiu e te tem amarrada.
dc
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domingo, 30 de agosto de 2015
Meu (a)mar
teu corpo
é o imenso areal
onde repouso
na brisa
dos teus lábios
o ar que respiro
e na espuma
do teu mar
os sonhos a realizar
dc
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quinta-feira, 27 de agosto de 2015
ABSTRACÇÃO
Será possível, conseguir explicar o silêncio que se faz dentro de nós? Como se consegue demonstrar que se ouvem os ruídos exteriores, se eles só funcionam como pano de fundo desse nosso silêncio?
Fecho os olhos e aperto as mãos, uma de encontro à outra, forte, para sentir que estou aqui, e fico mais atordoado pelo silêncio, que se torna mais profundo, como se entrasse num buraco estreito sem fim, onde cada vez que descemos nos isolamos mais e mais.
Sinto a presença dos móveis, dos objectos, dos milhares de livros que me rodeiam, mas eu estou fora, longe, como se estivesse mais perto de ser ar, do que essa coisa material que se chama corpo humano. Será esta a altura em que o cérebro se fecha e parte para um outro lugar sem nomes ou memórias...
...sinto as teclas debaixo dos dedos, como se tivesse acordado de repente, reparo que estive ausente uns momentos, porque demoro a reconhecer o que está escrito na minha frente. Corro para frente do espelho para saber se meu bafo marca e me diz que estou aqui, Estou de facto, mas meus olhos estão silenciosos, sem brilho estão apagados, algo morreu sem que me tivesse dado conta, ou assim quero crer.
Afinal onde eu andei que me perdi algures, Que se passou para além de.....
O silêncio se foi, mas um vazio enorme se espalha por todo o eu, como se duma máquina tratasse que funciona automaticamente, porque programada, com energia e função para cumprir.
Onde estive eu afinal para que os meus pensamentos surjam agora tão matematicamente expressos, com raciocínios tão frios, mas de uma lucidez incrível, como algo agarrado à pele?
Será melhor não pensar muito, talvez, por momentos tivesse cruzado a fronteira dos impossíveis, quem sabe...há tanta gente que tem sonhos, constrói vidas, mesmo quando parece tudo perdido..quem sabe... Será que o sorriso e gargalhada regressam... e vou novamente acreditar que existe gente, que ama e sente, que sonha e vive, como gente verdadeira, que não só miragens, objectos, cumpridores de funções pré-destinadas?
dc
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